Tim Buckley foi um verdadeiro bardo. Percorre uma estrada tortuosa em sua vida, carregando uma música onde beleza e sofrimento se fundiam
O dia que eu acordar e for capaz de pausar esse vídeo antes do fim é provável que já esteja morto. A música é uma linguagem cósmica e certos sons parecem que se conectam conosco de uma maneira que nem as pessoas conseguem.
Seus nove discos de estúdio surgiram com uma urgência e velocidade absolutamente marcantes, seguindo os batimentos e compassos de um ser humano e ser criativo quase insolúveis que viviam em prol da música.
Em sua própria maneira única de expressão, Tim prova – em suas gravações – que é possível se alimentar da música e seguir carregando-a como um messias que leva uma mensagem, fundamental para alguém.
Tim cunhou um cancioneiro que esteve sempre à frente de seu tempo. Ele sofreu com a indústria por produzir música livre de barreiras estéticas e limitações radiofônicas e foi essa direção artística que fez dele um músico tão aberto e plural para experimentos que vão desde o Folk, até o Jazz e o Funk.
O cantor e compositor destila suas composições como um monarca, com a grandeza e a luz própria de poucos e muito bons. No seu tempo, o mártir foi inimigo de quem temia a novidade, o avanço, logo, toda sua poesia ganhou fôlego renovado após sua morte, mas suas inventivas propostas estéticas só foram reconhecidas nos últimos anos.
Não existe um disco que passe desapercebido com seu nome no canto do LP. A intensidade é tremenda, a entrega é de corpo e alma e, mesmo gravando tanto num curto espaço de tempo, a discografia e os martírios do mestre precisam de uma vida para serem devidamente digeridos.
O conteúdo parece uma obra cubista, ao longo do tempo você enxerga novas perspectivas e a obra cresce junto com você.
Line Up:
Tim Buckley (guitarra/vocal)
Lee Underwood (guitarra/piano)
David Friedman (vibrafone)
John Miller (baixo acústico & elétrico)
Jimmy Madison (bateria)
Carter C. C. Collin (percussão)
Track List:
“Happy Time”
“Chase The Blues Away”
“I Must Have Been Blind”
“The River”
“So Lonely”
“Café”
“Blue Melody”
“The Train”
Vejo esse disco – lançado em 1969 – como o trabalho mais confessional de Buckley. Aqui seu vasto conhecimento musical é condensado de uma maneira que, mesmo privilegiando a abordagem Folk, mostra um músico com aspirações mais amplas.
É importante ressaltar que cronologicamente, esse trabalho antecede alguns de seus projetos mais desafiadores. Vale lembrar que no ano seguinte, em 1970, ele lançaria “Lorca”, disco que foi gravado simultaneamente com o “Blue Afternoon”, sendo que o primeiro saiu via Straight Records – selo do Frank Zappa e Herb Cohen – enquanto o segundo, foi liberado via Elektra.
Discordo de muitos que argumentam que ‘’Blue Afternoon’’ é seu melhor trabalho por ser o mais acessível, pois essa questão é amplamente influenciada por preferências estéticas. Nesse disco, Tim aparece na figura de trovador, entoando sua poesia única e com temas que apesar da proposta minimalista, oferecem um olhar atento para o que ele toca nas entrelinhas do Folk.
É possível ouvir muito Jazz nesse disco. As linhas de baixo de John Miller em “Happy Said” fazem uma espécie de walking, para emoldurar a base de teclado com uma cuidadosa bateria, atenta aos passos do violão, conforme o pulso ganha forma.
No meio de tudo isso, a voz de Tim é o que lidera e dá o tom das investidas do instrumental. Um dos maiores cantores e intérpretes dos anos 60 e 70, a sua versátil e habilidosa voz, parecia ofuscar sua astúcia no violão. É interessante como sua voz também é o termômetro para colocar temas como “Chase The Blues Away” em lugares mais solares e introspectivos ainda que na mesma canção – mas em diferentes momentos e destacando a capacidade do autor para criar ambientações voláteis.
O trabalho da guitarra base de Lee Underwood nessa track é o que segura o suspense, enquanto a voz de Tim leva o Blues num gogó de sublimes picos e vales. Outra característica desse disco é que cada faixa surge com oportunas pequenas alterações na configuração, oferecendo timbres e proposta variadas para acrescentar na experiência.
Em “I Must Have Been Blind”, é a vez de David Friedman trazer uma nova paleta de cores no vibrafone. São poucos toques, mas você escuta a diferença e valoriza a sensibilidade. A bateria de “The River”, por exemplo, mostra Jimmy Madison trabalhando com tato para trazer um acompanhamento ascendente, respeitando a ascensão dos outros elementos no canvas sonora, sempre com total prudência, enquanto a poesia se agigante nos versos de Tim e nos harmônicos do vibrafone.
Extremamente sincero e cativante, Tim fala sobre a solidão da estrada em “So Lonely”, valoriza o caráter bucólico e a simplicidade de quem vê muitas coisas em pequenos atos. Quem escreve pouco e diz muito. “Cafe” é exatamente isso. Nem amargo nem aguado. Cuidado para o violão não passar desapercebido.
Cada fragmento de nota e poesia, ressoa e é entoado até o seu final. Tanto a banda de apoio, quanto o próprio Tim, desempenham seus respectivos papéis com grande cuidado e esmero. O som de desenvolve com uma beleza quase poética e conquista o ouvinte antes do final do primeiro take.
Tim nos faz lembrar a beleza de valorizar o discurso de uma voz., nos sugere cores em “Blue Melody” e quando se despede, pega o maior símbolo da estrada para um viajante: um trem. “The Train” é o Blues da despedida, mas a próxima estação é “Lorca”. 1970.
Desembarque pelo lado direito do trem.
– Tim Buckley e o fardo da beleza em “Blue Afternoon” (1969)
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