A música baiana resiste às prateleiras do mercado, reafirmando sua força, diversidade e ancestralidade cultural.
Por Jaqueline Sangalo
E, antes, a questão era: “Penso, logo existo”. Hoje, segundo Bauman, no livro A Vida para Consumo, o mote seria “Consumo, logo existo”, em que o autor alerta que nós, pessoas, somos a mercadoria. E a música é uma mera caroneira desse estrelato? Noutro dia, ouvi um compositor falando que sua pesquisa repousava nos anos setenta, que a bossa nova foi fonte inspiradora do jazz e que chegou a ser proibida.
O mesmo compositor indica, em suas redes sociais, que um americano jamais tocaria como os brasileiros, e acredito piamente nisso. João, o Gilberto, foi realmente sensacional: pensava, logo, existia. E, mesmo sendo compositor de apenas duas músicas, era um intérprete criativo. É isso aí: a interpretação inclui uma criação. Seja o intérprete vocal, os cantores, os instrumentistas, os musicistas, os atores cênicos, todos acrescentam suas vivências às suas interpretações e dão a elas o seu tom, o tom da sua personalidade, da sua mais pura “criação do espírito”.
Essa criação tem proteção legal, e muito falaremos sobre ela, que, em juridiquês, é chamada de direitos conexos. Eu prefiro a denominação cunhada por Victor Drummond, de direitos de intérpretes, e estes precisam ser garantidos e remunerados. O mundo inteiro já os remunera, bem como o direito sobre as exibições e reexibições, seja em canais abertos ou fechados de televisão.
Verifiquei que a média nacional de cachês de músicos varia em torno de R$ 1.700 a R$ 1.800, a depender da região do país, indo de R$ 1.100 a R$ 3.000 por show, variando se inclui ou não o direito de imagem, que em outro encontro nosso abordaremos.
Mas o barzinho, de norte a sul do país, paga bem menos. E Salvador, pela imensa oferta de excelentes músicos, como já se tem noção, apresenta cachês que variam entre R$ 150 e R$ 200, conforme assevera o músico e cantor Serafim Martines, que diz que as grandes bandas recebem R$ 1.000 a R$ 1.200 por show.
Mas o barzinho é uma equação para lá de difícil. Alguns pontos pioram a situação, como, por exemplo, o bar cobrar uma parte dos cachês. Isso dificulta cumprir a equação, mesmo com os baixos cachês. Via de regra, o “dono da banda” sai sem o dinheiro do transporte. Como diria Chico Buarque: “festa acabada, músicos a pé”.
Já os bares que pagam cachê fixo giram em torno de R$ 700. E canso de ver nossos incríveis músicos correndo de um lado a outro do Rio Vermelho para cumprir três ou quatro pautas, para conseguir chegar a um rendimento mensal de aplicativo. É por amor à arte, sim. Mas pode melhorar.
Estamos na era das reputações. As casas também precisam repensar isso. Bem como as grandes atrações, aquelas do segmento milionário, e outras tantas poderiam dedicar em torno de 10% do seu cachê para o rateio entre os músicos.
O que seria assim: em um cachê de R$ 300.000, R$ 30 mil seriam rateados entre os músicos.
Se forem dez músicos, cada um ganhará R$ 3.000. Aqui em Salvador, para o Carnaval, dividindo-se por hora, em torno de seis horas de trajeto, teríamos R$ 500 por hora.
Arte não tem e não deve ter preço de mercadoria. Arte tem valor e precisa ser um justo valor, o que deve compreender o ganho final dos partícipes do jogo. Esse criativo trabalho deve valer mais que uma renomada calça jeans de marca de alto luxo, pois é um luxo divertir-se ouvindo a mágica caixa sonora de um trio elétrico, tocando tantas coisas lindas, imprimindo impressões em memórias inesquecíveis.
Afinal, se a mercadoria somos nós, também temos que ter uma remuneração digna. Vamos conversar muito sobre plataformas, mercado musical, direitos e demais assuntos concernentes.
AQUELE ABRAÇO
Às vezes me pego pensando por que o mercado continua a querer dizer que o movimento na Bahia acabou. Pergunto: que movimento? A Bahia possui o primeiro registro de samba do Brasil. Outros podem vir, pois há diversos tipos de samba, mas o primeiro é o daqui, indubitavelmente, tombado no processo de nº xxxxxx, junto ao IPHAN.
