Segundo disco do então duo The Baggios, Sina completa 12 anos de lançado e segue como um dos grandes clássicos do rock brasileiro!

Antes de qualquer coisa vamos aos fatos. Primeiro, nas últimas décadas é comum ouvir sobre a pseudo falência do rock, e essa afirmação é coisa de bunda mole que acredita na indústria musical e que só curte coisas “extourradas”, sucesso de público e crítica. Segundo, o The Baggios nasceu em São Cristóvão interior de Sergipe, estado de tantas outras bandas clássicas como os mestres supremos do Lacertae, uma das bandas mais originais da diversa cena rock dos anos 90, Karne Krua, Plástico Lunar, Renegades of Punk, Snooze e várias outras bandas de um estado foda quando se trata de música e produção cultural.
Fruto de um cenário estadual com um padrão de excelência enorme, apesar de quase nenhuma visibilidade no cenário nacional, The Baggios pelo menos no começo de sua trajetória, se tornou a representação do máximo de expertise completa quando se trata de Blues Rock brasileiro. Geralmente, se atribui a noção de clássico a discos de sucesso de massa e ou de álbuns que ao longo do tempo se tornaram inspiração para tantas outras bandas seguirem a direção estética apontada ali.
Com “Sina”, o The Baggios – uma banda que hoje possui 21 anos de carreira e 5 discos de estúdio, além de ao vivos, EP’s e singles – deu forma a um blues-rock nordestino cheio de autenticidade e extrema qualidade técnica e de composição. Sem grandes produtores por trás, investidores ou gravadoras, o duo produziu um disco de qualidade internacional em estúdios pequenos e de poucos recursos. Lapidando toda a força que o seu disco de estreia, o The Baggios de 2011, já anunciava.
Se destacando sobretudo por lapidar a proposta do seu debut e amarrar o peso do blues rock a suas origens nordestinas, seja nos personagens conceituais que preenchem Sina, seja pelos acentos rítmicos, presentes na sonoridade do disco. O The Baggios conseguiu plasmar uma pedrada que passados 12 anos segue batendo firme no coração de qualquer ser humano que minimamente conhece a história do blues rock mundial ou não, aqui com apenas dois exemplares da espécie atuando com alguma participação.

A identidade sonora e composicional presente em “The Baggios” de 2011, encontra em “Sina” a sua formulação melhor acabada e empolgante na utilização de expressões que nos são próprias e também no começo de uma delimitação de universo referencial que nos é mais próprio. O próprio Julinho explica na entrevista concedida ao portal “monkeybuzz” que foi Raul Seixas o seu empurrão para a composição em português. O que vai coadunar com os retratos que perfilam no disco de figuras de rua de São Cristovão (SE) e ao mesmo tempo a visão fatalista presente em “O Azar Me Consome”, e desenvolvida com plenitude nas canções de “Sina”.
O punch roqueiro já começa a todo vapor com “Afro” primeira música do disco que na minha audição se remeteu ao clássico do The Jon Spencer Blues Explosion, desde o primeiro dia que escutei; porém, não tem pelo menos formalmente nenhuma semelhança. Uma música, que abre o álbum com uma afirmação da nossa – brasileira – herança da negritude, sem com isso produzir qualquer panfleto representativo. Antes, desde o começo da bateria do querido Gabriel Perninha, produzindo um diferencial onde o batuque preto e a guitarra preta se coadunam em lisergia reflexiva. Na sequência, “Blues do Aperreio” mostra-nos a potência pesada e de atualização das angústias presentes na origem do gênero, transplantadas para um filho de São Cristovão.
O trampo de Perninha na bateria ao longo de todo o disco, mas nessa faixa em especial, mostra a importância de silêncios e de quebras de ritmo em uma canção. Enquanto isso, o desgraçado do Julinho enche a faixa de riffs e tocando a melodia com uma lisergia própria de quem estudou de fato os cânones e não era e segue não sendo uma planta da indústria. Detalhe, tudo isso enquanto canta como um excelente bluesman de São Cristovão.
As pedradas roqueiras seguem sendo arremessadas, e o wah-wah do começo e o huh do começo de “Sem Condição” é a continuação de uma simbiose perfeita e fruto de muito ensaio, entre música e letra. Julinho e Perninha seguram a onda e a elevam com uma qualidade que naquela altura era surpreendente, as três músicas que abrem “Sina” do The Baggios naquele momento, pelos menos para mim, fã de Cactus e Canned Heat, de Alceu e de Zé Ramalho, me parecia ser a fusão perfeita, e segue sendo.
