Lenda viva da música independente dos anos 80, Daniel Johnston é uma daquelas figuras singulares cuja improvável e acidentada trajetória ajuda a consolidar uma espécie de mitologia particular que continua fascinando pessoas mundo afora. É uma pena que a vida e a obra desse músico e artista plástico estadunidense não sejam muito conhecidas fora do universo restrito da música alternativa, tamanha é a estranheza que suas composições podem provocar nos ouvintes. Felizmente a incrível história de Daniel foi abordada, com riqueza de detalhes, no excelente documentário The Devil and Daniel Johnston dirigido por Jeff Feuerzeig.
Dono de uma criatividade vulcânica (que o levou desde cedo a produzir compulsivamente desenhos, filmes caseiros, poemas e canções), Daniel surge na cena independente dos EUA em plena ascensão da MTV arrebatando admiradores com uma modesta fita k7 produzida na casa de seu irmão. No entanto, problemas psicológicos fizeram com que seu caminho rumo à fama fosse tortuoso e cheio de episódios bizarros. Acometido por surtos psicóticos Daniel viveu como sem teto, cometeu crimes, chegou a ser preso e internado em manicômio. Alimentava uma forte obsessão pelo demônio, acreditando viver numa luta constante contra a influência de entidades malignas.
É curioso como a sua vida apresenta diversas semelhanças com aspectos das biografias de Arnaldo Batista (Os Mutantes) e de Brian Wilson (The Beach Boys), artistas que foram vítimas de severas crises psicológ
icas e tiveram suas carreiras profundamente afetadas por esses eventos. A história de Daniel é tão rica em reviravoltas que em certos momentos do filme nos perguntamos se o que estamos vendo realmente aconteceu, ou se não há uma boa dose de ficção naqueles relatos.
Criador de um universo estético muito particular e ainda assim capaz de provocar bastante empatia com seu ar descontraído e ingênuo, mas ao mesmo tempo dolorosamente sincero, Daniel combina sua voz desafinada com letras confessionais capazes de criar imagens impactantes (como em seus desenhos), numa estrutura musical simples e tecnicamente pobre. Assim álbuns como Yip Jump Music e Hi, How Are You – ambos de 1983 – terminaram ganhando fãs apaixonados, inclusive entre algumas bandas que faziam parte da cena independente daquele período, como Sonic Youth.
O atorm
entado Daniel se transformou numa figura mítica da cena underground de Nova York, sendo reverenciado por Kurt Cobain (Nirvana), Matt Groening (criador dos Simpsons) e outros nomes de peso. Chegou a ser comparado com Bob Dylan e foi saudado como grande revelação folk sem nem mesmo saber tocar violão.
Em The Devil and Daniel Johnston o diretor Jeff Feuerzieg faz um retrato desconcertante deste personagem, explorando com ótima desenvoltura narrativa suas conturbadas relações familiares, afetivas, seus problemas psicológicos e sua dedicação irrestrita à criação artística. O filme é bem sucedido em criar uma atmosfera tensa, sabendo utilizar o extenso acervo audiovisual que existe sobre a vida do músico. Os vídeos caseiros e as inúmeras gravações de conversas feitas pelo próprio Daniel, ou por pessoas próximas a ele, ilustram momentos importantes da história permitindo uma penetração maior do espectador naquele universo.
O efeito é de algo semelhante ao que Terry Zwigoff consegue no famoso documentário Crumb de 1994 em que acompanha a vida do cartunista Robert Crumb, um retrato cru e tocante da vida de um artista incomum.
Abaixo um vídeo que mostra a passagem de Daniel por São Paulo em 2013.
Diretor: Jeff Feuerzieg
Ano: 2005
Tempo: 110 min
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