Quaisqualigundum de Roger Cruz e Davi Calil traduz a música de Adoniran Barbosa em traços, cores e palavras. O resultado emociona tanto quanto os versos e melodias do sambista paulista.
Hoje, 6 de agosto, fazem 105 anos que nasceu João Rubinato, imortalizado entre os grandes nomes da música brasileira como Adoniran Barbosa. Nome de um dos muitos personagens criados pelo compositor quando começara sua carreira nas rádios da capital paulista, acabou por substituir seu nome de batismmo. Cronista atento do cotidiano do povão da metrópole da garoa, ganhou destaque no cenário musical brasileiro compondo sambas cujos versos traziam consigo o som das conversas desse mesmo povão. O modo “errado” como falam as pessoas comuns, oprimidas simbolicamente por não seguirem as regras estabelecidas pela gramática de nossa língua, e que fazem parte da música de Adoniran ainda rendem através de críticas pasqualescas observações maldosas sobre suas letras. Porém quem conhece suas músicas sabe que a fala coloquial é matéria prima de suas letras. Tais críticos não compreendem a força que a língua viva pode ter. Isso porque forjada nas mais diversas interações entre as pessoas inseridas no cotidiano do homem urbano comum. Portanto, jamais compreenderão a força da música de Adoniran Barbosa. Não é o caso dos quadrinistas Roger Cruz e Davi Calis que tornam ainda mais viva a música de Adoniran através das cores e traços de Quaisqualigundum.
A hq é composta por 4 histórias. Roger e Davi merecem palmas pelo cuidado de fazerem os diálogos dos personagens dessas histórias terem o mesmo som das letras cantadas por Adoniran. A grafia dos diálogos faz com que o leitor ouça as palavras como são ditas pelas pessoas retratadas nos sambas, por isso a grafia é feita de modo a permitir este acesso fonético aos diálogos. Por isso tantas palavras escritas “erradas” e tantos problemas de concordância. A arte privilegia as cores quentes realçando a percepção dos quadros. Pela visão de um leigo como eu diria se tratar de pintura em guache em alguns momentos e aquarela em outros. Esse peso da oralidade transcrito nos balões de fala dão às histórias uma dimensão mais palpável, inserindo o leitor diretamente nesse universo urbano conturbado da periferia paulistana. O traço dos desenhos seduz por privilegiar uma abordagem expressionista que casa bem com a coloração utilizada. Destaco o quadro formado na parte interna da capa com a orelha e a primeira página. Retratam uma paisagem noturna de São Paulo carregada nas tonalidade de cinza caracterizando a atmosfera industrial da cidade. Essa arte em particular me remeteu àquelas telas noturnas do Van Gogh.
A hq é composta por 4 histórias cujo roteiro se inspira em 4 músicas consagradas do sambista. Maloca é a primeira história que retrata a letra de Saudosa Maloca. As dificuldades de quem vive na rua são expostas nessa história bem como as tragédias pessoais dos amigos “Eu, Mato Grosso e Joca”. Apenas uma observação: na letra da música um dos personagens se chama Joca, mas na hq temos Doca. Esse personagem tem sua história contada em 3a pessoa que vale ressaltar, usa a narrativa apresentada tanto nos balões de dialógo quanto na letra da música. A trágica história de Joca/Doca esta sintetizada no quadro duplo composto pelas páginas 12 e 13. O fato que desencadeou toda trama de eventos que levou à atual condição de Joca/Doca é mostrada em toda sua dramaticidade e tristeza pelos artistas. O primeiro encontro de “Eu” com Mato Gosso e a vida compartilhada na rua e posteriormente na Maloca vem a seguir. Existe esse desdobramento na história que vai do encontro dos três amigos, suas mazelas nas ruas, a superação ao compartilharem uma vida debaixo de um teto e o ruir desse sonho pelo desenvolvimento urbano. Confesso que terminei essa história com lágrimas nos olhos, principalmente pelo final, que é fantástico. A ideia de Roger e Davi para finalizar sua Maloca me pegou de surpresa e me fez parar por um momento.
Depois de toda dor misturada com momentos de tristeza e alegria de Maloca vem a 2a história: A Saga de Ernesto, inpirada claro em Samba do Arnesto. Nessa história ficamos sabendo o que aconteceu pro Ernesto furar com a galera e não comparecer no samba programado. A história é divertidíssima! Narra as confusões que o “jeitinho brasileiro” do Ernesto o colocam. O Ernesto não deixa apenas a galera que convidou pra festa puta da vida. O jeito malandro do sujeito além de lhe trazer uma série de complicações afeta diretamente a vida das pessoas que convivem com ele. E claro, correm atras do prejuízo. Há duas coisas que valem a pena serem destacadas em A Saga do Ernesto. A primeira delas é o experimentalismo gráfico feito na página 41, que desenvolve uma sequencia de planos a partir da transposição do Ernesto de um quadro para outro. A segunda se refere a um acontecimento que explica uma situação ocorrida em Maloca. Os autores nos fazem uma surpresa e tanto nessa passagem!
Nossa, pensei que nenhuma das história seria mais triste que Maloca! Estava enganado, Mané e Marinez a superou em muito nesse quesito. Inclusive achei a história contada por Roger e Davi ainda mais triste que aquela contada por Adoniran em Apaga o fogo Mané. Acredito que isso se deva aos detalhes apresentados pela hq. Já sabemos se tratar de uma história triste pela mudança de cores. Nessa as cores são frias o que assossiada ao clima chuvoso no qual a história se desenvolve um ar ainda mais carregado de pesar. Numa coisa a música e a hq concordam, sobre o modo como a figura do mané é retratada no ideário popular. Isso Roger e Davi fazem com apuro! O Mané nos é apresentado como um sujeito de bom coração, prestativo, solidário, pacato, sinônimos de alguém de bom caráter. Contudo também se refere à figura do parvo, daquele facilmente passado pra traz devido a inocência que tais características lhe imprimem. Essa contradição é trazida à tona, o sujeito que encarna toda caracterização do bom homem é ao mesmo tempo aquele visto como o mané em contraposição ao malandro. Na música isso fica mais acentuado no título da letra que para quem conhece a música soa como um engodo: Apaga o fogo Mané, enquanto eu racho fora! Mais uma vez os caras dão um soco no estomago no final da história. Por enquanto são 3 em 3, vejamos se a proporção é mantida até o final.
A hq termina com Cipolla e Bracholas que narra uma confusão ocorrida em Um Samba no Bixiga. Das quatro histórias essa é que tem o roteiro mais “fiel” à letra da música. Há algumas surpresas, contudo, diferentemente das demais histórias, não dá pra comentá-la sem largar spoilers.
O texto de apresentação na orelha do álbum é de autoria de Emicida, que mostra sua profunda admiração pela música de Adoniran Barbosa e todo sentimento que ela faz brotar, principalmente pra quem é paulistano. O prefácio ficou por conta do jornalista e editor Sidney Gusman. Quaisqualigundum, é importante frisar, recebeu apoio da do Programa de Ação Cultural de São Paulo (ProacSP).
Após a ficha técnica assistam ao vídeo do Kitinet HQ com análise de Liber Paz e Rrodrigo Scama de Quaisquarigundun.
Ficha técnica:
Quaisqualigundum
Editora: Dead Hamster – Edição especial
Autores: Roger Cruz (roteiro) e Davi Calil (arte).
Preço: R$ 45,00
Número de páginas: 96
Data de lançamento: Julho de 2014
Nota: 




Carlim
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