Dito isso, já fica bem claro que o primeiro registro é o baiano para o movimento do samba, que tem coco, chula, toré, samba de roda, que está dentro dos quilombos e terreiros de religiões de matriz africana, que ajudam a preservar. O que nos leva a concluir que esse movimento, o do samba, não acabou.
O reggae é fortíssimo, com inúmeros e supertalentosos artistas, incluindo Edson Gomes, Gilsan, Tonho Dionorina, JoRas e Jorge de Angélica, além de Zamvan — primeira reggae woman da Bahia —, ambos no andar de cima da espiritualidade.
Com forte representação na Casa do Reggae, com Jussara e um exército de músicos da paz, também nasce o movimento do hip-hop baiano, com o filho de Jussara e os moradores do Pelourinho e cercanias. Então, esse movimento não acabou.
No rap e no trap, temos, além de Baco Exu do Blues, estourado nos EUA — não que isso nos importe, mas é bom para o movimento —, Teto, Matuê, Jovem Dex e Talisca, já com inúmeros seguidores e empurrando esse movimento, também em crescimento.
A força afro também não para nessa cidade que costumo dizer que é a Nova Orleans do Brasil, por conta da musicalidade e do muito respeito com toda a ancestralidade musical que passa e repousa aqui, em todos os nossos tambores de liberdade, no Ilê, Gandhi, Olodum e seus poetas musicais, que tantos filhos pariu, como Pierre Onassis e Denny, da Timbalada.
Atualmente, também temos a incrível Paula Sanfer, feirense, como eu, que vi o Chiclete com Banana tocar, patrocinado pela Pedro Felzemburg, marca que já nem existe mais. Porém, Bel Marques segue cumprindo o literal significado da palavra carisma, que quer dizer conversar com o divino.
Quem já o viu cantar e tocar no trio, em total interação com o público, como já tive por diversas vezes a oportunidade de ver e ouvir, entenderá a longeva carreira dele. Aliás, em trios elétricos, a Bahia também demonstra excelência que não morreu e, aliás, se estende para outros estados. Então, também esse movimento não morreu.
A dificuldade é entender exatamente o que seria Axé. Quem está contido em tal definição? Harmonia do Samba é Axé?
Carreira sólida e a cara da Bahia, o samba que gostamos, do menino baiano que aqui recebeu régua e compasso, como manda bem o mestre Gil, que, lá atrás, apoiou o Gandhi para que essa nossa linda tradição não morresse. O Gandhi é Axé? Moraes era Axé? E Armandinho é Axé? Não e sim, sim e não.
O próprio inventor da denominação revelou que não foi muito feliz, mas foi, pois a Bahia posicionou, por 30 anos, diversos artistas muito bem no mercado nacional. E o mercado sempre tenta que sejam ondas mais curtas para substituir a novidade, mas, ao que se propunha chamar de axé, ficou em altíssima voltagem de vendas e shows durante 30 anos. E, nesse caldeirão, todos aproveitaram a onda.
O que era e o que não era axé? Mas confesso que fico muito em dúvida sobre tais prateleiras e denominações. Márcia Freire, Durval, Claudia Leitte, Netinho, são Axé? E é o Tchan? É samba, pagodão?
O hábito das prateleiras é algo sobre o qual devemos refletir: para que servem?
O rock baiano tem um posicionamento dos mais incríveis do país, vindo desde Raul a Pitty Seixas, com Camisa de Vênus, Gonorréia, Marcelo Nova, Maglore, Cascadura, Banda Mr. Jack e toda a turma da Trinca de Selos, com 400 títulos de rock no Bandcamp. Nem esse movimento morreu.
Mas ainda temos Xênia França, premiada no Grammy Latino; Rachel Reis, indicada; Larissa Luz, Luedji Luna, Afrocidade, Attoxxa, Pedro Pondé, Djaluz, Quabales, Dida, BaianaSystem, se firmando como grandes atrações dentro e fora da Bahia. Sei que estou bem andaluz no ufanismo com o movimento musical baiano, porque é assim mesmo.
Aqui surgem artistas e bandas todos os dias. E, pelo amor de todos os santos e orixás, são meros exemplos e não uma lista terminativa, pois ocupam lugar em meu coração Lazzo, Margareth, Tatau, Ninha, Xexéu, Patrícia, Márcia Short, Robson, Luiz Caldas e tantos outros.
A Bahia já nos deu régua e compasso para afirmar que aqui o movimento musical não parou nunca, independentemente do nome, da prateleira. Como já dizia Jorge Amado: “Baiano não nasce, estreia.”
