TIPOLAZVEGAZH, mixtape de estreia do Vandal completa 10 anos de seu lançamento – Artigo
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TIPOLAZVEGAZH, mixtape de estreia do Vandal completa 10 anos de seu lançamento – Artigo 

TIPOLAZVEGAZH, a mixtape de estreia do Vandal, marcou a história do rap no Brasil, antecipando sonoridades e revelando um MC único

Vandal

“UH TEMPUH PASSAH EH EUH KIH FIKOH EMOCIONADUH” Vandal

Há 10 anos, Vandal lançava sua mixtape de estreia TIPOLAZVEGAZH, fruto de uma movimentação coletiva na cidade de Salvador que apresentava a ligação e expandia dois universos: o coletivo UGANGUE e o Soundsystem Ministereo Público. Neste jogo solto, o desenvolvimento local da música jamaicana e a história de resistência da cultura Hip-Hop baiana se encontravam. Recebendo assim, uma atualização muito singular e profundamente assentada em um diálogo entre as potências inventivas locais e as produções de ponta da música produzida no mundo.

Em um contexto nacional onde a música rap passava por transformações subterrâneas, o trabalho de estreia de Vandal ressalta uma característica presente na história do rap local e da música baiana. O olhar para dentro do próprio território reconhecendo as formas originais e formativas locais e “samplea-las” em confluência com influências “estrangeiras”. Prática presente na música baiana desde o surgimento da Tropicália, algo talvez nunca perdoado pelas elites sudestinas. 

Não buscando ser uma cópia mal feita do rap estadunidense, muitos grupos e artistas do rap feito na Bahia sempre buscaram incorporar as células rítmicas mais próprias, postura essa que atravessa toda a história de desenvolvimento desta música na Bahia. Grupos como Quilombo Vivo, Juri Racional, Testemunhaz, OQuadro, Calibre MC, Opanijé, o trabalho solo de DaGanja, foram epítomes do processo de conjugar a força dos blocos afro, as sonoridades e células rítmicas do pagode, dos pontos de candomblé, à poética do sample.

Um dos mestres dos tambores digitais da Bahia: Lord Breu

Essa postura de independência estética é algo presente também no desenvolvimento da música eletrônica baiana, de iniciativas diversas nos anos 2000 e que possui em Lord Breu, um dos nomes inventivos que ajudaram a criar o Bahia Bass, junto a vários outros como Mauro Telefunksoul, por exemplo. Vandal entra nesse circuito e capta tudo isso, nesse “jogo solto” de menino da Cidade Nova em Salvador, que foi formado pelo atravessamento das festas de Largo, de ensaios dos blocos afro, mas também do pixo e posteriormente com a aproximação da cultura do soundsystem e da cultura Hip-Hop.    

Aqui é importante destacar a presença do Rafa Dias aka Àttøøxxá aka A.MA.SSA (junto ao Mahal Pita), uma das caras novas no momento do surgimento do nome Bahia Bass. A sua participação em TIPOLAZVEGAZH vai trazer a produção eletrônica de ponta com o arrocha e o pagodão. Atualizando uma trilha de invenção inicialmente desenvolvida pelo beatmaker e MC Calibre e o seu projeto “Batifun Beat” que trazia também o DJ Akani e os MC’s Makonnen Tafari e Fall Clássico. Propondo cruzamentos entre a sonoridade dos blocos afro e do pagode baiano com o rap. 

Uma história inventiva da música preta baiana que Vandal sintetiza em TIPOLAZVEGAZH, mas que pela ignorância do clássico racismo xenofóbico do eixo, não foi percebida naquela altura e segue sendo solenemente ignorada. Mas não para por aí. Junto a isso tudo, o roubo como elemento ativo da cultura Hip-Hop foi praticado por Vandal com excelência, utilizando beats da internet e de artistas como Metro Boomin e 2 Chainz, por exemplo. Por último, mas não menos importante, temos beats do “OG” Diego 157 solo e em parceria com o Rafa Dias, que ajudam a compor a aliança do disco com a trajetória combativa do rap baiano. 

