Relvi & Traumatopia, MC e DJ virados na “Peste”, diversão garantida…
Destaque, Discos, Hip Hop Barril, Música, Resenha

Relvi & Traumatopia, MC e DJ virados na “Peste”, diversão garantida… 

Diretamente de Curitiba, a dupla Relvi & Traumatopia fizeram um disco onde as 13 músicas mostram a afinidade essencial!

Relvi

 

A parceria entre Relvi & Traumatopia tem nos entregado excelentes discos desde 2023, primeiro com “Cinza com Azul Mesclado” e depois no mesmo ano com “A Guerra Que os Heróis Não Sabem”, este último junto ao Galf AC. Dois discos que nós resenhamos na altura do lançamento, e quem acompanha meu trabalho sabe que o Traumatopia é um dos, senão o beatmaker que mais me impressiona atualmente, mas cordialmente devo discordar dele, “Peste” é sim, também um disco de festa.

Inclusive, estou tendo dificuldades para escrever enquanto escuto o disco, pois a produção musical – independente do bpm – faz o corpo responder. Por exemplo, começou a tocar agora “Miradouro”, como ficar parado ouvindo esse beat? Fica aí o questionamento. Nos parece que a questão é outra: quem hoje está a altura de uma festa do “Peste”? Quem hoje é capaz de se divertir seriamente? Afinal, é sempre bom lembrar: Diversão é coisa séria!

Nos últimos anos, principalmente após 2015, vendeu-se a ideia de que o rap tinha que falar merda, ou ser algo aguado para que seja melhor digerido e “curtido”. A música preta já passou por isso, quando o Bebop foi vendido como uma música “intelectual”, para pensar, e não para dançar, não para se divertir – como antes eram as orquestras de Swing. O que é uma visão eurocêntrica, que separa a mente do corpo. Onde o intelectual é o sério, o relevante, e a diversão é irracional e superficial, em uma dualidade que nos remete ao que de pior a Europa e o colonialismo nos relegou. 

Com “Peste”, a dupla Relvi & Traumatopia produziram um disco que alia muito bem essas duas perspectivas, e onde a música seduz corpo e mente, como ocorre em grandes obras. O disco lançado pelo selo – com projeto de dominação mundial – “Sujoground”, balança com a excelência da produção do Traumatopia ao longo das suas 13 músicas, com o Relvi recheando as batidas de flow e ideias e contando com as participações dos MC’s Cabes, Will Santos, Galf AC e Alienação Afrofuturista.

A faixa de abertura dos “Peste” traz o emblemático título de “Construção” e vai na contramão dos discursos ilusórios de uma metafísica neoliberal que pretende ofertar recompensas provenientes de um céu do capital, onde se chegará por mérito próprio. A faixa construída com um loop hipnótico de guitarra, made Traumatopia, elabora uma outra visão de mundo, onde o coletivo e as alianças, junto com muito trabalho: “Carrega a massa subindo a construção”.

E o concreto utilizado na faixa seguinte, e ao longo de todo o disco, é não o resgate de uma estética, mas a atualização da pertinência do boombap como espaço de pensamento e diversão. Muitas pessoas não prestam atenção à importância das palavras como ferramentas do pensamento, e não é incomum vermos a utilização de termos como evolução, a frente do tempo, avançado, e outras denominações “temporais” que pretendem dar conta da avaliação de trabalhos e artistas. 

Mesmo entre figuras destacadas do cenário brasileiro, é possível por exemplo ver críticas à utilização de “palavras difíceis”, como se fosse necessário e mesmo desejável o empobrecimento da linguagem para que a comunicação dentro do campo da arte, seja vitoriosa. Falo disso aqui, porque no campo da arte não existe evolução, há desenvolvimento técnico e criativo, da mesma sorte que não há artista à frente do tempo, o que existe muitas e muitas vezes é um público empobrecido cognitivamente e embotado afectivamente, por conta de nossa história de desigualdade social, econômica e política e pela massificação da indústria cultural. 

Relvi
Relvi & Traumatopia

Neste sentido, o retorno do boombap aos holofotes possui um outro significado para além da mera estratégia marketeira que tem alçado alguns MC’s medianos ao estrelato da indústria. O boombap possui em sua forma um espaço possível de criação que une, a tal diversão ao desfiar lírico que não precisa se encurtar para se encaixar, tendo possibilidades infinitas de modulação de flow e de criação lírica. Obviamente, as características espaço-temporais presentes em cada uma das formas musicais dos subgêneros do rap são singulares e passíveis de criações diversas. 

