FBC e Whoor chegam com um trabalho de resgate muito atual do funk mineiro, total miami bass de forte conteúdo social em Baile (2021)
Anos 90, Miami Bass, 2 Live Crew, Freestyle, Trinere, Afrika Bambaata e batidas de voltmix ecoando nos bailes funks cariocas davam o norte para um futuro da música eletrônica preta moderna que influenciou o mundo todo. O Funk carioca ganhou novas linguagens como funk melody, rasteiro, montagens, o tamborzão no final dos anos 2000 genuinamente sampleado dos terreiros de candomblé nação Angola e hoje encontrou os 150 BPM`s que acelerou o pique do baile de favela.
O novo trabalho do FBC é um clássico disco de Miami Bass com o sotaque mineiro narrando a dura realidade das comunidades periféricas. No roteiro musical tem crime, sexo, malandragem, a sopa comunitária que alimenta os dias frios dos moradores, e acima de tudo respeito e sabedoria do que diz nas letras.
As referências das batidas 808`s ditam o ritmo desse “Baile” que chega ao mundo neste 12 de novembro, dia mundial do Hip-Hop num ritmo quente do rolé a noite com os crias de fé. Com todas as produções assinadas pelo grande VHOOR, como no trabalho anterior do MC mineiro: o EP Outro Rolê (2021). E já chega após o sucesso gigantesco dos hits “De Kenner” e “Se Tá Solteira” com o feat da Mac Júlia. Na faixa “Não Dá Pra Explicar”, FBC convida a Mariana Cavanellas, um dos momentos altos do disco.
Pode parecer um trabalho clichê ou ultrapassado em relação às novas linguagens que o funk adquiriu com os anos, porém é um resgate às raízes do gênero que deu voz e vez às favelas do Brasil. O drama diário das comunidades que Cidinho e Doca, Bob Rum, Junior e Leonardo, Mc Galo e tantos outros Mc’s falaram no início da década de 90 é fruto da herança da escravidão no país e até hoje o Funk continua sendo o gênero musical que sofre mais preconceitos por abordar a realidade das favelas, seja sobre a criminalidade ou vida sexual.
FBC neste Baile convida a todos a vir pro baile e coloca no mapa seus aliados, seu bairro, a polícia, o X9, a rapaziada do movimento, o respeito às minas (deixando bem claro que sim é sim, não é não). Você deve estar se perguntando qual o motivo de um disco de funk em Minas Gerais em 2021? Aí é que você se engana pois o funk é a maior música popular brasileira e muito antes do boom do Hip Hop em São Paulo acontecer, o funk já tinha dominado todas as periferias. Haja visto que as coletâneas que lançaram os MC’s de funk na década de 90 se chamavam Rap Brasil e não Funk Brasil pois os bailes passavam naquele momento a ter seus mestres de cerimônia rimando em cima dos instrumentais gringos chamados Miami Bass.
A narrativa construída no decorrer do trabalho é recheada de beats pesados que podem ser a trilha sonora perfeita de um filme sobre qualquer favela do país. Uma história com personagens diversos e músicas dedicadas a cada um deles. Sem caô e sem massagem, Baile é uma nova página na história do Rap de sotaque mineiro. É possível imaginar o cenário dos programas antigos da Furacão 2000 na CNT ao ouvir cada track.
O que FBC está propondo com a estética sonora desse disco é valorizar a raiz do Miami Bass e provar que o funk continua forte com a voz do povo oprimido que sofre as duras opressões do estado mas que também tem direito a ser feliz e andar tranquilamente na favela onde nasceu.
Parafraseando Cidinho e Doca: Vai pra Minas? Leva luva!
-Se você é funkeiro quero ver mexer no Baile (2021) do FBC!
Por Raphael Garcez
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