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Vandal é a Bahia profunda em seu álbum de estreia: “VANGUARDAH”

Com direção musical de Russo Passapusso, o álbum de estreia de Vandal atualiza a tradição pioneira da história do rap baiano. 

 

 

“EUH NAOH SOUH TRAPH NEMH BOOMBAPH, SOH PAH TEH ALERTARH, EUH SOUH MPBH, MUZIKAH PAH BAGAÇARH”

Vandal produz, em seu álbum de estreia, um objeto estético que reflete com o vigor de ritmos próprios e signos históricos, não apenas a sua própria caminhada como toda a história do rap baiano e consequentemente nacional. “VANGUARDAH” conta com a direção musical de Russo Passapusso, a produção de Tiago Simões, arranjos do maestro Ubiratan Marques e Orquestra Afrosinfônica e feats com: Liz Reis, Hiran, Giovanni Cidreira, Lívia Nery e o próprio Russo Passapusso.

Ao longo das 10 faixas que compõem o disco, Vandal constrói um noção de “VANGUARDAH” que se volta sobre Salvador, um movimento musical e estético que nos dá a impressão de um verdadeiro levante das trincheiras, algo sempre afirmado ao longo dos anos. Instituindo uma ofensiva contra a mediocridade do mainstream nacional, se apropriando da sua própria tradição, através de imagética, sonora e poética que passa pelo espiritual, pelo histórico, e que ganha força substancial quando pensado como um agenciamento coletivo de enunciação.   

A Bahia possui candomblés de rua, o Afoxé Filhos de Gandhy no carnaval de Salvador e o Bembé do Mercado em Santo Amaro da Purificação no recôncavo baiano, são duas expressões coletivas dessa tradição. Na Roma Negra, existem 372 templos da Igreja Católica, ao contrário do que imortalizou o mestre Dorival Caymmi. 

As formas artísticas do Hip-Hop, e o rap mais especificamente enquanto forma musical se utiliza de um expediente que nos parece é muito pouco compreendido em nosso país, seja pelos críticos musicais oficiais da branquitude, seja pela mídia do rap. O sample define a forma musical aberta do Rap, orgânico ou digitalmente operado, é ele que utiliza um elemento conhecido (trecho de música, fala, verso etc…) repetindo-o de um modo tal, que se torna completamente algo diferente do original. O rap dessa forma é um simulacro que quando bem operado se diferencia ao máximo do original, o que é diferente da cópia, que o pressupõe.  

A cultura Hip-Hop Baiana possui um diferencial único em relação a tudo o que se produz no resto do país, tendo sido desde o seu início fruto de misturas próprias ao nosso território, samba-reggae, reggae, rock, hardcore, metal, candomblé, a capoeira, o pagodão permearam as mais diversas produções culturais e as expressões artísticas do nosso Hip-Hop. Afinal, é parte de nossa constituição como seres humanos, são elementos presentes no cotidiano das ruas. Salvador não se divide pelas determinações dos pontos cardeais, aqui é duas cidades. E é dessa forma, bebendo dessas e de outras fontes que Vandal constroi o seu “VANGUARDAH”.

No ano que vem, o MC baiano Vandal completa vinte anos de caminhada na música, se contarmos o seu primeiro registro fonográfico presente na mixtape “FAYAKA STEPPAZ” do produtor Lord Breu, lançada em 2007. Esse dado é importante, para que se compreenda que estamos diante de um artista experimentado, pesquisador e desenvolvedor de sonoridades.

-Leia no site a matéria que publicamos resgatando a rara mixtape FAYAKA STEPPAZ do Lord Breu

foto por Pedro Soares (@pedrosoaresfs)

Desde que passei a acompanhar o trabalho de Vandal em 2015, é perceptível e de conhecimento público como ele vive a cidade, como esteve e está vivendo o dia a dia das favelas de Salvador, das manifestações de rua, como o samba junino no Engenho Velho de Brotas, onde o encontrei esse ano, por exemplo. Ao mesmo tempo, nos últimos anos, atravessa o país com o Baiana System, ou em trabalhos solo, e vem aos poucos espalhando sua arte. 

Pensar sua trajetória nas ruas, desde os primeiros passos artísticos no Pixo e no Grafite, passando pela música e pelo Hip-Hop baiano, até sua inserção no rap e na música brasileira, oferece pistas muito interessantes para compreendermos o que é essa “VANGUARDAH”. Seu álbum de estreia, lançado 11 anos após sua primeira mixtape, nos apresenta um artista em pleno domínio não apenas do próprio ofício, mas de todos os meandros que compõem um lançamento dessa envergadura.   