No entanto, nos parece que “Peste” – nosso objeto aqui – é um excelente exemplar de como formas consagradas encontram em sua repetição elementos diferenciais e singulares, únicos. Os timbres usados por Traumatopia e suas construções de batida, são a prova disso. Somos arrebatados pelos beats não por um exercício de semelhança com clássicos, senão obviamente, preferiríamos ouvir os “originais”, mas pelo diferencial que o artista capta e comunica hoje. 

Em “Cotidiano” esse exemplo é notório, Traumatopia vai além como em outros momentos do disco, e nos mostra não apenas a pertinência criativa das formas consagradas do boombap, como risca os toca-discos com maestria. Relvi por sua vez, constrói uma lírica que vai muito de encontro com a questão aqui abordada: 

“a Peste vai infectar não existe abrigo, o final é o início, reset não tem, mas recomeçar é de lei, passado só serve pra museu, eu sei que nada é pra sempre, ficando só o que plantei”     

Uma concepção que não nega a tradição, mas que se entende como parte de um círculo temporal que arremessa uma flecha para o futuro. O bate cabeça é a tônica de “Dois Elementos” onde Relvi afirma a importância de sua parceria dos beats do Traumatopia, que juntos colocam na fogueira toda a mediocridade. Esses dois elementos já tinham lançado excelentes trabalhos nos últimos anos, trazem de Curitiba, um dos pontos altos do rap feito no Brasil em 2025.      

Relvi E é isso né, o artista que é contemporâneo ao seu tempo é aquele que não fala a mesma língua de todo mundo, porque ancorado de modo profundo no tempo em que vive, consegue nos trazer a compreensão que muitas vezes a vida cotidiana nos nega. “Deixa que o tempo vai dizer o que tem que fazer, certas são ilusões melhor deixar de saber”, “Ordem do Dia” já começa com esse tiro no pensamento do homem médio. Hoje encarnado no pessoal que se entende informado, pelo whatsapp e ou por páginas de fofoca, por notícias que escondem suas causas. 

A faixa traz a participação do mestre curitibano Cabes MC, que já emenda uma sequência cabreira de versos onde o artista nos mostra o “caos” do cotidiano e o aprisionamento subjetivo e consequentemente político de possíveis visões de futuro. Ainda sobre a questão do tempo, os 3 minutos da faixa parecem se passar em 30 segundos, dada a força de sua duração, um dos grandes momentos do disco. 

Em “Envelhecer”, Traumatopia recicla o sample loopado na primeira faixa e acrescenta uma batida, que é assumida pela lírica do Relvi que segue fazendo seu próprio “tempo” dentro do Tempo em que vive, combatendo o racismo e o fascismo mais atual do que nunca. Colocando fogo no parquinho, “Inflamável” em mais um beat que nos coloca no mood de balançar o corpo e o pescocinho, e onde Relvi segue destilando um flow incandescente.    

Aliado à batida, Traumatopia mete um baixo estourado em “Rocky & Apollo” que traz o MC Wil Santos no feat com Relvi, DJ Trauma novamente esculachando nos scratchs, arranhando nossos cérebros. A faixa destila a luta simbolizada no título, como a busca dos “perdedores” dentro do sistema em que vivemos, onde os MC’s diagnosticam com excelência os obstáculos da classe trabalhadora.

Momento importante dentro do aspecto discursivo do disco, e que nos parece coadunar bastante com a visão espaço-temporal, mas também ética presente ao longo do “Peste”, a faixa “Cautela” chega no que podemos chamar de metade do disco. As linhas do Relvi, muito bem construídas em todas as faixas, aqui é um aviso sobre o game, sobre a política, mas sobretudo sobre o “Ethos” que o move. 

Se distanciando do falatório que muitas vezes compõem as personas de muitos dos atores da indústria do Rap, Relvi flutua bonito em “Altos e Baixos”, mas um beat exemplar do Traumatopia. E mesmo diante de um momento onde os acontecimentos da vida poderia indicar uma baixa tendencial, Relvi encontrou sua medicina nos versos, em suas criações, como espaço vital para seguir construindo sua história. 

