TrapFunk&Alívio & Reddaughter – Papo Reto EP (2019) numa parceria com a artista estadunidense lança mais um trampo pesadão, da trincheira!
O coletivo de produtores TrapFunk & Alívio é uma das coisas mais interessantes da música baiana, mas tomando o sucesso do funk e do trap no Brasil, é também uma das expressões mais fantásticas desses ritmos no país. Prova disso são as conexões que os caras fazem direto do Nordeste de Amaralina com produtores americanos e europeus, o que nos leva a pensar que eles talvez sejam um caso daqueles que o público brasileiro médio adora, o sucesso internacional que legitima no âmbito local.
Uma pena, pois o trabalho do coletivo nos traz elementos muito fortes: sejam de ritmos, sejam de líricas, com uma estética que nos ajuda a pensar a atual situação de nossas favelas. É aquilo, muitas pessoas tentam hoje consumir a favela, mas se a favela tomar a palavra e os instrumentos e se auto produzir, se ela se apresentar com uma crueza que lhe é peculiar, os consumidores de ocasião se afastam e somem os seus traços de admiração.
O trabalho do TrapFunk & Alivio nos parece que vai muito nesse sentido, de apresentar a favela, ou um dos seus fortes aspectos sem maquiagem. Não existem penduricalhos e nem qualquer alívio comunicacional, é direto, cru, sem quatcha quatcha, é Papo Reto. Mixando e masterizando o dia a dia das nossas – sua – comunidades. E a gourmetização diante de tal quadro cruel, diante dessa estética da crueldade, fica apavorada e sai correndo a milhão.
O EP Papo Reto (2019), chega numa parceria com a produtora novaiorquina Reddaughter, com quem lançaram no ano passado a mixtape em collab Red Funk Alívio (2018), resgata nesse novo trabalho, o começo da caminhada dos caras, quando ainda tinham se autodenominado “Firma Milionária”.
Nesse período, assim como hoje, os manos da produção: Felipe Pomar “Banha”, Macarrão do Nordeste e Zero Qu4tro se coligaram com mc’s que buscavam composições que ao mesmo tempo em que relatavam a real de suas vivências, traçavam linhas pra bater de frente com os agentes do estado responsaveis pela segurança.
Sagat já vinha puxando o bonde com Boqueirão Pesadão (2011), que utilizava um trecho da música de Mc Orelha, “Quem pode acabar com a guerra”. Conta-se que durante essa época os homi não entrava na favela.
Partindo desse contexto, Papo Reto EP (2019) retrabalhou as músicas com a parceira Reddaughter, com texturas sonoras pesadas, beats acelerados e muito grave. Contando também com a participação da londrina “Ouro”, são usados samples de Bachata, Funk 150 bpm e Footwork vibes, estilos e linguagens da música grave que recebe dentro do trabalho dos caras o peso das palavras.
Há muito o que se pensar na música que o TrapFunk&Alívio faz, pois dentro do caldeirão de violência e vida dentro do Nordeste de Amaralina, os caras cozinham um alimento para o corpo e para a mente e ao mesmo tempo levantam problemas com sua arte. De algum modo, as produções autorais dos mc’s estão sempre girando em torno do racismo estrutural e da estrategia de genocídio da juventude negra denominada guerra as drogas.
A marginalidade na qual milhões de jovens são jogados e todas as consequências sociais que essa operação de controle social gera, estão em todas as 5 faixas que compõem o disco. Como contraponto a tudo isso, ou talvez como complemento dessa crueldade e da força que desperta, o Trap e o Funk, batem compassada e firmemente para marcar um ponto de resistência. A imagem de um coração acelerado, batendo firme dentro da caixa toráxica, não consegue me sair da cabeça.
Das paixões e da construção de identidades atravessadas por singos do capitalismo e do custo de manutenção disso para garotos e garotas faveladas em “Vem de Lacoste“. O peso das batidas é o alivio do trap e do funk numa vida que recebe porrada de todos os lados, seja de quem tá no crime, seja do estado que se faz presente com uma postura de agressão e coerção – aperto de mente – constantes, a faixa tem o nome adequado de “É Pesadão“. Vida pesada, música adequada!
A terceira faixa com feat da “Ouro”, faz a batida acompanhar o lazer dos menino bom, que desfilam como reis pela favela de “lazer pela quebrada”, depois de guerrear com os alemão do estado ou de outras facções, a track pesada se chama “Vem com Noiz“.
Em “Papo Reto (interlúdio)“, a inclusão de um áudio real contrasta com a força da realidade presente nas rimas a seguir, poetizando um revide que alguns indivíduos dentro da nossa sociedade imprimem ao sistema, quando se recusam a participar do jogo que está colocado, com as regras que estão estabelecidas. E que será músicado em “Salaam Aleikum” faixa que encerra o disco em clima de guerra de guerrilha como travada em muitas partes do Oriente Médio.
Mas principalmente, chamando atenção para o estado inexistente em suas obrigações mínimas, como o estado da Palestina que não é reconhecido pelo opressor, e constantemente atacado. Encontrando a resistência em ações de revide que se não conseguem imprimir grandes derrotas ao inimigo, aterrorizam aqui e ali sua população.
Mas um trabalho, onde as experimentações sonoras da TrapFunk&Alívio alcançam bastante relevância estética, social e politica, já no seu quarto EP autoral. E não para por aí, os caras já anunciam um filme – o primeiro deles – com a direção do Rafael Ramos, que dirigiu o clipe de Bota Kára (feat. Ouro & Raoni Knalha). Que contará com as músicas de Papo Reto EP (2019) que serão a trilha junto a músicas da época em que eram a “Firma Milionária”. É aguardar, pois essa incursão no audiovisual promete demais.
Escutem:
Danilo
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