Na vertente lírica, há uma importante aliança entre a velha e a nova escola do rap baiano, a UGangue, com os OG’s DaGanja, Kiko MC, mas também com os enfant terribles Ravi Lobo e o grupo Nova Era, com o Saca Só e com Galf AC. Um coletivo que conjugou e aproximou também nomes como Coscarque, Mobbiu, Cintia Savoli entre outros. Com raízes nas noites de microfone aberto na Zauber, onde essa aproximação efetiva se deu entre a UGangue e o Ministereo Público. Prova material deste crime é a mixtape Fayaka Steppaz do Lord Breu, com Russo Passapusso, Fael Primeiro e Vandal em seu primeiro registro já no grime. 

-Leia nossa matéria sobre a pioneira mixtape Fayaka Steppaz no site

É neste caldeirão de influências sonoras e musicais e alianças artísticas em uma Salcity avançando em um ritmo alucinante de decadência social e política, onde o genocídio negro se conjuga com uma guerra fratricida, que TIPOLAZVEGAZH surge. Com Vandal incorporando e traduzindo esse cenário de horror racial às sonoridades mais inventivas do momento, em uma poética única, que ao mesmo tempo em que nos dá a ver o caos social e político, começa a agrimensurar o seu próprio universo poético.  

Vandal

“VANDALH DIZPENÇAH INTRODUÇÃOH, FODA-SEH AH POLÍCIAH AH GENTEH AINDAH EH DEZZEH TEMPOH IRMÃOH”

Essa trajetória combativa se apresenta na originalidade lírica que Vandal apresenta desde a primeira faixa, “$ALVEH”, música que antecipa o fratricídio generalizado, hoje em níveis de hecatombe, na cidade de Salvador. Em um beat roubado de Trap, antes do sucesso deste subgênero do rap, Vandal direciona a abertura do seu disco para o seu povo. 

Demarcando uma linha muito efetiva entre o governo do PT e sua necropolítica na Bahia com o programa genocida “Pacto pela Vida” e o povo preto. É importante contextualizar pois em 2015, já possuíamos 9 anos de governo do PT no estado da Bahia, e os números de mortes pela polícia do estado subiam vertiginosamente. Ao mesmo tempo, Vandal já direciona também seus versos “contra a emoção de Facção, onde todo mundo é alemão”, uma visão que infelizmente se implementou nas favelas de Salvador e por quase todo estado nos últimos anos. 

O ouvinte de hoje que a escutar, deveria perceber como o Trap no Brasil se transformou hoje numa “água de salsicha musical” na maior parte de suas produções. Uma música inofensiva, rendida politicamente, e muitas e muitas vezes louvando a meritocracia, e os aspectos mais nefastos do Neoliberalismo. 

Capa e contra capa da mixtape do selo Back To Back, um dos pioneiros do Trap no Brasil

É importante, chamar atenção também para o fato de que o Trap já era uma sonoridade amplamente utilizada no Rap baiano, por nomes como MC Zidane, pelo selo Back To Back em seu EP lançado em 2015 com artistas como Raonir Braz, Makonnen Tafari, Deds aka André That Hora, Fabinho & Raal que naquela altura formavam a dupla DNX, R4ulzito e o grupo Matiiilha, que também lançou um disco naquele ano. Assim como nas faixas do coletivo UGangue, presentes na mixtape Rádio UGangue Vol.2. 

A cidade de Salvador e a região metropolitana – MC Zidane é de Lauro de Freitas – pulsava diversas sonoridades que no resto no Brasil ainda engatinhavam. E não estamos falando exclusivamente do ano de 2015, pois os experimentos de Calibre – citados acima – já remontavam ao começo da segunda década deste século. Esse fato, permanece completamente apagado pelo eixo do rap nacional e por todos os pseudo articulistas do rap no Brasil. 

Nenhum artista surge no vácuo e uma mixtape como “TIPOLAZVEGAZH” se situa no território criativo baiano, lugar de resistência preta que não cessa de se reinventar. Reinvenção constante que parece ser uma pirraça contra a não valorização, contra a exploração e o apagamento constante de uma cidade extremamente racista. Neste sentido, Vandal trouxe a tona no Rap o Lado B de uma cidade turística, onde poucos empresários lucram, onde mesmo manifestações legítimas e de sucesso como o Baiana System – com quem colabora – estão sempre em risco. 

