Gigito lança o vídeo clipe Vira Lata da C.G., uma forte crítica aos modelos de vida que nos são impostos, revestida pelo humor afiado característico de Gigito.
A partir do momento que nossos pais tomam conhecimento de que viremos ao mundo, inicia-se o processo de lapidação do molde através do qual tentarão nos formatar. Irão buscar meios de nos fazer adotar seus valores, seguir sua religião, torcer para seu time. O ambiente familiar é a primeira fase desse processo.
Esse microcosmo faz parte e serve aos propósitos de uma totalidade a qual não percebemos sem um esforço reflexivo. Tudo isso funciona de modo a formar nossa personalidade, fornecendo um sentido pra nossa existência, que é exterior a nós mesmos. Tudo pré concebido, cumprindo as exigências de uma maquinaria há muito posta em movimento.
Muitos interesses estão em jogo, precisa-se que a sociedade tenha indivíduos que cumpram o papel social que lhes é determinado e perpetue a estrutura de poder existente. Vivemos numa sociedade capitalista e para esse tipo de sociedade o indivíduo ideal, aquele que perpetuará essa estrutura, deve desejar consumir. Deve acreditar que sua existência se realizará através do consumo. A felicidade só é possível se conseguirmos consumir.
Existem aqueles que no decorrer desse processo se incomodam e percebem não ansiar pelo modo de vida que lhes é oferecido. O autoconhecimento leva a identificar os verdadeiros anseios, distintos de um indivíduo para outro, e de algum modo leva o indivíduo a assumir a responsabilidade de dar sentido à sua própria existência.
Em Vira Lata da C. G. Gigito apresenta uma crítica bem humorada a esse padrão de vida que nos é imposto. Gigito faz um elogio ao ócio, à “vagabundagem” e ao desapego ao consumismo usando como metáfora os cachorros de rua, parte da fauna urbana das grandes cidades. Os vira latas vivem um dia de cada vez, preocupados apenas com necessidades imediatas, ligadas aos apetites do corpo.
Não posso evitar, por ser professor de filosofia, associar essa premissa do clipe com a figura do filósofo cínico Diógenes de Sinope. Para este filósofo a vida humana é repleta de superficialidade, levando-nos a desejar coisas desnecessárias, efêmeras, que acabam por nos afastar da felicidade, jogando-nos à miséria mais tenaz. Se essa era a percepção de Diógenes para o modo de vida dos antigos gregos, o que dizer da compreensão que teria da humanidade de nossos dias. Daí termos Gigito, nosso cínico contemporâneo e conterrâneo.
Diógenes usa o modo de vida dos cães da pólis grega como base de seu pensamento filosófico. Fossemos atentos à vida canina e dessa observação tirássemos conclusões para nossas próprias vidas, perceberíamos que aprendendo com o comportamento canino, seríamos mais felizes.
Os vira latas não se importam com aparência, não se constrangem ao fazer suas necessidades fisiológicas em público, tampouco reclamarão acerca da comida da qual se alimentarão ou do lugar onde se deitarão para descansar. Vivendo o imediato, os cães evitam ansiedade, apegam-se ao presente, o que evita fazer projeções futuras, esperando aquilo que não se sabe sequer se irá ocorrer. O termo cinismo, usado para definir a escola filosófica inaugurada por Diógenes, deriva da palavra grega kynon, que significa cão.
Desse modo podemos dizer estarmos diante de um cínico moderno quando entramos em contato com o trabalho de Gigito. O cinismo presente na letra e imagens de Vira Lata da C.G nos levam a questionar se os desejos e necessidades que nos impulsionam às lojas físicas e virtuais para adquirir coisas nos conduzem à felicidade.
Talvez, observando a vida dos cães de rua, possamos alcançar a iluminação cínica de que nada é mais valioso em nossa vida do que possuir tempo livre. Pra ficar de boa coçando o saco, para nos divertir ou mesmo descobrir que podemos usá-lo para fazer algo que dê à nossa vida leveza e felicidade. Como, por exemplo, nos interessar pela música, aprender a tocar instrumentos musicais, conhecer outros vira latas e fazer um som pelas ruas da cidade.
GIGITO é:
Gigito – banjo, bandolim, violão e voz.
Daniel Iannini – Contrabaixo e voz.
Música gravada e mixada no Estúdio Ruído Rosa.
Clipe gravado em Salvador, Ba. 2019.
Imagens por: Tib Barreto.
Roteiro e montagem: Gigito.
Carlim
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