Trabalhos tão singulares como este seu primeiro álbum de estúdio não podem ser emulados, são antes fruto de longas meditações, vivências, estudos, tropeços e práticas acumuladas, tudo isso ruminado por longos anos. A obra que Vandal constrói desde então e que nos traz agora esse objeto estético complexo e primeiro movimento de uma trilogia, não é fruto de “bravataria marketeira” ou de “publicidade conceitual” mas antes, resultado de um duplo movimento de ausculta/escuta. 

A escuta se deu através da luta contra a invisibilização produzida pela xenofobia inerente ao mercado musical brasileiro, mas também à própria cultura Hip-Hop em nosso país, que irrefletidamente assume uma base de influência estrutural estadunidense. Uma vez que o público e a mídia do rap no Brasil em geral não estuda e não pesquisa música, e a crítica musical não conhece o rap feito no país, Vandal se entrincheirou em meio ao fogo cruzado.

-Leia no site a resenha que publicamos em 2015 sobre a TIPOLAZVEGAZH MIXTAPE

Desde de a sua estreia em disco com a clássica TIPOLAZVEGAZH MIXTAPEH 11 anos atrás onde além do Trap, trouxe de modo pioneiro o Grime e Drill para o rap nacional, mesclando também Bahia Bass, Pagodão e Arrocha, a ausência crítica e a xenofobia o relegou a trabalho pioneiro e sem par na história discográfica do nosso país, a obra de referência do seu MC favorito. E nos parece que, uma vez que um artista também se constrói nas relações entre música, público e mercado, Vandal prosseguiu sem engajar em nenhum subgênero em particular, e mais importante sem se tornar cosplay de MC gringo.

Se seguiram diversos singles, audiovisuais, a PHODI$MO MIXTAPE VOL. 1 (2022) e 6 EP’s, passeando pela house music, por diferentes sub vertentes do Trap, drill com pagodão etc. Buscando sempre seu próprio caminho, seu próprio lifestyle, sua própria linguagem enfim, experimentando diversas sonoridades ao longo dos anos e com trabalhos com o coletivo UGangue, com a banda Bagum, com o Baiana System – onde é o Coringa do Baralho – e mais recentemente com Arnaldo Antunes.

O disco “VANGUARDAH”, neste sentido, é uma virada para uma ausculta (escuta interior) operada dentro de uma multiplicidade singular, materializada desde a capa, em toda a produção audiovisual e signos presentes no e pelo disco. Produção esta que captura um MC em devir, atualizando linhas de força da tradição da música preta baiana. Subvertendo orgânica e digitalmente todo um gênero musical, através de uma visão afro-rizomática entre o rap e o samba reggae, o trap e o pagodão, pitadas de música caribenha, ijexá e afro-sinfônica, além de algo ali próximo do rock alternativo. 

UMAH ODEH AH MANUFATURAH, SANTOSH IH SAVEIROZH

O orgânico, entendido aqui como um processo natural e fluido, atravessa toda a concepção de ‘VANGUARDAH”. A direção de arte da capa assinada por Vandal & Phodismo, a fotografia do Pedro Soares, foi o primeiro estandarte do disco apresentado nas redes, fruto de um processo de pelo menos 5 anos de construção. A foto capturada na oficina de produção de imagens de entidades, traz Vandal representado como um santo junto a outras divindades do panteão do catolicismo, da umbanda e do candomblé.

Uma grande possibilidade interpretativa é evocada na foto, desde o óbvio sincretismo religioso, passando pela fé do próprio Vandal em Santa Dulce dos Pobres, mas também suscita questões que perpassam a forma como artistas baianos precisam sair da cidade para “conquistar” São Paulo ou o Rio de Janeiro, para serem valorizados em casa. “Santo de casa não faz milagre”, ou ainda em um tempo de auto-imagens performáticas nas redes: “Santo do pau oco”.  

A capa do disco foi aclamada nas redes, mas a pesquisadora do Hip-Hop Ana Calheiros (Noticiário Periférico), foi certeira ao mostrar os aspectos políticos presentes: 

“Ele não colocou a imagem do jovem negro abaixo das divindades, e nem o divinizou de forma puritana, colocou todo mundo na mesma prateleira, como se silenciosamente gritasse que o corpo de um jovem negro que caminha pela Bahia perseguido pelo Estado, rotulado e marcado, carregasse me si o mesmo peso místico e histórico das entidades de um terreiro ou dos santos de uma capela. É uma cobrança de um lugar na história da fé, e de pertencimento ao sagrado.”