Olhar Vandal aqui é acessar um plano sequência que aos poucos enquadra e produz visões do que Salvador e a Bahia não cessa de devir, território de reinvenção diuturna e de produção de formas próprias dentro da história da música na diáspora. A Bahia, como uma terra de independência estética e política, com um cenário de música preta que inventa suas próprias sonoridades no Atlântico Negro, mas que luta duplamente contra o racismo, numa conjuntura local que se compraz em sugar e apagar artistas pretos, e com um eixo que a invisibiliza. Dupla pinça do racismo.    

Somente em 2017, quase dois anos depois, Vandal conseguiu lançar o clipe da faixa “INTRUH”, segunda música da mixtape. Uma carta bomba de intenções dando um aviso ao mercado e criticando suas hipocrisias. O clipe gravado no Bairro da Paz aka antiga favela das Malvinas, já deixava visualmente explícito qual era e ainda é, 8 anos depois do lançamento o regime de signos, o vocabulário, e sobretudo as premissas políticas sob as quais sua arte se assenta. Já naquela altura, Vandal trazia a sonoridade do drill, que somente muitos anos depois seria absolvida pelo cenário nacional. 

“RELATOZH SELVAGENZH OUH TIPOH LAZVEGAZH”

O ano de 2015, foi intenso na minha vida, eu escrevia para o Oganpazan e trabalhava o dia todo dando aulas em Macaúbas (Salvador-Bahia) e fazia uma travessia na cidade para dar aula no noturno, na favela do Planeta dos Macacos. Não existia o metrô e o trajeto levava 1h e 20 minutos que eu dedicava a ouvir discos sobre os quais escreveria naquele final de ano. Foi nesse trajeto que ouvi os discos da Cintia Savoli (Bruta Flor), do Rap Nova Era (Brutality) e o EP do Diego 157 (Antes da Mixtape), entre vários outros. 

Ouvindo bastante a mixtape TIPOLAZVEGAZH eu ficava me perguntando: O que é TIPOLAZVEGAZH? Que diabo é isso? Ora, eu tinha passado horas e horas ouvindo os mp3 baixados na altura do lançamento do disco – hoje o site está fora do ar – e aos finais de semana o CD, que também tinha comprado. Em 2016 encontrei Vandal na Amsterdan e o perguntei: O que é TIPOLAZVEGAZH? A resposta que Vandal me deu naquela noite, arisco e me olhando como se eu fosse um completo ignorante, ainda hoje ecoa na minha mente: 

“PORRAH PIVETEH, OH QUEH EH LAZVEGAZH? EH AH KONSTRUÇÃOH DEH ALGUMAH KOISAH GRANDIOZAH NUH DESERTOH”

Eu nunca esqueci aquilo e aquilo reverberou na minha cabeça até aqui, nove anos depois. Vandal construiu poeticamente a sua própria Pasárgada, mas longe de ser um lugar utópico, a sua “LAZVEGAZH” é um local onde a vida é feita. Local de vida e morte, jogo e paixão, arte e política, roubos e ganhos, dentro de uma visão onde a política é imanente a todas essas dimensões. 

A sua lírica nos esclarece como as regras do jogo são artificiais, o “Game Life” encontra na lírica de Vandal uma negociação entre a urgência de quem está “apostando o dinheiro do pão”, e a consciência política de que neste jogo às regras sempre favorecem os donos e ou amigos da banca. A Lei se aplica apenas para quem não possui poder e por isso mesmo, é preciso uma postura amoral diante da meritocracia, o que não significa acrítica. Essa perspectiva de que no Amor e na Guerra, vale tudo, é algo que transpassa a lírica do disco como um todo. E encontra também o seu equivalente musical, com o artista brincando, jogando com uma gama ampla de possibilidades sonoras presentes na mixtape, tomando sobre sua posse – dando-lhes um estilo próprio – o trap, o boombap, o drill, o arrocha, o pagodão. 

Rafa Dias

Assim como um jogador que passa de uma mesa a outra em um cassino, o beat do Rafa Dias para “TIPOLAZVEGAZH“ utiliza elementos diversos, dando-nos um Trap que vai se transformar em um pagodão, progressivamente. Apesar de escrever sem ler dicionário ou a Bíblia, o MC brinca na utilização de assonâncias nessa faixa: 

“Te sufoca eu sei que és, és

Seria fácil se todas dissessem “oh yes-yes”!

