Servo, MC carioca lançou os EP’s Reparações, Jogos & Preocupações e São Dimas em 2025, expandindo e refletido os caminhos pós álbum de estreia

“Cantar vitória na derrota é pra qualquer um
Cantar derrota na vitória né pra qualquer um” Vandal
Para Servo, 2024 foi certamente um ano de virada em sua vida, ano em que estreou em disco com o elogiado “Hiato entre A Necessidade e o Ego” em parceria com o produtor Chiarelli, disco lançado pelo selo Sujoground. Foi também em 2024 que a sua emblemática participação no disco “Maria Esmeralda” o levou a fazer mais shows e a pisar em palcos para ele, inéditos ainda. E é a elaboração desses momentos e conquistas, que os seus trabalhos de 2025 poetizam.
-Leia a entrevista que fizemos com o Servo no ano passado
Note-se que Servo não possui milhões de plays nos streamings, mas esse é um momento muito especial em sua trajetória e como um bom pensador, isso se reflete em seu trabalho. Artista plástico, pai e professor de judô, eu arriscaria dizer que a importância do momento se reflete muito por ter conseguido fincar os seus pés no cenário. Por ter colocado sua arte nos ouvidos e nos olhos, nos palcos e nas paredes de quem admira um artista que busca desenvolver uma linguagem singular.
Neste sentido, Servo nos mostra que em 2025 a cultura Hip-Hop, muito mais do que produzir jovens ricos, produz homens que encontram em seus elementos sentidos para viver. Mais do que força para sobreviver, a cultura Hip-Hop e aqui em específico o rap boombap/drumless, são campos de possibilidades para outras existências. Local de experimentação estética e de vida, de reivindicação, de potencialização da cultura sem gentrificação, e sobretudo de produção constante de futuro para a música rap.
Enquanto os influencers potencializam a indústria cultural em um culto às celebridades, sempre em busca de um Novo Salvador, as condições de possibilidade de continuação da cultura e da arte no Hip-Hop estão sendo produzidas diuturnamente. Enquanto estão sempre à espera de um trabalho que vai levar o rap de volta às raízes, à um começo onde tudo era “de verdade”, de preferência patrocinado por grandes empresas e organizado lucrativamente para os brancos, o futuro segue passando por cima destes produtores de hype, card, meme, conteúdos…
Incapazes de perceber o presente sempre fugidio e adorando um passado mítico, não são capazes de compreender o futuro que não cessa de ser produzido no underground. Caninamente seguindo as métricas das redes sociais, e tentando fazer passar a busca por likes com amor pela cultura e respeito à tradição. Com raríssimas exceções, os influencers balançam entre “pautas políticas do momento”, “fofocas disfarçadas de militância” e “nomes que possuem retorno de visualizações garantidos”.
Esse tripé de produção de conteúdo, não consegue capturar nomes como os de Servo, ou dos produtores/beatmakers Noshugah & Pântano. Desconhecem vergonhosamente nomes como os da nabru e da Killa Bi, meramente por confundir “sucesso” com relevância estética, força cultural e por ser pautado ao invés de pautar, se mídias jornalísticas fossem. Mas talvez, isso seja pedir demais. São as pessoas que dizem acreditar em transformação mas seguem falando a língua, os assuntos e assumindo os mesmos trejeitos do “sistema”.