Longe de serem poetas em torre de marfim, em Miradouro, Relvi & Galf AC, entregam aulas em cima do que considero o beat mais sensacional do disco, algo difícil em uma das melhores produções do ano. Os versos do Relvi reforçam a ideia de que em Peste, a questão da temporalidade é talvez o tema central, seja da própria percepção do tempo da vida humana e sobretudo da questão da finitude, seja do tempo transformado em mercadoria dentro do capitalismo. Onde utilizamos palavras completamente viciadas para falar de algo que nos constitui, que são as bases mentais através das quais percebemos o mundo. 

Relvi

“Deixa eu falar, que o tempo é rei, mas às vezes um pouco escasso, agora eu sei eu sei, faltam horas nessas 24, faltam verdades nesses fantasmas, e isso é fato” 

Para quem prestar atenção, perceberá uma contradição entre o tempo é rei e faltar horas nas 24 que compõem o dia. Contradição essa que pode ser entendida pelo completo descompasso entre o ritmo da vida e o regime capitalista de produção em que estamos inseridos. E que à guisa de resposta, encontra nos versos de Galf AC uma interessante visão, da necessidade de voltar-se para dentro de si, com um processo de introspecção que rompa com a velocidade alucinatória em que vivemos. Buscar reger o próprio tempo, como senhor de si mesmo e do seu próprio ritmo, melodia e harmonia, não é outro senão o papel da nossa busca por liberdade. 

Como escrevi recentemente, em uma resenha sobre o disco do grapiúna Dario Inerente, hoje no rap nacional é comum projetos grandiosos e com conceitos megalomaníacos não entregarem a mesma solidez marqueteira em termos estéticos. Ao que me parece, aqui estamos diante de outro exemplo de um disco que foi vendido pelos artistas e nem pela Sujoground como conceitual mas que ainda assim, possui uma forte coesão de ideias sonoras e de temas poéticos. 

E quem diz não sou eu, é o próprio Relvi, que comunica ao Traumatopia o desejo de tomar a música do clássico Subsolo como tema da faixa “À Deriva”: “Outro ano vem outro vai e eu nem vi passar”. Diante do caos social e político a música aborda essa forma de estar no mundo, à deriva, seguindo o fluxo dos acontecimentos. Relvi desfia versos diversos sobre temas que são éticos e geopolíticos com uma urgência muito forte mas sobretudo como um sinal de saúde artística. 

Com “Eclipse” penúltima música do “Peste”, Relvi traz uma semiótica do fim: “Vivendo o Pós Apocalipse no Apocalipse”, algo hoje muito comum de ouvir, e que não tem o mesmo aspecto milenarista que ocorreram nas viradas dos anos 1.000 e no ano 2.000, com o famigerado Bug do Milênio. Hoje, muitos assumiram um fatalismo covarde diante das crises todas que o Antropoceno e o Capitalismo tardio provocaram, provocam e provocarão cada vez mais e mais rápido nos próximos anos. 

O disco se encerra com a participação do Alienação Afrofuturista na faixa “Song from the Death”, e extrai da mesma fonte da faixa anterior – um mundo que caminha para vala a passos largos – as ideias líricas. Aqui, Blade, Constantine, são evocados como anti-heróis para combater os monstros, vampiros e congêneres que impulsionam e produzem um estado de morte constante. É só o ouvinte pensar na ascenção da extrema direita e no atual genocídio televisionado do povo palestino por Israel que nenhuma imagem ou metáfora parecerá sobrenatural.      

Ao fim da audição, diante de todo o quadro apresentado em Peste, não é fácil pensar em diversão, quando entendemos essa palavra como escapismo. O mero entretenimento, diante de um mundo caótico, que o indivíduo desesperado busca para algumas horas de entorpecimento. No entanto, a realidade volta e muitas vezes em um rebote mais forte, pois grande parte do que é colocado na caixa de entretenimento inofensivo é mais uma tecnologia da indústria cultural supremacista branca, para o melhor apodrecimento e subjugação subjetiva da massa incauta.  

Dito isso, na festa que eu imagino e sonho, mas que pratico aqui em minha humilde residência, “Peste” é um disco festivo. É o estímulo que me alegra e me faz querer escrever sobre. Obrigado aos envolvidos!   

-Relvi & Traumatopia, MC e DJ virados na “Peste”

Por Danilo Cruz 

Matérias Relacionadas

Deixe um comentário

Campos obrigatórios *

/* Codigo ADS Oganpazan */