Toda essa riqueza semiótica presente nos visuais do álbum transborda e está ligada diretamente a primeira faixa do disco: “SAVEIROZH”. Uma intro trazendo um signo resgatado da riqueza da Bahia de Todos os Santos, motor do comércio com o Recôncavo. Sem representação ou analogia, mas em ato, enquanto movimento do disco. 

VANGUARDAH é esse modal – para usar um termo que o próprio Vandal gosta – que reúne e embaralha a sua caminhada com a própria história da música de rua de Salvador. O “Navio Pirata” do Baiana System é parte desse processo, mas pode nos remeter também a “Caetanave”, assim como a cultura do grave soteropolitana e baiana, sendo o trio elétrico o nosso soundsystem baiano em movimento. 

Está tudo muito bem articulado em “VANGUARDAH”. Diversos elementos presentes nas 10 faixas do disco também atravessam a trajetória de Vandal e dialogam com a história da música preta baiana. Quem acompanha atentamente a carreira do MC e conhece essa história fará essas conexões com naturalidade, ainda que se trate de continuidades complexas, construídas ao longo do tempo.

Ao mesmo tempo, o álbum funciona plenamente para quem chega a esse universo pela primeira vez. A escuta não exige conhecimento prévio: os signos que atravessam as faixas conduzem o ouvinte por diferentes tempos e referências. É uma obra que olha simultaneamente para o passado e para o futuro, como o próprio Vandal já anunciou em “NOZTALGIAH DUH FUTURUH”. É aí que habita parte de suas forças. “VANGUARDAH” pode ser lido tanto por quem reconhece suas referências quanto por quem está prestes a descobri-las.

VANGUARDAH VANGUARDAH VANGUARDAH, AH MUZIKAH

A tessitura que Vandal entrega em “VANGUARDAH” é coletiva, por isso falamos em multiplicidade singular, e o próprio artista tem insistindo nesse aspecto de ser ajudado, de fazer um trabalho coletivo e da importância da crença no projeto por parte dos músicos presentes no disco. Um primeiro ponto que me chamou atenção neste sentido, é a presença de João Teoria no disco como músico e arranjador. Muitos não o conhecem, porque no nosso país não valorizamos músicos, mas João Teoria é pedra, melhor seria dizer sopro, essencial para a construção do Reggae baiano e consequentemente brasileiro.  

foto por Pedro Soares (@pedrosoaresfs

A produção do álbum é assinada por Tiago Simões, a direção musical do Russo Passapusso e VANGUARDAH nos traz também um banho da Orquestra Afrosinfônica do maestro Ubiratan Marques. Provendo-nos uma arquitetura musical ímpar, nunca antes vista na forma como o conjunto das 10 faixas se nos apresenta. Tudo construído entre músicos do Baiana System: Sekobass (baixo) e Roberto Barreto (guitarra), as cordas da Afrosinfônica (Junio Santana, Jefferson Santos, David Dinama, Eugênio Biondi), o piano de Ícaro Santiago, as guitarras de Colibri, Jaguar e Junix, Bade e Ícaro Sá na percussão, Paulo Pitta no sax. Junto também às vozes de SUHHH, Tâmara Pessôa, Gab Ferruz, Brayan, Anna e Camilly. 

A arquitetura musical realmente inovadora presente em “VANGUARDAH”, explode nos fones ou nas caixas já na música homônima. A faixa que conta com beat do Tiago Simões e arranjos do maestro Ubiratan Marques reedita, atualizando sob novas cores, o que Vandal já tinha feito no início de LAZVEGAZH MIXTAPEH com as faixas “INTRUH” e “$ALVEH”. A mesma maestria com que já dominava o TRAP pouco mais de 10 anos atrás, repete o processo, desta vez com cordas, cuica, percussão e guitarra. 