És ou não és, pra toda crença tem fiés, és

Me diz o que tu queres, que eu te digo quem tu és, nego”

Aqui, antes de sua fase católica e a devoção na Santa Dulce dos Pobres, Vandal se denominava melancólico e talvez agnóstico, mas deixava facilmente transparecer uma fé imensa na música e na cultura Hip-Hop. BOOKROSAH equilibra-se em uma frieza expressa pela racionalidade do verso: “Aposto minha vida, rival da emoção, drogas jamais me darão 1 milhão”. Uma faixa que reflete a urgência na luta pela sobrevivência, com alusões à “roleta russa” – aposta – e ao crime. Com uma visão extremamente lúcida do mercado capitalista – prostituição, tráfico, mercado musical – “dinheiro na mão, calcinha no chão”. Aqui sem nenhuma conotação misógina e ou moral sobre o trabalho sexual, “1000 prostitutas pro meu coração”. O beat de “BOOKROSAH” é outra criação do Rafa Dias, que então plasmava a originalidade do Trap Pagodão e do Pagodão Eletrônico, e que hoje mostra um dos caracteres pioneiros presentes na mixtape. 

Vandal Em “EMOCIONADUH”, Vandal se mostra frágil – “perdido igual menino” – ao falar sobre relacionamento, demonstrando que o disco não trabalha em uma unidimensionalidade. Referências a quando trabalhou como vendedor em “Shopping Iguatemi”, a faixa termina com um DJ riscando. Seguido de um “SKITH” onde ouvimos uma voz de mulher chorosa com a ignorância, reclamando de maus tratos. Todo esse rolê expressa uma masculinidade banhada em cocaína e campari, amarga, exaltada, e que clama de certo modo por não se apegar, daí talvez as imagens de prostitutas, de relações onde gastar o tesão é mais importante.  

A mixtape traz a essência da cultura Hip-Hop em seus modos de produção, ao utilizar beats e samples que impediram que o Spotify tivesse TIPOLAZVEGAZH inteiro por esses últimos dez anos. A produção de Diego 157 “ESSEKARATEMH”, por exemplo, provavelmente nunca foi escutada por quem só utiliza os streamings de música. A faixa, que vem logo após o primeiro “SKITH”, é o único “boombap” mais tradicional onde Vandal já rimou. Escrevi detalhadamente sobre essa música ao abordar as três músicas que o MC tinha lançado antes de sua mixtape, em 2014. 

-Leia sobre os três singles lançados em 2014 por Vandal, antes da mixtape, no site

Assinando como Àttøøxxá, Rafa Dias meteu um arrocha em “VEMH NIH MINH”, onde temos um Vandal seduzente, adaptando-se à estética do gênero musical baiano e dando a sua contribuição. Já no beat de “NOVAH SALVADORH”, assinado nos arquivos originais disponibilizados no lançamento, como A.MA.SSA, projeto da dupla Rafa Dias e Mahal Pita. Na faixa, Vandal faz referência ao Bemba Trio, projeto musical que reunia Russo Passapusso, Fael Primeiro e DJ Raiz e direciona sua música para o “Povão, eu faço reverência, e se os playboy colar, suas mulher compensa”. 

A playboyzada soteropolitana e nacional, nunca conseguiu absorver a música de Vandal, “este grande público branco e progressista” nunca quis ser preto como Vandal, o sucesso mercadológico do Rap não o alcançou. E nestes últimos dez anos, Vandal não se gourmetizou se adequando a essa fatia de mercado. A esquerda branca que lota os shows e consome a música do Baiana System, nunca deu o mesmo nível de importância ao trabalho de Vandal e isso não é fruto do acaso, essa recusa é dupla tanto de um lado como do outro. A violência, a lírica, a estética que o MC baiano desenvolve afasta o racista que ama a música preta. Em “NOVAH SALVADOR” essa postura é escancarada de ínicio: 

“EUH QUEROH LUCROH SEMH SOFRERH, EUH JAH NASCIH PRAH MORRERH, KIH SEH FODAH OZH INIMIGOH EUH SOUH ZUMBIH PRAH VOCÊH, EUH SOUH COREH HARDCOREH, NEGOH AZH PUTAH JAH SABEH, SEH KONFORMEH KIH MEUH ROZTOH DISPENSAH SUAH MAQUIAGEMH”   

Vandal
Vandal em recente campanha para a marca ORIG

Tudo isso em um pagodão pesado com gosto de carnaval, em trio elétrico sem corda e ou festa de largo. O trabalho de Vandal trouxe isso também para o rap baiano e brasileiro, essa aproximação com a música de rua de Salvador. No trecho acima destacado, dialogando diretamente com a história de ostracização de nomes pretos importantes da música baiana, e com o embranquecimento de nossas manifestações como feito pela Axé Music. 

