Dando prosseguimento a sua carreira solo, após o sucesso do primeiro EP, Ravi Lobo eleva o nível e faz história no Rap Baiano!

Existem muitas camadas que formam um artista, e o disco Shakespeare do Gueto II do MC baiano Ravi Lobo, apresenta-nos elementos estéticos e uma lírica construídos ao longo de 15 anos dentro da rica e plural cultura Hip-Hop baiana. Um período de tempo onde Ravi encontrou rumo, se inseriu como construtor e elemento de transformação para tantas outras pessoas que admiram o seu trabalho, desde o seu começo no grupo Rap Nova Era.
A consolidação do seu trabalho solo com seu primeiro “disco cheio”, após o enorme sucesso do seu primeiro EP Shakespeare do Gueto (2022), não poderia ser apresentado de forma melhor. O artista oriundo da Linha 8 no Bairro da Liberdade, construiu uma obra onde ele dialoga com sua história pessoal e profissional, trazendo grandes nomes nas participações e reforçando um ideal de luta por justiça e igualdade para o povo preto e periférico.
Sem apelar para um marketing de “disco conceitual” e ou outros artifícios da publicidade que estranhamente se imiscuem no rap atualmente, Shakespeare do Gueto II é um dos discos mais importantes da história recente da cultura Hip-Hop baiana. A surpresa de vê-lo rimando no drill há três anos atrás, nos mostrou que Ravi Lobo é um MC completo, e que esta guinada só reforçou e expandiu o seu universo artístico.
Sucesso de público e crítica, o EP que foi seu primeiro movimento solo, encontra em sua continuação com este primeiro álbum, a amplitude musical e lírica e uma força de conquista muito grande. Representada por diversas questões que vão se desenvolvendo ao longo do trabalho, possuindo na a identidade visual a primeira delas.
Com a arte feita por Raphael Brito que re-trabalhou a fotografia de Lane Silva, desta vez Ravi traz a sua família para o plano central, o pequeno Don e a sua filha e já companheira artística Lis, estão em primeiro plano. Ao fundo e seguindo a mesma arte do EP, outros signos estão presentes, os porta-retratos trazem fotos de sua mãe e de sua esposa, seu DJ Kbça está lhe ligando, enquanto cartuchos de fuzil não queimados estão caindo. Além, de imagens religiosas do São Jorge Guerreiro e de Nossa Senhora.
Na contracapa, os prêmios conquistados pelos audiovisuais do EP, e uma homenagem ao seu pai que nos deixou precocemente, emoldurado com os netos juntos. Uma semiótica que nos leva para diversas direções possíveis, desde a óbvia homenagem a sua família como alicerce de sua vida e carreira artística, até a personificação do “Lobo” que – desde o primeiro EP – saiu pra buscar e trouxe prêmios para a sua matilha, honrando “o velho Lobo”.
Composto por 13 faixas, Shakespeare do Gueto II é um disco predominantemente de drill, porém Ravi também rima em cima de beats de Trap, boombap e apresenta variações e muitas influências da música baiana em sentido amplo. O disco também apresenta duas “vinhetas” seguindo uma lógica interna onde passado, presente e futuro se unem. Apresentando por fim, em seu primeiro disco solo, o reconhecimento que o artista possui também dos seus pares na arte.
O disco Shakespeare do Gueto II tem a direção musical assinada pelo próprio Ravi Lobo e as produções ficaram a cargo dos beatmakers JLZ, EduBeatz, Noturno84, Heddy Beats. Raonir Braz assina a maior parte dos beats e a mix do trabalho, enquanto Braulio Passos é o responsável pela master. Com esta diversidade de beatmakers, Ravi Lobo abre mão também de uma estética engessada, e ainda assim consegue uma coesão estética muito forte.
Em sua atuação, Ravi Lobo entendeu a importância de se aproximar das crianças em sua quebrada e por anos junto ao seu grupo Rap Nova Era, promoveu um dia das crianças com diversas atividades que envolviam a cultura Hip-Hop. Esse ativismo foi transformado em algo intrínseco a sua arte, e já no seu EP solo com a participação de Lis – sua filha – e nos shows do mesmo, com a participação de Sam Lobo.
O single escolhido para abrir os trabalhos de seu álbum foi o da faixa “Carcará”, sobre o qual produzimos uma análise mais pormenorizada, na altura do seu lançamento, no final de 2024. A faixa traz diversos signos que reafirmam sua identidade nordestina e baiana, desde o título em referência ao clássico homônimo, composição de João do Vale em parceria com José Cândido, cantado por Maria Bethânia nos anos 60, até uma citação nas rimas à Edson Gomes: “mais um guerreiro do terceiro mundo”.

