Tara Bipolar uma ode ao apocalipse que vivenciamos, num disco necessário para compreendermos melhor a força do punk nesses tempos!
Nossa geração foi mergulhada num expectativa do futuro. Quando crianças víamos filmes que tentavam adivinhar como seriam os anos futuros, pós 2000. Geralmente a visão era futurística, de carros voando e um cenário de verdadeiro apocalipse e caos, escassez de recursos naturais, entre outras mazelas.
No final da década de 70, as primeiras bandas punks também tinham uma visão de mundo baseada na incerteza. Com o lema “No Future, No Hope”, os grupos punks da época se mostraram altamente visionários. O mundo atual não tem carros voadores, mas está mergulhado em incertezas, mazelas sociais e devastado por um vírus.
O capitalismo, por sua vez, não se rende. Ele força, diariamente, milhões de pessoas a se expor em perigo de morte para que a máquina não pare, afinal o capitalismo não tem paciência, ele sobrevive do lucro imediato.
É nesse contexto com a banda paulista Tara Bipolar lança seu álbum de estreia, homônimo, em todas as plataformas digitais.
Com nítidas influências de Stiff Little Fingers, X Ray Spex, Blondie e Mercenárias, a Tara Bipolar direciona o olhar para 77 na tentativa de entender 2020. O álbum traz 10 faixas de pura realidade, sem floreio, um verdadeiro grito da geração que passou dos 30 anos e permanece com incertezas e com ausência de qualquer perspectiva positiva. Uma geração assolada por problemas psicológicos, cobranças e que insiste em viver, pois só com muita insistência para se manter nessa sociedade doente e fudida.
“O Cartaz” abre o disco falando justamente dessa geração, que é cobrada a dizer amém ao patrão, pois tem que segurar aquela única forma de sustento, que na real mal dar para pagar as contas mensais. Os patrões exigem que nós, proletários, vistamos a camisa da corporação, para no final apenas nos dar um destaque no cartaz de melhor pagapau do mês. Que se foda você e sua camisa, queremos apenas a porra do seu dinheiro.
A banda segue como ecoando nossas frustração em “Medo de Morrer”, que escancara toda síndrome do pânico que nos acomete. Uma sociedade baseada na cultura da violência, pouco a pouco vai nos deixando temerosos, com medo de sair de nossas casas, com medo do Estado genocida, com medo do companheiro agressor, do mundo que dizima mulheres e com isso vamos deixando de viver e passamos apenas a perecer na terra.
E para resolver os problemas citados anteriormente o que fazer? Terapia? Astrologia? Remédio? Academia? “Consumo”! Somos uma geração que desconta todos os problemas no consumismo, em soluções que de nada adiantam, mas que momentaneamente nos deixa menos mergulhados em merda, ou pelo menos serve para maquiarmos nossas realidades nas redes sociais.
E tudo isso porque somos o mal de todos os séculos, residindo em um planeta assolado por “Doenças Generalizadas”. Destaca-se que o disco da Tara Bipolar foi gravado em Novembro e Dezembro de 2019, contudo elas já alertavam: O futuro, aquele futuro distópico, já chegou. Poucos meses depois soubemos exatamente o que é isso. Um país inteiro quarentenado, lutando para não ser derrotado por um vírus com grau de letalidade enorme.
Exatamente na metade do disco surge o grito que todos e todas, da nossa faixa etária, propagam “Insatisfação”. Nunca estamos satisfeitos com o que temos, com a vida que nos é proporcionada. Sempre queremos aquilo que não temos, e se alcançamos essa meta percebemos que nem ela nos satisfaz.
Na faixa “Questão de costume” a Tara Bipolar põe o dedo nas feridas abertas pela criação patriarcal a que todos nós fomos expostos, que justifica diversas atrocidades e violências cometidas pelo ser humano, como mera questão de costume da sociedade. Não se pode relativizar a morte diária de mulheres como questão de costume. A OMS já classificou a violência contra a mulher um problema de saúde pública mundial com proporções epidêmicas. Isso não é questão de costume, na real são sinais de anos de opressão e submissão de gênero.
“Show de horrores” mais parece o noticiário diário, repleto de absurdos que a cada dia insistem em superar. Fake News, ignorância, meritocracia e ataques a ciência, a cultura e tudo aquilo que pode salvar os jovens dessa matrix, no pior sentido possível, que estamos vivendo.
Desprezando a positividade dos coachs de plantão, sem sonhos e sem planos, só restou o rancor como sentimento em nossos corações, ele que nos faz seguir para onde nem sabemos, caminhamos “Abraçados ao meu rancor” numa rotina maçante e estressante. Seria essa a nossa versão do Admirável Mundo Novo?
De acordo com a Tara Bipolar, essa distopia de admirável nada tem. Vivemos realmente em um “Detestável Mundo Novo”, onde nem o maior e mais criativo escritor distópico poderia imaginar. Mas então, se tudo está uma disgraça qual o sentido de viver? Pirraçar e jamais se acomodar. Se o mundo é ruim, noiz é pior ainda, somos o câncer dessa sociedade e ficaremos aqui até o fim, qualquer que seja ele.
O fim do álbum de estreia da Tara Bipolar não é tão desgraçado assim. O disco é finalizado com a faixa “Noite Desperdiçada”, um som divertido e que fala sobre noites perdidas, onde as certezas de nada valem e apenas ficamos tentando entender o mundo em que vivemos e quando nos damos conta, já raiou o dia e a voltamos para o trampo citado no início desse disco.
Esse disco da Tara Bipolar além de ser bem atual, tem uma ótima qualidade de gravação e produção. O disco foi gravado no Estúdio Espaço Som, em São Paulo, com produção técnica e mixagem de Henrique Khory “Dog” e masterização por Wagner Bernardes. A excelente arte da capa é de Talita Santana, confira esse trampo!
-Tara Bipolar uma ode ao apocalipse que vivenciamos
Por Dudu
Tara Bipolar foi:
Cris Cintra (Vocal)
Bruninha Paixão (Vocal)
Jéssica Aguilera (Guitarra)
Maycoln Costa (Guitarra)
Felipe Suna (Baixo)
Rafael Covre (Bateria)
Dudu
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