Em sua parceria com Noshugah, Servo reflete sobre essa chegada dos retardatários após o sucesso, racistas, oportunistas, sejam eles homens ou mulheres. Ao mesmo tempo, em que consolida sua auto-estima como artista, sem ceder nenhum pézinho de uma estética que te trouxe até aqui. As produções do Noshugah são sempre tensas fornecendo a intensidade sonora e a cadência para a série de reflexões que formam: “Reparações, Jogos e Preocupações”.
O título do EP é rapidamente entendido pelo ouvinte como auto explicativo após a audição. Ao longo das 5 músicas que compõem o EP, Servo nos fala da sua família, mãe e filho, do rap e da cultura Hip-Hop como um compromisso, da luta por dignidade, mas também críticas profundas ao estado supremacista branco brasileiro. Numa pegada bem irônica, o MC carioca crítica do jogo idiotizante da fama, construído pela indústria cultural e sobretudo entende a sua posição no “game” como um trabalhador a mais.
Em “Não Contavam com Minhas Linhas Turvas?” faz uma declaração muito bonita de amor ao Hip-Hop:
“Foda-se eu não quero condecoro, minha performance no palco, é nada mais e nada menos que a dor sendo extraída do meu corpo”
Sem querer condecoração, Servo utiliza uma dupla recusa importante: a distinção honorífica, muito comum a militares por exemplo, mas também a assunção às normas morais vigentes, em um país imoral. Como muito bem rima em “Filhos de Uma Madrasta Ingentil”, uma faixa que anteviu – porque atentamente imerso – a maior operação de extermínio da polícia de Claudio Castro.
Esse movimento presente no final do seu EP “Reparações, Jogos & Preocupações” é continuado em “São Dimas”, em uma complementaridade e continuação estética e política, que somente artistas que pensam sua caminhada com calma e inventividade são capazes. Esse espírito criativo faz com que possamos inclusive pensar nos dois EP’s como um lado A e lado B de um só percurso artístico.
Porém, em “São Dimas” há outro tipo de entrega, onde as ironias e o papo mais reto do EP anterior dão espaço para um trabalho mais conceitualmente intrincado, tomando o santo católico como personagem conceitual. No entanto, sem ímpetos clericais, tomando o Jesus mais como um ativista com poderes metafísicos e que na cruz perdoou o ladrão que chegou no paraíso primeiro que o filho de deus, porque morreu primeiro.
As produções de beat e drumless do Pântano é um outro atrativo muito forte do disquinho, que pelo menos com esse vulgo faz sua estreia nos streamings. O produtor Pântano que é da cidade de Limeira e também designer – Lucas Gonçalves – que já tinha assinado a capa de “Hiato Entre a Necessidade e o Ego” e agora assina a capa de “São Dimas”. Através de um trabalho muito criativo na criação dos drumless e nas batidas, nesse primeiro trabalho já começa a desenhar uma assinatura própria.
Com raríssimas exceções, nada que possui o dedinho podre da igreja católica pessoalmente me agrada, mas até aí é o famoso foda-se eu. O cadáver do cristianismo em sua longa história de matança de povos inteiros, crueldade com mulheres e com pessoas desviantes da norma, falsificação histórica de documentos e destruição de culturas, tem muito pouco a oferecer em termos institucionais. E hoje mais do que nunca, se tornou muitas das vezes em um antro para ignorantes ovelhas doidas por repressão e lobos histéricos por dinheiro, às vezes em um híbrido dos dois.

Toda essa história de terror e seus personagens plenos da mais pura vilania, no entanto, serve-nos sempre a título de comparação da absoluta discrepância entre o fã clube e o J.C. (Jesus Cristo). E neste aspecto, “São Dimas” serve-nos tanto como uma referência atual de valores que a cultura Hip-Hop cultiva em consonância com o Nazareno. Como enquanto exercício poético de renascimento da existência do próprio Servo.
Devo acrescentar que meu coração ateu também não simplifica e não entende que qualquer que seja a contra cultura, arte e ou modo de fazer e pensar, seja a Salvação para ninguém. A vida e as suas condições são extremamente mais complexas do que essa redução nos quer fazer crer. Mas certamente, entendemos que muitas e muitas vezes, apenas uma prática esportiva, uma forma de fazer arte, o sentimento de pertença que esses lugares oferecem, são indicadores fundamentais para mudanças subjetivas e de vida.
O fato é que Servo utiliza não apenas o “São Dimas” como um personagem conceitual para o EP, mas transforma a sua vivência, de alguém que já esteve ligado ao tráfico e que hoje é um dos nomes mais relevantes do rap no Brasil. Transformando sua arte e sua visibilidade para questionar o status quo e lutar por uma vida digna ao seu menino e a sua mãe. Sem ilusões que 90% dos ditos cristãos aplaudem matanças, e desconhecem a boa nova.
É preciso mencionar o que a “nabru” chama-nos a atenção: “veja que ando sozinha mas tenho fieis comigo, não como se fosse uma igreja e sim como uma família sagrada”. Uma visão mais adequada a uma contracultura preta, e frontalmente diferente da visão clerical acima mencionada, onde público e mídias se comprazem em ajoelhar na cartilha dos Santos Eleitos entre a cultura e o hype.
Enfim, Servo mantém e expande o seu universo lírico e musical com dois trabalhos de relevo, apesar de serem EP’s. Juntos formando 30 minutos de música, se acrescentarmos os singles solo, chegaremos a mais de 35 minutos de música, mais sólida e relevante que qualquer disco de mash-up que tem levado influencers a se urinar em público.
“A Dimas, o primeiro
Saúde Guerreiro”
-Servo & Noshugah & Pântano : “Reparações, Jogos & Preocupações” + “São Dimas” EP’s 2025
Por Danilo Cruz
Danilo
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