Surf & Trash, primeiro EP da Ivan Motosserra, chega pra cortar o marasmo, fazer barulho e agitar os corpos.
Ivan Motosserra! Banda baiana que faz uma surf music de pegada garageira, fortemente influenciada pelo rock dos anos 50 e suas variações ao longo das décadas. Recentemente lançou seu primeiro Ep devidamente intitulado Surf & Trash. Aliás, surf & trash, são elementos cuja combinação resulta na elevação dos decibéis aos píncaros do delírio sonoro. O Ep revela o domínio da banda sobre as variações apresentadas em cada música. Sem dúvida a uniformidade não caracteriza o som da banda.
Impregnadas de dinamicidade e multiplicidade, as execuções das faixas tornam a experiencia de ouvir Surf & Trash fluida, natural, efervescendo os instintos dos ouvintes, chacoalhando o cérebro, embaralhando as sensações geradas pela via auditiva. Somos arrebatado pelos riffs e batidas de tal forma, que nossa consciência é roubada durante o transcorrer das músicas. Só nos damos conta de termos sido levados pela onda sonora, quando ela se quebra rapidamente na praia ao término da última música. Ao final do Ep vem a sensação de insaciedade causada pela forma rápida e certeira com que o som nos atinge e se esvai. A veia punk da banda se mostra em toda sua pujança através das investidas assim desferidas pelo power trio instrumental.
Estamos diante de uma banda interessada em resgatar o tom agressivo e direto que o rock sempre perde de tempos em tempos devido à saturação de alguma tendência que se tornou predominante. Reavivar o rock através de bases simples e cruas renova o espírito contestador, resgata o impacto da música sobre nós, ao que me parece, este é o efeito que o som da Ivan Motosserra tem sobre quem entra em contato com ele. A imagem da motosserra, invocada pelo nome da banda, remete a este rompimento, ao corte no tédio que certas tendências do “rock” vendido pela Indústria Cultural nos impõe. Nesse sentido, a motosserra corta na raiz, nada fica de pé.
Surf & Trash se inicia com a faixa Surf´A’ Billy. A música segue diferentes caminhos cujo ritmo cadenciado conjugado ao dedilhado seco da guitarra, geram uma atmosfera com boas doses de psicodelia. As levadas construídas por Rodrigo Gagliano se alternam e são acompanhadas pelos riffs construídos por por seu irmão Rogério nas guitarras.
Catacumbas de Paris, este nome sugere um clima mórbido, que até aparece nesta faixa, mas não é predominante. Nos deparamos com uma levada dançante, cuja velocidade se alterna no decorrer da faixa. Não sei se induzido pelo nome ou se realmente existe certo divertimento mórbido. Ainda assim, esta imagem me vem a cabeça. Certamente seria algo que tocaria numa festa realizada por criaturas da noite. A música adquire uma identidade diversificada (podemos dizer que todas as músicas tem essa peculiaridade como característica em comum). Nossos ouvidos são invadidos! Através deles o som alcança e percorre o sistema nervoso descarregando eletricidade em cada parte dos corpos atingida pela música.
Em Cine Trash Tupi o clima fica tenso, carregado de uma gravidade vibrante causada pela pulsação conjunta executada pelo baixo e pela bateria. Esse contexto sonoro estabelece um arranjo musical que nos leva a esperar um desdobramento mais intenso. Contudo os arpejos feitos por Rogério na guitarra, temperados na medida certa com reverb e destacado pelo vibrato, dando aquele efeito característico da sonoridade surf music, contrasta com a densidade sonora estabelecida pelo baixo e bateria. Este contraste gera um efeito interessante, pois une duas situações contrárias. Num segundo momento o contraste some pois os três instrumentos passam a trilhar um mesmo caminho. Eis que temos um bloco sonoro mais robusto e de impacto mais forte.
Talvez Il Monstro seja a faixa mais emblemática do álbum. Isso porque apresenta características presentes em todas as demais músicas e um pequeno toque de country. Há passagens em que somos levados de modo irresistível a relembrar cenas de filmes de faroeste. Essa sonoridade, entretanto, nos é apresentada pela Ivan Motosserra com uma roupagem bastante peculiar ao som da banda.
O Ep é encerrado com a música TSU!. A música tem vários momentos de tensão dramática que conseguem nos acertar em cheio. O andamento cadenciado ornado por melodias mais redondas e fluidas dão à música contornos da velha surf music, porém revestida da sonoridade garagem/punk que a meu ver caracteriza de forma contundente a música da Ivan Motosserra.
Esse uso de diferentes elementos para originar uma surf music de sonoridade mais agressiva e por vezes suja é sem dúvida uma mostra de inquietação da banda. Revela a verve criativa da banda, ansiosa por forjar novos sons. Mostram-se interessados por revelar novas possibilidades de expressão do rock, buscando possíveis mutações de subgêneros deste estilo musical que possam livrar o rock do marasmo. A Ivan Motosserra faz com que o rock seja a personificação da juventude. As grandes bandas fazem isso, mantêm ou devolvem a juventude ao rock!
Ivan Motosserra é: Rogério Gagliano na guitarra, Rodrigo Gagliano na batera e Gabriele Sousa (Babiba) no baixo.
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Surf & Trash foi gravado e mixado por Diego Pereira entre 24 e 26 de dezembro de 2015. Arte de capa por Cristiano Suarez, contra capa por Gabriele Sousa.
Carlim
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