Meu mano André Souza, sergipano e sua turma foi quem me apresentou os caras, se minha memória não tiver falhando, mas Marcelo me mostrou um blog de um sergipano que disponibilizava muito som foda, e por anos eu alimentei na minha mente que o Blog era do Julinho, o que não é verdade. O lance é que quando eu ouvi “Salomé me Disse” e hoje ouvindo de novo, eu pensei: “Puta que pariu, quem são esses filhos da puta”, com todo respeito as minhas tias.
Um xote rock como nunca se viu na história desse país, essa obviamente minha música preferida do disco. Com participação do Fábio da “Snooze”, é daquelas músicas que você não tem como classificar, e que sobretudo ficará para sempre na sua alma. E o disco não parecia nunca diminuir o ritmo, e apesar da pedrada que é “Sina” ela serve mais como uma carta de princípios no meio do disco do que como o melhor single do disco e sua carta de apresentação.
Se de fato podemos nos entregar ao fatalismo do The Baggios nesse começo de carreira, é um alívio perceber que há uma exaltação das feridas presenteadas pelo destino. “Esturra Leão”, faixa sobre um dos personagens da São Cristovão de Julinho, um feminicida que perambulava e dormia na antiga estação de trem da cidade, é uma das melhores faixas do disco e traz um Julinho compositor investigando as possibilidades do ser humano, ao mesmo tempo, que acompanhado por sopros do Mario Augusto e André Lima, consegue apresentar leveza crítica ao tema!
Ao longo do disco lá no distante já, 2013, eu lembro de ver o Perninha tocando em vídeos e ficar fazendo baquetas air, dada a putaria que era e é, sua afinidade com Julinho. “Vagabundo Arrependido” que traz novamente a dupla de sopros da faixa anterior, e menciona a parceria com a Bahia, me fazia corar de vergonha por nunca tê-los visto ao vivo na minha cidade, em Salvador.
Seria um momento importante ter visto o Lacertae em muitos shows dos anos 90, feitos aqui em Salvador, como só depois fui ver o The Baggios depois de ter agendado para vê-los no Carnaval e não poder por que minha adorada sogra inventou de morrer depois de mais de 6 meses de coma bem no dia anterior. Mas matei minha vontade primeiro em um pocket show no cine Glauber Rocha e depois em algum inferninho do Rio Vermelho no show do Brutown de 2016. Onde eu chapei tanto que mais uma vez Cafetão e Xaxá me botaram em um táxi.
Chegando na parte final do disco, com “Um Rock Pra Zorrão” qualquer ser humano ouvindo pela primeira vez essa faixa se pergunta: “Porque Não Man?”, porque não damos o valor real a grandes bandas e projetos feitos em nossa cidade ou nas redondezas? Uma geração e o próprio estilo musical fruto do soft power norte-americano nos fez pensar que qualquer coisa feita fora dos ditames ocidentais do Império devem ser desvalorizados.
Julinho é um puta guitarrista, e Perninha um puta baterista, prova disso é “De Malas Prontas”, onde os caras mostram que podem emular tudo que de melhor existe no blues rock mundial e sobretudo dar-lhes um cara nossa. Julinho escroto demais, slide precioso: “Eu tentei me mudar baby, você fuleirou” ahhhhh, tá ótimo para quem não nasceu no Mississipi. E ótimo aqui não é nivelar por baixo.
Depois do excelente mela cueca de “Domingo”, sobre amores desfeitos e relacionamentos que não acabaram bem, com referências a Neil Young, vem a maneirada com “Tardes Amenas” que cai para lá de um prog psicodélico. Até o folk eletrificado de “Descalço”, com banhos revigorantes de poesia nordestina, o disco flui perfeito e agudo no que se produziu no tar do rock’n roll nordestino – brasileiro – nas últimas décadas.
O The Baggios mudou muito desde “Sina”, lançado 12 anos atrás e sobretudo explorou cada vez mais suas raízes nordestinas, foi ao México e indicado ao Grammy, hoje é uma banda e não mais um duo. Gravou com muita gente importante do nordeste rock e lançou outros excelentes discos, mas esse “Sina” deixou um rastro, nem que seja para voltar a essa forma!
-The Baggios completa 12 anos de “Sina”, um disco “CLÁSSICO” do blues-rock nacional!
Por Danilo Cruz
Danilo
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