Victor Xamã lançou a faixa “Noite de Núpcias” com o beat do Noshugah e um audiovisual icônico. O MC manauara segue dando aulas de geografia
“Desequilíbro o eixo, pra que tanta ignorância”
Constância e elevação do próprio nível é algo muito falado mas muitas vezes é mera autopromoção ególatra, o trabalho artístico é certamente algo desafiador dentro de um mercado onde os produtos concorrem através de critérios obscuros. Em diversos momentos podemos perceber que Braggadocios são mero blefe, mas público e muitas vezes mídia engolem e ainda regurgitam elogios baseados meramente no que releases descrevem. Não é pouco e muito menos um procedimento inofensivo.
O MC manauara Victor Xamã vem encurtando a distância entre o eixo Rio-São Paulo com um trabalho poético e musical que dentro de sua geração encontra poucos pares em termos de qualidade e construção sólida de um estilo próprio. São dois álbuns: Janela (2015) e V.E.C.G. (2017) que continuarão tocando com o mesmo frescor que apresentavam durante o seu lançamento. Junto aos discos dois EP’s: Cobra Coral (2020) e Calor (2021) que sem dúvida coloca diversos “álbuns” do hype no seu devido lugar de irrelevância. Além do disco pouco divulgado e escutado do Qua$imorto, OITOOITO (2019), grupo do qual faz parte junto a Fernando Vario$, Luiz Caqui, João Alquímico e o DJ MAQ e sobre os quais tivemos a honra de escrever!
Ao longo desse percurso recheado de singles e participações, musical e poeticamente Victor Xamã – radicado em SP – construiu uma base de admiradores forte e ao mesmo tempo produziu diversos trabalhos com os mais diversos artistas de norte a sul. Porém, sempre apresentando uma música que está plenamente calcada em sua terra natal, não apenas nas imagens poéticas, nas referências e nas citações. Mas, em uma prática que busca o diálogo com artistas que se encontram fora do eixo, e longe da visibilidade merecida. É o caso do Davzera, MC baiano que é um dos mais destacados do que se pode chamar de rap underground nacional.
Ao mesmo tempo em que movimenta esses processos e sua carreira, não vemos por parte do MC manifestações de arroubos violentos à xenofobia latente do eixo. Nos parece, nesse sentido, que é uma estratégia de condensação poético musical que deságua em sua música com uma força muito grande. Ao ponto de seus admiradores e de alguns críticos musicais o admirarem e não poderem o criticar por estar sempre tocando na cegueira geográfica que domina boa parte de seus próprios trabalhos e “gostos”. Nessa, aos poucos e com uma sabedoria cada vez maior, uma qualidade cada vez mais evidente, Victor Xamã cola entre o underground e o mainstream, quase como se fosse um artista em um não lugar, entre Manaus e SP.
“Do norte para obter destaque mano tem que correr por mil pés”
Não é desmerecer a imensa qualidade poética do Victor Xamã, repetir a pauta da visibilidade como se estivéssemos falando de algo menor. Em seus trabalhos, estamos constantemente sendo apresentados a figuras, imagens, costumes, hábitos, modos de fazer ou seja, a cultura hip hop manauara e por extensão do norte do Brasil. Se não estivermos enlouquecendo e ou cegos, poderemos afirmar com tranquilidade que tudo o que VXamã é e faz diz respeito a isso. Um xamã urbano que faz suas beberagens com vistas a em algum momento trazer atenção para a sua terra natal.
Que se procure outro artista de fora do eixo que em suas músicas encampam uma luta geográfica como ele, a missão será árdua, pois os verdadeiros são poucos e muitos vivem também dessa pauta. Em “Noite de Núpcias” não é diferente e o audiovisual nos apresenta uma semiótica nesse sentido. O videoclipe com direção de Eberth Santana teve como escolha de cenário um shopping abandonado ou em construção e na correlação entre os versos e as imagens, os espaços não habitados, as lojas sem funcionamento, as escadas rolantes paradas, são imagens que representam muito bem o rap game nacional.
Estruturas sólidas, espaços que poderiam ser ocupados por novos “empreendimentos”, outros comércios possíveis, tudo em preto e branco muito longe da possibilidade de outras colorações. Empreiteiros ganhando muito com o atraso das “obras”, e sobretudo um abandono disfarçado de “estamos trabalhando”, work in progress. É esse o cenário do rap nacional que só nacional de boca, para mídia, público e artistas do hype.
Com isso em mente, o beat do Noshugah (Sheila Records) bate com dureza em seus tímpanos e, quem sabe, abrindo espaço para que Victor Xamã possa inverter uma transamazônica em sua subjetividade. Pois, essa dupla bateu tudo na faixa que foi originalmente apresentada no podcast do Rap Falando e que nessa produção encontrou toda sua força. Um single a mais para uma carreira irrepreensível, de um artista que até aqui nunca desperdiçou munição e que possui uma pontaria invejável em termos éticos, políticos e estéticos, VXamã pode falar que é hip-hop de acordo com a cartilha de Don L!
– Victor Xamã e a sua incisiva “Noite de Núpcias”!
Por Danilo Cruz
Danilo
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