A Velotroz ao seu modo nos propõe uma experiência do tempo, como toda boa música. Aqui um pequeno apanhado de nossa vivência com essa banda.
O cenário musical baiano e brasileiro em geral é um desafio, visto que, para as bandas independentes, o espaço é algo muito incipiente. Os “famosos” undergrounds sobrevivem com investimentos internos, escasso patrocínio e quantidade limitada de fãs e eventos, seja no rap, na MPB ou no rock. Não que isso seja de todo ruim, por outro lado, as bandas que resistem possuem seguidores fervorosos, grandes apreciadores de música e apresentam, criam alternativas de sobrevivência. Utilizam-se dos meios digitais, como as redes sociais – facebook, instagram, twitter – onde expõem suas identidades e conseguem com essa exposição público, aliando a capacidade criativa para além do expor musical, criam estrategias de divulgação, confecção de videoclipes, merchans e outras estratégias.
É de salientar que o verdadeiro sucesso não vem com urgência, ele se constrói com o passar do tempo. Contudo, é lamentável vermos bandas de excelente qualidade ficando para trás sem o devido reconhecimento na escala merecida. Tamanhas injustiças cometidas me fazem recorrer a uma banda baiana, que movimentou o cenário musical independente de Salvador durante alguns anos, a Velotroz, vencedora por unanimidade do júri no Desafio das Bandas em 2011, promovido pelo Jornal A Tarde.
Eu conheci o som da Velotroz um tempo depois do lançamento do primeiro disco, o EP “Parque da Cidade”, em 2009 – antes já havia uma demo gravada ao vivo, intitulada “Duas e Meia”, no mesmo ano de formação da banda, em 2007 –, e embora eu ainda não tivesse maturidade musical suficiente, ainda hoje não conquistada, porém melhorada através de constante pesquisa; gostei do que ouvi. Mas é certo que a paixão pela banda me surgiu depois do primeiro show. Eu fiquei encantada com aquela explosão em minha frente – de sons, acordes, performances e letras. Eram jovens e cansados, elétricos e calmos… era a dualidade de uma banda expressa em uma forma de arte contagiante e extremamente admirável. Durante o show, uma das músicas que mais me agradou, “Mar Morto”, foi entoada de maneira esplêndida, quando o vocalista se jogou no chão, tentando não se afogar em um mar imaginário, enquanto soltava os versos: “Sei de tudo que você não pode fazer melhor / Você é salgada demais pra entender / Eu já sei que sou capaz de sair da água”.
Cada músico se doava de cima do palco, cantando, tocando, e mais do que interpretando, vivendo o que cantava. E talvez isso seja uma das coisas que mais se destaca na Velotroz: eles não fazem da música uma parte de suas vidas, mas de suas próprias vidas, música.
Velotroz surgiu como uma banda de jovens garotos “anti-heróis americanos”, mergulhados de cabeça no mundo moderno, cheios de conflitos internos, amores e particularidades distintas, que foram envelhecendo, e amadurecendo o que já começou maduro, com o passar do tempo. “Como um desenho infantil / Sua vida foi tão mentirosa! / Poucos problemas, tão mentirosa / Anti-herói americano / Eu sou” – trecho da música “Anti-herói americano”, encontrada no EP “Parque da Cidade”.
Todas essas questões só fizeram acrescer no resultado da produção musical, muito original, com influências principalmente nacionais e locais, fortemente marcada pela música popular brasileira dos anos 70, em especial da tropicália, como evidenciado nos versos da música “Eu, Robô”, também presente no primeiro disco, os quais fazem alusão à canção “Baby”, de Caetano Veloso: “Você precisa saber da piscina / Da margarina / Da Carolina / Você precisa aprender inglês / Pra ler o meu manual / Eu sou robô, viu? / Eu sou boneco / Eu sou fantoche, viu?”. Além das influências do rock, do samba e do jazz, dentre outros ritmos e movimentos artísticos, como o cinema, cantado na faixa “Moda de Samba”, do segundo EP, “A Banda do Futuro apresenta: Espelho de Sharmene”, datado de 2012: “Pois o Cinema Novo fechou / E eu jurei não mais falar de amor”. Vale ressaltar também algumas bandas baianas diretamente ligadas aos rapazes: Cascadura e Ronei Jorge e Os Ladrões de Bicicleta.
O vocalista e também compositor, Giovanni Cidreira, ganhou o Prêmio de Melhor Intérprete do Festival Anual da Canção Estudantil de Salvador-BA, em 2008. Recentemente lançou um disco solo, de título homônimo. Giovanni é um exímio performático, com um vocal bastante singular, podendo ser considerado um artista completo. Todas essas características aliadas ao aparentemente pacato contrabaixista, ora também compositor, além de talentoso cineasta, Caio Araújo. E à capacidade do seu percussionista, Filipe Castro, de sentir a música, transcendendo durante as apresentações da banda – criando um mundo particular e totalmente paralelo, convidando todos a fazerem parte desse mundo também – enriquecem a Velotroz. Esses três foram os integrantes que restaram da formação inicial, os quais participaram do lançamento do terceiro disco, o EP “História do Tempo”, divulgado no final de 2015 para comemorar os 13 anos da banda, abrindo uma exceção após hiato anunciado em 2013.
“História do Tempo” foi um dos melhores álbuns lançados em 2015. Com canções pré-lançadas e outras inéditas, o EP só demonstrou a evolução do grupo, mesclando experiências, partindo da vinda de seus integrantes de outros projetos particulares, mais a lamentável morte do baterista e amigo Maicon Charles, em meados do mesmo ano, o que contribuiu para que a Velotroz produzisse mais um trabalho artístico fantástico. Longe dos holofotes e carregado de harmonias características, do jeito ‘velotroniano’ de ser, o disco foi esperado durante três anos pelos fãs, e relata o cotidiano, relacionamentos e individualidades; tudo da forma mais simples (ou não), no melhor estilo poético. “A natureza me propõe o inverso a minha natureza / Natureza morta” – faixa “Fase do Sol” do EP em questão.
O disco também conta com participações especiais, entre elas a de Ronei Jorge na música “Coração que muito bate acaba a validade”, do grande Tuzé de Abreu, e da Banda Escola Pública, natural de Cachoeira. O álbum é encerrado com a canção “História do Tempo (Aos Que Se Amam)”, onde se discorre sobre como o tempo passa e leva consigo a vida e todas as coisas presentes nela, “Nosso melhor ano já passou / O melhor amigo já passou / Seu melhor estado já passou / Seu melhor sorriso”, mostrando como a vida é corriqueira, e tudo que podemos fazer é aproveitar o que tivermos e o que ganharmos nela, mesmo que seja pouco ou tarde. “Se quiser se apaixonar / Deixe ir, que não é tão perigo assim / Qualquer pouco é muito pra quem vive nada /Qualquer mundo vai servir”, faixa “Espelho de Alice”.
Enfim, Velotroz é uma banda que merece ser conhecida, e mais do que isso: apreciada. Ela exala arte e poesia, numa explosão de sentimentos rubricados em letras fantásticas, que contam um pouco do que tem em cada um, seja de quem compõe ou de quem ouve; letras essas interpretadas em shows convidativos. A Velotroz fala de mim, de você, fala do ser humano, dos sentimentos que nos toma e do envelhecimento. Velotroz narra a História do Tempo. “Queria ainda ter quinze / Mas já me faltam as pernas / Enfim, tenho que ir / Mas que inveja, sorte a sua / Não tenho nem mais tempo pra cantar”, música “A Cigarra e A Formiga”, EP “História do Tempo”.
Por Mylena Bressy
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