Rap Delivery em seu primeiro disco faz uma “entrega” crítica mais do que necessária ao rap nacional com Rimas pra Viagem (2022)
“Não querem que a gente invista, não querem que a gente insista, só querem que a gente assista, até perder de vista!” Estranho, Sérgio
Enquanto um dos elementos da cultura hip-hop, o rap tem o papel de educar os nossos ouvidos para a música e a poesia, e obviamente junto a este pacote, nos entregar ideias novas, originais, críticas, singulares. É estranho – desculpa Sergio – que precisemos hoje de ressaltar aquilo que deveria ser o mais óbvio. Porém, o mercado confunde e muito aquilo que pretensamente foi pedido, e cada vez mais a música rap caminha no mesmo sentido do fast-food.
Com a força do capital dominando os algoritmos e selecionando o regime de visibilidade do que é produzido dentro do mercado do rap nacional, os gostos tendem cada vez mais ao requerimento de mais do mesmo. Procedimento comum e constante dentro da Indústria Cultural, que com a era da internet apenas se aperfeiçoa. E dentro deste bojo de produção, deste mercado cultural do rap, há uma divisão do trabalho: corporações, gerentes de empresas e meros entregadores.
É neste último patamar da divisão social do trabalho no rap que o Rap Delivery se coloca desde sua estreia com singles e com o EP A Caminho, que foi lançado este ano. Formado pelo quarteto fantástico: Sergio Estranho, domrafa, 1cort3 e 82, o grupo lançou seu primeiro trabalho cheio: “Rimas pra Viagem”, pelo selo Rancho Mont Gomer. E com este trabalho produzem uma crítica mordaz e bem humorada a todo o “status quo” no qual não podem deixar de estar, mas do qual não cessam de rir.
Entregas e Viagens no Rap Delivery, o que eles ofertam?
Vivemos dentro de um sistema político historicamente conhecido como democracia burguesa e produzimos mercadorias dentro de um regime capitalista, em um país de herança colonial. A cultura hip-hop obviamente se assenta dentro deste regime político, social e econômico historicamente produzidos através do colonialismo, sem no entanto, ao longo de sua história bater de frente com as desigualdades presentes em nosso país.
Em um momento histórico onde o fascismo, a ignorância e o duplipensar tomam conta de grande parcela da nossa sociedade, ouvir o Rap Delivery é um processo de limpeza de nossas subjetividades, feita através do riso. Subestimamos muito a potência do humor, não sabemos rir do severo, nem de nós mesmos e “Rimas pra Viagem” nos leva muito nesta direção.
Mas do que uma metáfora, Rap Delivery e toda a poética que os caras desenvolvem ao longo das 13 faixas é na verdade um caminho, uma postura, um auto reconhecimento e uma construção daquilo que se é. Em tempos de uberização do trabalho, em uma sociedade de controle que produz os mais cruéis mecanismos de exploração no capitalismo, Sergio Estranho e 1cort3 produzem uma lírica que nos faz rir do absurdo que vivemos e que muitas vezes ratificamos, mesmo quando fingimos combater.
Quem possui meios de produção, capital e explora o trabalho dos outros é parte da Burguesia, por definição. Dentro de um sistema capitalista é assim que funciona o game, que vende a sua força de trabalho é trabalhador, proletariado. Artistas não estão por qualquer motivo de ordem moral ou por opinião política fora desta ordem econômica e social. Os caras não fazem apologia da precariedade, mas também não fingem odiar onde estão, muito menos produzem apelos ao capital.
O que nos é entregue aqui com esmero e muita força, é um trabalho de rap onde as ideias críticas, os flows e rimas, as batidas e sonoridades, são educativas enquanto nos divertem. Sem serem didáticos e muito menos assumir um tom professoral e quadrado, o Rap Delivery nos faz embarcar em uma viagem poético musical através do mundo que eles duplicam como sátira.
Neste percurso entendemos melhor as críticas do filósofo alemão Theodor Adorno a indústria cultural, através do exemplo atual de uma figura como o Galo de Luta, sem citar nem um e nem o outro. Uma atualização necessária e rica em substância, pois não é uma crítica à mercantilização da música propriamente, mas antes o tornar claro o sistema de produção que marginaliza uma imensa maioria para que alguns poucos cheguem ao topo.
Com participações de Matheus Coringa, Eloy Polêmico, DJ Batatakilla, JAYRO, RED MSG MGN, Erickillaz, El Mandarim, obelga, affneguin, Rimas pra Viagem (2022) brinca muito e deliciosamente com a ideologia da meritocracia que quer se revestir de argumento capaz de blindar quaisquer críticas. Sim, vivência e militância são outros tantos produtos vendidos no mercado cultural, pois hoje gera engajamento.
Aqui no Rap Delivery esse coletivo de jovens empreendedores com exceção do mano 82, tanto Sergio Estranho, quanto 1cort3 e o domrafa, produzem beats, todos lokos diga-se de passagem. O que traz uma estética sonora calendoscópica para o disco, quebrando também a dureza dos nichos, a empresa entrega diversos produtos, escolha ou consuma tudo.
Colorindo o trabalho com riscos do DJ Batatakilla, passeando com tranquilidade por diversas sonoridades como o boombap, o trap, música eletrônica, pitadas de R&B e além, o disco é um legítimo representante do rap underground nacional neste ano de 2022. Rap underground nacional que tem guardado há muito os trabalhos que realmente estão fora da curva, explorado constantemente pelo mainstream que o copia, lhe suga e lucra em cima.
De certo modo, este Rimas pra Viagem é um excelente exemplo do que podemos experimentar de rap fora da curva em nosso país. Fora da curva pseudo estética, selecionada pro hype por críticos que são sommerliers de rima, a famosa branquitude descolada. Fora da curva auditiva dos consumidores do rap que amam a seriedade militante de clichês e palavras de ordem prontas para serem repetidas à exaustão que produz o vazio, já dado na confecção do hit.
Degustem essa refeição completa e quem tiver estômago que consiga digerir!
-Rap Delivery lança sua estreia em disco com “Rimas pra Viagem”
Por Danilo Cruz
Danilo
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