Rubah e SecondLady: Amour como tragédia, erotismo e liberdade em alta voltagem.
Rubah, cantor e compositor mineiro, une-se a Alyse Sugahara, vocalista da banda punk japonesa Second Lady (aliás, temos uma entrevista com Alyse aqui no Oganpazan), para lançar o single e o clipe da música “Amour”.
Dessa fusão, que reúne influências musicais díspares, resulta uma sonoridade de atmosfera psicodélica, expressa com a energia crua típica do punk rock da banda japonesa.
A música teve um processo de gravação inteiramente analógico, contando com a produção de Jorge Guerrero, conhecido por ter trabalhado com bandas como Sepultura, Dead Fish, Matanza e com a cantora Pitty.
Com o peso das guitarras fuzz, melodias setentistas e os vocais incendiários alternados entre Rubah e Alyse, a canção conduz o ouvinte por camadas sonoras envolventes e intensas.
Os versos iniciais evocam a herança ancestral de ambos através de sua recitação em crioulo haitiano. Amour revela sua vocação cosmopolita em sua letra, na qual, por meio das línguas francesa e portuguesa, expressa as emoções do eu lírico.
Temos, assim, um mosaico culturalmente múltiplo, no qual o erotismo se manifesta em imagens intensas: murmúrios, suor, lava em plena erupção, rosas vermelhas tingidas de negro. Elementos usados como matéria-prima para gerar imagens e alegorias que dão contornos fortes ao sentido expresso pelas vozes de Rubah e Alyse.
Configura-se, então, um erotismo febril que, em vez de se diluir em sentimentalismo banal, afirma-se como experiência de risco e tragédia.
A dimensão trágica de Amour coloca a música na contramão da narrativa romântica pasteurizada da indústria cultural. Como lembraria o filósofo alemão Theodor Adorno, a arte que vale não é a que oferece uma conciliação fácil, por isso mesmo efêmera, mas a que coloca em destaque as contradições existentes sem, contudo, solucioná-las.
Dessa forma, podemos considerar que a música é exemplar, no sentido de que o amor surge como elemento pacificador, como uma chama responsável por libertar e consumir ao mesmo tempo, através de flertes com a selvageria do excesso.
A canção é perpassada pelo tema da liberdade, conforme podemos constatar nos versos: “Vida afora, noite adentro / Certo nem errado”. Entre o caos erótico e o jogo de forças que articula prazer e dor, surge também espaço para uma visão utópica e emancipadora.
O uso da máxima “Liberdade, ainda que tardia”, legado da Inconfidência Mineira, une paixão e gesto político, tornando o amor um território apropriado para a construção da resistência.
A parceria estabelecida com Alyse Sugahara oferece ainda mais potência à música. O ingrediente punk trazido pela vocalista da Second Lady marca a ousadia e a singularidade que se revelam em uma nova forma estética, na qual a fúria e a psicodelia dialogam com o punk e o hard rock ressignificados pelo cantor mineiro.
Não podemos deixar de mencionar que o lançamento do single Amour deu-se junto com sua versão em videoclipe. As partes em que Alyse aparece foram gravadas em Osaka.
Assim, há um cruzamento com as ambientações próprias das cidades brasileiras, reforçando o entrelaçamento de mundos e culturas díspares, iluminando corpos, ruas e gestos como matéria-prima de uma mesma energia vital.
Portanto, Amour vai além do que convencionalmente caracteriza um lançamento. Surge como uma fusão cultural e estética, uma força que não cumpre a função de conciliar as diferenças, mas sim de mantê-las, gerando uma tensão criativa.
Tensão essa expressa nas interseções entre o erotismo e a tragédia, o punk e o blues, o Japão e o Brasil, a liberdade e o excesso. Combinações raras para quem ainda acredita que o rock pode ser, ao mesmo tempo, arte, contestação e resistência.
Carlim
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