A dobra praticada por Ravi Lobo na estética do drill, como comumente esta aparece no rap nacional, nos mostra como um verdadeiro artista procede por um método onde os temas abordados ganham singularidade. Em “Carcará”, o MC produz uma aproximação muito pertinente entre a poesia do maranhense João do Vale sobre as agruras e o sofrimento do povo nordestino e a situação atual, de imensa violência e caos na Bahia e em vários outros estados do Nordeste.
As importantes participações começam a aparecer na segunda música do disco, “Cultive”, que traz feat com o ativista e MC Galo de Luta. Ao longo de todo o trabalho, Ravi Lobo vai acrescentando camadas a sua lírica ao abordar problemas sociais, étnicos, raciais e políticos, e na faixa aqui em questão, o refrão clama não por um busca mas, por uma atitude ativa de como se diz aqui em Salvador: “se plante”.
“Cultive sua raiz pra que sua árvore não caia, seja você mesmo, mesmo que eles te traia, erga sua cabeça, visão, coração e alma”.
Junto ao Galo de Luta, os dois MC’s rimam variações em forma de crônica sob o tema principal de manter uma postura ativa de enfrentamento ao estado e suas opressões. Enquanto Ravi rememora o seu passado na vida do crime, e o entendimento da arapuca armada, Galo narra suas ações diretas e as consequências. Na sequência, “Não Boia” traz o produtor Raonir Braz rimando e fazendo o refrão, em uma faixa onde Ravi rimando na contramão dos rappers que adoram enfrentar inimigos imaginários, fala sobre não ter inimigos: “Nem meu amigo, nem meu inimigo, não fede nem cheira”.
Para o ouvinte mais atento, as faixas vão se complementando e expandindo o universo de uma sinfonia das ruas, porém conduzida pelas mãos de um verdadeiro maestro formado nelas. Com uma formação crítica, longe de ser um mero repetidor das formas como a ignorância e a violência introjetada pelo nosso povo. Ravi vai aos poucos mostrando, ora as “leis da rua” tal qual elas se apresentam, sem fazer uma mera apologia do que está dado.
A escolha dos feats no rap diz muito das intenções de um trabalho, e em “Fatos Reais”, Ravi seleciona nomes pouco conhecidos nacionalmente, porém que possuem muito valor como fica explícito na faixa. Houdini (ex-Contenção 33) um dos melhores MC’s de sua geração, Dani DK, MC sergipana que além de rimar com muita consistência também canta muito bem e Shook na Vozz (ex-Lápide Rec) que atualmente aposta em um carreira de sonoridades mais pop, mas que é também um rimador muito bom. A faixa, que é um boombap, reúne essa alcateia, onde cada um dos seus membros mostram suas qualidades para o ouvinte.
Todo artista constroi uma persona pública, com variações entre o reflexo do seu eu privado, as suas vivências reais e a comunicação destas em forma de arte. Neste ciclo de carreira solo, Ravi Lobo tem unido o Lobo como animal totêmico e metafórico e o transformado em agente de sua visão de luta política e racial dentro da coletividade e da cultura Hip-Hop. A faixa “Cantando pra Lua” é um exemplo disto.
O “uivo” desse Lobo em questão é sobretudo uma busca por levar uma visão crítica para sua comunidade e consequentemente para o povo preto e periférico. Salvador hoje é um imenso inferno a céu aberto, onde a população vive entre a guerra de facções e o avanço sistemático do genocídio do povo negro, em uma das piores capitais do país em qualidade de vida. Ao longo do seu álbum solo, Ravi Lobo alia a crítica às mensagens de incentivo para a luta cotidiana do seu povo: “A cada renascer do sol já é uma chance”. Mas também a busca por resgatar através da palavra:
“A saudade mata cuide-se, multiplique-se, ergam-se, movimente-se”

Em “Cantando pra Lua” Ravi Lobo, como um Shakespeare do Gueto relata essa guerra racial de alta intensidade que assola nossas favelas, mas traz também uma visão de luta e esperança, citando o clássico do rock Hey Joe, canção imortalizada na voz de Jimmy Hendrix e emenda com uma outra citação do Rappa: “também morre quem atira”, chamando atenção para uma guerra onde o povo negro é levado a se auto-exterminar.
Em um cenário do rap em particular e na música nacional em geral, onde a frágil bandeira da representatividade é no mais das vezes utilizada para “conceituar” a inépcia criativa e a incapacidade de gestos estéticos autênticos, a música “Fascínio” é uma aula de prática política ativa, e de arte em alto nível. Além de contribuir para uma dimensão dentro do escopo do trabalho, onde o MC traz o amor como vetor de um “homem” que não é unidimensional, a participação de Majur engrandece artisticamente o trabalho.
