Há uma luminosidade misteriosa no som do Supercordas. Uma luminosidade matutina meio preguiçosa que reage à atmosfera esfumaçada das canções, criando um intrigante efeito de encantamento. Tudo que é tocado por essa luz ganha imediatamente um sentido mais profundo, a um só tempo transcendental e epidérmico.
A banda vem se empenhando em promover essa espécie de re-encantamento do mundo desde o seu primeiro trabalho, o Ep A Pior das Alegrias de 2003. E a cada novo registro lançado se confirma o poder da música dos caras em trazer à tona uma realidade fantástica que confronta com toda a sua exuberância a aridez do racionalismo moderno.
O recém lançado Terceira Terra é mais uma oportunidade para nos deixarmos habitar pela sonoridade mística do Supercordas. Mas, para além disso, ele também é uma crítica sensualista ao viés auto-destrutivo das sociedades contemporâneas que encara a natureza como um mero instrumento para o lucro. Enquanto Seres Verdes ao Redor de 2006 possui aquela tônica de celebração chapada ao mundo natural no melhor estilo bicho grilo, a obra seguinte (A Mágica Deriva dos Elefantes de 2012) já acentuava uma preocupação com a ação predatória intrínseca ao modus operandi cientificista em músicas como Um Grande Trem Positivista, Ascensão e Glória do Império Cibernético, entre outras.
No novo disco do grupo esse aspecto se aprofunda. Não é por acaso que a primeira faixa chama-se Fundação Roberto Marinho Blues & Co. Seu tom solene e acinzentado foge ao colorido vivaz que costumamos encontrar nos trabalhos anteriores do quinteto. Logo de início presenciamos o universo corporativo lançar uma sombra de concreto sobre o que ainda existe de espontâneo e de não submetido à lógica cartesiana.
Felizmente a resposta não tarda, pois o clima da faixa seguinte contrasta de imediato com a resina lúgubre que a sua antecessora parece deixar em nossos ouvidos. Sobre o Amor e Pedras (primeiro single, divulgado no início de 2015) chega como uma rajada de ar fresco, misturando a já conhecida essência musical do Supercordas com influências e temas mais urbanos. É o feitiço das cordas contra “a cidade empedrada no coração”.
Nessa peleja, a principal arma da banda consiste em sua proposta estética de representar a existência como uma grande sinfonia cósmica, onde absolutamente tudo está conectado pelo ritmo primordial da vida; criação e destruição. Na substância última desse mundo estão filamentos de energia extraordinariamente pequenos (conhecidos como cordas) que ao combinarem seus infinitos tipos de vibrações dão origem à própria existência.
O estilo de vida das sociedades ocidentais atualmente é o exato avesso desse tipo de perspectiva. Nele o individualismo, a competitividade, os estímulos consumistas, a ânsia irracional por uma produtividade crescente nos afastam cada vez mais daquilo que é essencial. E nesse sentido Maria³ talvez seja a música que, dentro do disco, melhor descreve as graves conseqüências do afastamento entre indivíduo e mundo no espírito humano.
Após uma introdução que lembra o clássico Walk on the Wild Side de Lou Reed, a canção nos apresenta essa personagem deslocada acordando “com o som da BR-40” e tentando reencontrar sua conexão com o mundo. Maria³ conta com o luxuoso reforço da guitarra de Benke Ferraz do Boogarins para reconciliar esteticamente fragmentos do cotidiano urbano com uma transcendentalidade esquecida, indicando o caminho das pedras para outra maneira de perceber nossa mundaneidade.
A forma suprema dessa ética ancestral pode ser experimentada no transe místico de Colunas, onde a banda cria uma vibe xamanística que exala The Doors por todos os lados. “Camaradas, o tempo enlouqueceu”! anuncia o vocalista e guitarrista Pedro Bonifrate em meio ao instrumental sinuoso de Diogo Valentino (baixo), Filipe Giraknob (guitarra), Gabriel Ares (teclados), Digital Ameríndio (bateria). Se para o hinduísmo a dança de Shiva dá originem ao movimento de tudo que existe no universo, aqui a “potência de acordes destrutivos” do grupo dá vida a uma outra realidade, totalmente envolvente e imersiva.
Contudo, o panteão do Supercordas é mais vasto e inclui também a mitologia e o folclore dos povos indígenas brasileiros. Retomando as trilhas abertas pelo psicodelismo rural de Zé Ramalho e Lula Côrtes no icônico disco Paêbirú (1975), tanto Ipupiara quanto Terceira Terra (última faixa do álbum) prestam reverência à rica cultura desses povos que continuam sendo massacrados pelos interesses econômicos e ideológicos do insaciável leviatã capitalista.
Assim, restabelecer uma conexão com o organismo vivo do mundo é imprescindível para evitar nosso próprio declínio enquanto espécie. Uma das melhores faixas de Terceira Terra é bastante direta ao propor a questão: Espectralismo ou Barbárie? Para o Supercordas esses são os dois caminhos que se impõem às civilizações contemporâneas. O universo sonoro criado pela banda é como a pílula vermelha de Morpheus, um gole do Daime, uma porta aberta para a revolução da consciência e dos sentidos.
A interferência da urbe nessa trip aparece de maneira explícita em forma de guitarras mais pesadas e em certos momentos de poluição harmônica. Cidade e campo se entrelaçam num jogo de atração e de repulsa muito bem orquestrado. E aí precisamos destacar (além da qualidade das composições) a produção de Gui Jesus Toledo do Estúdio Canoa que consegue dar clareza às inúmeras camadas e texturas do álbum na construção dessa complexa ambientação, fazendo-as fluir conforme se faz necessário.
Talvez esse seja um dos motivos para a origem da misteriosa luminosidade a que me referi no início do texto; mas sinceramente qual a graça de ter um mistério revelado? De qualquer maneira Terceira Terra além de já ter se tornado meu disco preferido do Supercordas até aqui, é também um dos grandes lançamentos do ano e mais uma pedra angular para a atual (e efervescente) cena do rock psicodélico brasileiro.
“Terceira Terra” é o terceiro álbum da banda Supercordas.
2015 © Balaclava Records
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