Outra música que não estava presente no Spotify e só chega agora, “ALLH NIGHTH LONGH” é fruto de outro beat roubado, onde Vandal aka SIDOKAH VANDAL discorre em termos de bragadoccio e wordplays, salvador, desertor, suas tiradas como “Ela é sua, Van tomou, Ela é minha, Deus mandou” e seguindo uma estrutura de luta no game, longe da espera por um salvador. “DELTAH”, beat fruto da parceria entre Diego 157 & Rafa Dias é uma música que cresceu muito ao longo dos anos, não sendo dos seus hits mais tocados, mas uma espécie de xodó dos seus fãs.  

O rap na música de Vandal fabula uma nação, em uma triangulação entre coletividade, luta e amor entre os nossos. DELTAH é daquelas faixas que inspiram essas relações, e que muitos tomam como motivadoras, mas eu sempre gostei dos aspectos coletivos dessa faixa, “MEUZ PARCEIROSH TAOH LUTANDOH PORH MIMH, TAOH SEGURANDOH MINHAZH BRINCAZH SOH PRAH EUH NAOH DESISTIRH”. E esse aspecto já aqui ao final da mixtape, reforça a música do artista baiano como prioritariamente coletivista, tendo uma visão de jogo com recheio. Característica ressaltada em “40L”, faixa sobre a qual também escrevi mais detidamente no artigo acima.

-Leia sobre os três singles lançados em 2014 por Vandal, antes da mixtape, no site

A violência como um elemento essencial para o pensamento, que o retira da imobilidade, que racha as comodidades reflexivas, está condensada poética e musicalmente em “BALLAH IH FOGOH”, e é exatamente esse nível de violência poética que assustou e segue intolerável para uma classe média branca e progressista. Essa mesma que não se escandaliza com o genocidio da população negra perpetrado no estado da Bahia pelo PT, com medo que o “Carlismo” retorne.

Diante dos poderes constituídos a postura de Vandal está explícita aqui: “EUH NAOH TEH AMOH, IH NAOH VOUH FALARH DIH NOVOH, SEH KAMINHARH PRAH CIMAH DOH MEUH BONDEH VAIH SERH BALLAH IH FOGOH”. O maior hit do rap baiano, do que está associado a cultura hip-hop, não aos streamings, “BALLAH IH FOGOH” nos mostra a completa e absoluta diferença que o “roubo ativo” na cultura Hip-Hop, é capaz de promover, apesar do mesmo beat, da tosse presentes em “Riot” do 2 Chainz, a música de Vandal é outra.

Como é outra a sua LAZVEGAZH, como é outra a sua caminhada, o seu território, “CIDADEH NOVAH, MINHAH MULHER EH NICARAGUAH”. Vandal surgia há 10 anos, com uma estreia que antecipou sonoridades que posteriormente seriam assimiladas pelo mercado, mas sem no entanto dar-lhe o seu quinhão de reconhecimento. O mesmo que com diversos outros artistas de nossa história, isso não é novo, são as regras do jogo oficial. No entanto, suas associações com os coletivos UGangue e com o Baiana System, o mantiveram firme em sua luta. A mixtape ainda conta com uma produção do SekoBass e se encerra com uma poesia recitada por Vandal.

“IH SEH EUH AINDAH GANHOH OH GRAMMYH LATINOH, ELAH TIRAH AH MANCHAH DEH SANGUEH”

Dez anos depois, Russo Passapusso vai buscar o segundo Grammy Latino em Las Vegas – EUA, Vandal foi um colaborador nos dois discos ganhadores, assim como vem junto à banda nesses últimos 10 anos. TIPOLAZVEGAZH chega hoje inteiro às plataformas digitais, e permanece um disco muito atual, no entanto, todas as suas previsões já se realizaram, esperemos agora, a era de VANGUARDAH!        

-TIPOLAZVEGAZH, mixtape de estreia do Vandal completa 10 anos de seu lançamento

Por Danilo Cruz 

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