Uma das grandes cantoras da contemporaneidade baiana e cria do bairro do Uruguai, a química entre os dois artistas é explícita. Se tem um troço chato no rap são as lovesongs mela cueca de coisas tipo rap acústico, e quando não, sex songs que relatam mais uma infantilidade ao tentar tratar o tema. Em “Fascínio”, Ravi Lobo e Majur conseguem fazer uma música onde a cumplicidade é evidente ao ouvinte atento. Como fica claro, ao longo de todo o disco em seu trabalho, o MC baiano não confunde sucesso com fama e para quem conhece mais a fundo a sua história de vida e carreira profissional sabe que, os últimos 15 anos não foram de brincadeira.
A presença de Edi Rock (Racionais MC’s) na música “Fogo e Disciplina” é resultado de uma reputação construída durante uma década e meia, e a música é a poesia sobre isso.
“Sempre ouvir dizer que quem procura acha, na janela das alturas eu vejo o sol nascer, não posso te dizer que sei que tudo passa, acredite no seu corre faça acontecer”.
Depois de abrir shows do Racionais MC’s em sua cidade, tanto com o Rap Nova Era como solo, depois de alguns anos tocando sempre no Capão Redondo, Ravi traz um dos nomes mais importantes da história do rap nacional, para um trabalho seu. Longe de qualquer afetação, sem estar no game com investidor, sem ter que forjar uma coisa que não é, isso é sucesso e sobretudo um marco histórico.
Novamente, com a forte influência de Edson Gomes, desta vez em um sample mas também citado em verso, “Na Noite da Sombra” é a minha faixa preferida do disco, o que não quer dizer muito, mas ela própria fala por si. Tive a oportunidade de ouvir as guias do disco enquanto o mesmo era produzido, e ao ouvir os versos sobre feminicídio e a reprovação: “É Feio”, a confirmação da força poética que Ravi Lobo carrega se fez presente de modo indubitável.
É muito comum, hoje mais do que nunca, que se confunda o enfileiramento de referências (muitas vezes eurocêntricas) e a utilização de algumas palavras de ordem retiradas da tradição negra e do candomblé, como o ápice poético, principalmente no mainstream do rap nacional, como grande poesia. Naquilo a que se propõe, Ravi Lobo consegue uma forma muito incisiva de construir versos que cortam a carne como uma espada samurai, utilizando imagens poéticas que na primeira audição se fixam na mente do ouvinte:
“Sangue, suor e segredo, andando junto. criança crescendo sem medo, sobrevivendo no meio dos defunto, uma pedra de craque um isqueiro na mão, flash no escuro, olhar distante, devastação, guerra de facção, madruga com medo das balas traçantes”.
Certamente, Salvador possui outras nuances, mas os versos acima, ditam o ritmo do que a maioria da população vive hoje. E se a arte é livre para abordar quaisquer que sejam os assuntos, o Hip-Hop sempre possuiu a capacidade de ir no cerne dos problemas que a negritude enfrenta, e Ravi sabe disto. Shakespeare do Gueto II é composto desde este ambiente, para daí erigir outras visões e possibilidades que colocam as camadas estéticas às quais me referi no início do texto, dimensões de possibilidade construtiva e de crítica.
A bela voz da Lis, no Interlúdio “Amor Maior” nos remete imediatamente para a coesão estética que vai sendo construída, junto ao balbuciar de Don. Infância e Velhice, presente e passado, “Herança de Quilombo” traz Lazzo Matumbi repetindo os versos do interlúdio da Lis, em um momento de delicadeza pouco vista. Uma das vozes mais importantes da história da música brasileira, um verdadeiro ancestral vivo, Lis, Lazzo e Don, nos mostra passado, presente e futuro em prática, porém não em linha reta, mas em circularidade como nos ensina uma visão de mundo afrodiaspórica.
Assim como sua carreira solo, Love Crime, Pt.2 é uma continuidade da primeira parte, lançada no último disco do Rap Nova Era, do seu casamento e dos frutos que estão brotando e traz a bonita voz da cantora Ana Mazur. Última música do disco “A Luz que Não se Apaga”, relembra toda a caminhada destes últimos 15 anos de rap e cultura Hip-Hop de Ravi Lobo, e da amizade que lhe resgatou de trás das grades, para que ele pudesse trilhar este caminho.
Os encontros, as construções que se iniciaram nos barracos de pau e no microfone de karaokê e que aos poucos foi ganhando uma luz intensa, sempre visando a luta pela coletividade, encontram em Shakespeare do Gueto II a obra mais bem acaba e impactante da sua carreira. Ravi Lobo, marca história para todos da comunidade do Hip-Hop baiano, não como uma mera exceção, mas como um dos que fazem parte de uma enorme matilha sem líderes, onde todos deveriam guerrear pela construção comum, a sua parte ele tem feito.
-Ravi Lobo em Shakespeare do Gueto II, um momento histórico para o RAP BA!
Por Danilo Cruz
Danilo
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