“EUH NUNKAH KOMPREIH MINHAH KAZAH 

ALUGAVAH MOTELH KOZTAH RIKAH

LOTEH DEBAXOH DAH PONTEH

VANGUARDAH EZMOLAH DEH VIDAH” 

Pouco mais de 10 anos atrás, Vandal já anunciava a Bahia como território deflagrado por uma guerra fratricida de facções criminosas e ameaçava que atrasasse seu lado, pintando um quadro lírico de revolta, digamos, realista. Agora, o MC alude ao expressionismo abstrato e ao cinema novo, condensando violentamente sua caminhada, suas ideias e os valores mantidos: raiva contra a máquina, contra o estado e seus aparelhos de reprodução e repressão.

Vandal enquanto MC nunca buscou ostentar, resolver contradições, ou reproduzir clichês. “PONTOH DEH REVOLTAH” é um passo atrás necessário diante do discurso neoliberal de “Pretos no Topo”, tanto formalmente, quanto na lírica apresentada. O beat que traz o samba reggae e os riscos do mestre KL Jay com os samples dos Racionais MC’S, enquanto as rimas de Vandal recorrem ao expediente do seu próprio processo formativo como homem negro. 

“ABANDONEIH TALHEREZH, MEH ENSINARAMH AH KOMERH DEH MÃUMH”

A cantiga em Iorubá presente na música, pode também nos aludir à necessidade atual de encontrar outros caminhos de luta e a busca/caça de instrumentos outros para o enfrentamento necessário. É o que Vandal faz em “VANGUARDAH”, utilizando outros elementos de base para alcançar o que pensa sobre rap, música e política. Quanto mais ele recorre a ausculta de si mesmo e do seu lugar, melhor ele transforma isso em música e em política. Sampleando signos religiosos, transformando ideias em sons, e nos fazendo ver a riqueza de nossa própria história. Quanto mais subverte, mais se aproxima do que é o rap.

Russo Passapusso, assina a direção musical de VANGUARDAH

A direção musical de Russo Passapusso, os beats de Tiago Simões e os arranjos do maestro Ubiratan Marques junto ao Vandal produzem nesse sentido o resultado mais bem acabado de uma vertente do Rap Baiano. “VANGUARDAH” é o “fim de linha”, ou antes, o processo de cartografia de toda uma história inventiva e original do rap baiano, que passa entre outros pelo Quilombo Vivo, Júri Racional, Testemunhaz, Eletropercussiva, Calibre, Opanijé e o próprio Vandal (que não por acaso é curador do rap baiano no Museu da Música Brasileira, em Salvador). Para ficar apenas em alguns nomes incontornáveis das perspectivas que este álbum apresenta. 

E é o próprio Calibre – criador do Batifum e do Trap Pagodão – o responsável pelo beat de “AH VERDADEH DAH CIDADEH”, faixa que foi escolhida como o single antes do lançamento do disco. A título de exemplificação, pegue-se o refrão dessa música e se pergunte em quantas músicas Vandal já utilizou “POKAH EMOÇÃUMH” e “VOUH TEH BOTARH NAH VIZÃUMH”? Pois é, a Angela Davis em seu estudo sobre as mulheres no Blues e no Jazz nos mostra como a Billie Holiday por exemplo, subvertia o cancioneiro branco banal que era obrigada a gravar, através do próprio canto, utilizando timbres, fraseados e ênfases expressivas outras. Vandal faz o mesmo em seus próprios termos e com sua própria obra.

A repetição é diferente das generalidades, e nessa arte Vandal é um dos nossos mestres baianos, e ao contrário do que analistas do rap podem pensar, quando se coloca canto lírico, samba reggae e pagodão, não se deixa de ser rap, talvez aí é que se seja mais e melhor. “VANGUARDAH” é um grande disco de rap – porque não vamos agora entrar nessa patifaria de melhor do ano, deixa isso para APCA e suas cópias – onde a voz da cantora lírica Liz Reis, acrescenta o Barroco baiano no baba da nossa diferença. Dobras e Redobras.

Abrindo espaço através do seu canto e do badalar dos sinos, para a voz de Santa Dulce dos Pobres, santa de devoção do Vandal; que já explicou em diversas entrevistas a concepção de “Milagre Palpavél” com as obras de caridade que a santa da Igreja Católica legou-nos. A voz de Dulce em “ANJOH BOMH DAH BAHIAH” sob os arranjos de cordas do maestro Ubiratan Marques e de seu Mateus Aleluia, juntamente com a intro “SAVEIROZH”, trazem comentários que refletem ou projetam o que Vandal executa em seu disco de estreia. 

