Roy Ayers é uma das maiores lendas do groove mundial. Depois de quase 10 anos longe dos estúdios, a majestade voltou com a classe de sempre.
A frase que serve de título para esse texto é fruto de uma adaptação que teve origem no primeiro disco de estúdio do Emicida, intitulado “O Glorioso Retorno de Quem Nunca Esteve Aqui“, lançado em 2013 via Laboratório Fantasma.
Roy Ayers – Jazz Is Dead
A frase resultantate da adapção do título do disco ecoou bastante na minha mente durante todo o momento em que fiquei pensando numa maneira de sintetizar a importância do retorno de Roy Ayers aos estúdios. Um dos nomes mais importantes para a histórica da música negra, acompanhar sua longeva carreira – que expande mais de 60 anos de história – é testemunhar a evolução estética do groove, conforme Roy foi agregando influências com o passar das décadas.
Jazz, Jazz-Funk, Afrobeat, R&B, Soul, Blues… Roy percorreu todos esses metiês artísticos e sempre trouxe o toque de midas que o transformou num dos artistas mais sampleados da cultura Hip-Hop. Dono de colaborações ao lado de nomes como Fela Kuti e Sonny Sharrock, sua música se especializou em borrar as fronteiras dos estilos, sempre com uma produção avassaladora.
No entanto, conforme Roy foi envelhecendo, a recorrência das gravações foi diminuindo, uma consequência natural, devido a idade avançada – vale lembrar que o vibrafonista nasceu em 1940 – que além das gravações, tornou suas apresentações mais esporádicas.
Até o dia 19 de junho de 2020, Roy se encontrava há mais de 9 anos sem registrar material inédito dentro de um estúdio, só que apesar de todo esse período menos ativo, ele sempre esteve aqui. Seu último esforço autoral até esse lançamento foi “King Of The Vibes“, lançado em 2011 e justamente em função de toda mística que envolve seu nome, foi uma grata surpresa (mundial, suponho), quando a Jazz Is Dead apresentou seu elenco de notáveis e já escolheu o disco do também produtor e arranjador para abrir a série de lançamentos do selo.
Pouca gente sabe disso, mas pouco antes das gravações que resultaram nesse disco da Jazz Is Dead, Roy trabalhou ao lado de nomes como Alicia Keys, Thundercat e Tyler, The Creator. Esses anos sem gravar deixaram uma lacuna em sua discografia, mas não significaram uma ausência completa e, mesmo aos 82 anos de idade, a vitalidade do norte americano é invejável, assim como a maioria de seus grooves.
Track List:
“Synchronize Vibration”
“Hey Lover”
“Soulful and Unique”
“Shadows Of The East”
“Sunflowers”
“Gravity”
“Solace”
“African Sounds”
Roy Ayers / Adrian Younge & Ali Shaheed Muhammad
Abrir a série com esse disco mostra logo de cara a seriedade que compõe todo o projeto da Jazz Is Dead. O disco já começa com com “Synchronize Vibration”, e seus ecos de “Searching” (do LP “Vibrations”, lançado com o Ubiquity em 1976) já deixam o ouvinte no clima para apreciar a finesse que é escutar o Roy Ayers fazendo música.
Uma de suas marcas registradas, sempre foi seu feeling para groovar lento. Tocar devagar é muito mais difícil do que se parece e a forma como ele criou dezenas de clássicos com grooves mais lentos – ancarados no dinamismo do desenvolvimento harmônico/melódico dos arranjos – até para não deixar a experiência estática ou monótona – é irresistível e é exatamete isso que acontece no single “Hey Lover”.
O timbre do sinth é puro sorvete de creme. As notas longas e os climas aparecem e é notável como os temas estão bem conectados, ajudando a entregar essa vibe de trilha sonora bastante presente nos trabalhos do instrumentista. O jeito como o final dessa track já mergulha na próxima (“Soulful and Unique”), perfeitamente encaixada no baixo é digno de entornar até os ouvintes mais experientes. A bateria dessa mesma faixa é muito interessante, Greg Paul toca como se estivesse fazendo a percussão com as mãos e não nos toques com suas baquetas e seu compacto kit.
Foram quase 10 anos sem ouvir o que o Roy tinha a dizer. Adrian e Ali cumpriram uma missão e tanto, ao conseguir modernizar o som do mestre, sem promover um descolamento com os projetos célebres da década de 70, mas também preocupados em trazer toda essa história com uma roupagem passível de identificação frente a novas gerações.
A forma como ele trabalha com os backing vocals para preencher os arranjos é sempre uma aula. Em passagens instrumentais como “Shadow Of The East”, é notório como a sobreposição de elementos agrega certa psicodelia para a aerodinâmica do groove. Nessa faixa também é destacável a performance do clarinetista e saxofonista Wendell Harrison.
Poucos artístas conseguiram fazer paisagens sonoras como as de Roy. É muito bonito observar seu diálogo com o metais do já citado Wendell – junto com o trombonista Phil Ranelin – em “Sunflowers”.
E assim o disco se desenrola, com elegância suprema e aquele feeling volátil que cria e altera os climas sem perder a identidade sonora, como se isso fosse a coisa mais fácil do mundo. Com alma inexorável de hit maker, é interessante como o peso do groove fica mais latente depois de “Sunflowers”. Em “Gravity”, o baixo engrossa a timbragem e a bateria vem quicando na semi colcheia.
O pulso muda, a pungência e o vigor entregam novos coloridos para o swing intrincado do vibrafone de Roy. Os vocais controlam a pressão do tema e o instrumental fez um esforço grande para não tocar esse tema com 100% de pressão. Mas é com “Solace” que o negócio descamba e Roy Ayers coordena um groove que muito moleque de 25 anos não sustenta no beat. A união do Wendell com o Phil nos metais é a reedição da parceria entre os músicos na época de ouro da Tribe Records, um dos selos mais importantes para o desenvolvimento da música negra na década de 70.
Como se tudo isso já não fosse suficiente, o grupo finaliza o tilintar dos vibrafones com “African Sounds”, um verdadeiro depoimento sobre o senso estético da Jazz Is Dead, mostrando o foco do núcleo criativo do selo em conectar a história da música negra, do passado para o futuro, da África para os Estados Unidos e o resto do mundo.
É uma meta e tanto, mas eles estão conseguindo.
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