A música “SUPEREH” que conta com a participação do Hiran, cantando belamente, condensa e explicita liricamente em uma batida mais reta, tanto o avatar do Vandal presente na capa, como Ana Rosa Calheiros chamou atenção em sua análise sobre a mesma. O reconhecimento de si mesmo como substância divina, como uma vida sagrada, enquanto homem preto, mas também como o artista que acredita que a arte pode ser um viés de subjetivação violento ao ponto de quebrar a ideia de que nossos jovens pretos possuem alma de traficante. Essa é a fé em movimento e o milagre palpável que dá um sentido forte a “VANGUARDAH”.

foto por Pedro Soares (@pedrosoaresfs)

Em favor da música, Vandal em “VANGUARDAH” abriu mão de ameaças e abraçou as promessas guardadas, o tema do amor se faz forte em “RÉQUIEMH PARAH UMH SONHOH. A música arranjada “latinamente” por João Teoria, trazendo a voz poderosa da cantora juazeirense Josyara. Juntos, fazem uma anti love song, e cantam promessas de amor, realizadas ou imaginadas. Vandal mostra como o faz ao longo de toda a sua carreira como é muito bom em construir imagens poéticas entre o humor e o non-sense: 

ELAH VEMH NIH MINH ATIÇAH

JÁH SOFRIH DEMAIZH AMIGAH

DON’TH KILLINGH MEH VYBEH, BRIZAH

VIVOH UH KLIMAH DELAH DEZFAVORECIDAH

ABRIH AH PORTAH DAH EXPERANÇAH

DEH CYKLONEH AVELUDADAH IH LIZAH

Entre amante latino desapegado e crítico do amor romântico: “CÉUH IH INFERNOH, TAMPAH DIH PANELAH”, o duo com Josyara é um descanso, um certo repouso temático sem perder a densidade rítmica. E é a voz de SUHHH – que já fez um dueto parecido com Vandal – quem abre a faixa seguinte falando de “saudade” em “MULHEREZH DAH MINHAH VIDAH”. A música traz Giovani Cidreira no feat. e os dois se complementam oferecendo sob a guitarra de Colibri e o sax de Paulo Pitta, visões diferentes sobre separações. 

Última música do disco, “SONÄMBULOH”, conta com a participação de Livia Nery e do diretor musical do disco Russo Passapusso, sendo uma música que traz uma sonoridade muito próxima a tradição do Baiana System. A maciota do flow de Russo, as ideias, recebem a continuação da voz doce e dos vocalises da Lívia, para encerrar a faixa com Vandal em uma letra de densidade e modulações pouco vista no rap nacional. 

Após o fim do disco, o ouvinte atento, se não tiver observado, poderá rastrear diversas referências líricas presentes ao longo de toda a sua obra e que são retrabalhadas por Vandal em “VANGUARDAH”. Um disco denso ritmicamente, que escapa das projeções medianas ou mediadas pela indústria cultural, variegado nos andamentos, nos temas. Ao longo dessa resenha contive o ímpeto de apontar como a poética de Vandal se repete nesse disco se diferenciando, pois seu estilo de rimar é muito singular. 

A arte de construir canto falado em cima do ritmo possui diversos mestres em nosso país, assim como diversas formas musicais, repente, samba reggae, partido alto, são algumas dessas formas. No rap nacional, não existe outro MC como Vandal, em “VANGUARDAH” o mesmo estende o seu universo musical e o apresenta com um acabamento perfeito. Porém, como sugerido pela imagem dos “SAVEIROZH”, esse movimento curiosamente é voltado sobre si mesmo, na forma e no conteúdo, ouvindo o próprio interior, suas experiências internas e o seu próprio território. 

Por isso, a importância de perceber todo o movimento que o artista fez ao longo de sua caminhada, ou pelo menos a parte fonográfica dele, desde 2007 no já supracitado Fayaka Steppaz. Vandal partiu de um horizonte longínquo, através do soundsystem, do Dubcílio, Londres, Chicago, e progressivamente se preparou para esse mergulho na Bahia de todos os Raps. 

Mas não me entendam mal, não há aqui nenhum tipo de resgate, afinal, só se pode resgatar o que está perdido, não há também afirmação de identidade baiana, pois essa nunca foi apagada, e a memória aqui só conta como uma ilha de edição violenta e apontada para o futuro. 

-Vandal é a Bahia profunda em seu álbum de estreia: “VANGUARDAH”

Por Danilo Cruz 

Editor – Jair Cortecertu (Bocada Forte)

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