Passer é um trapper que você precisa conhecer: TSDMQ (2020), MC de valor original de Taubaté lança mais uma pedrada na sua obra!
O trapper paulista Passer me colocou dois problemas com seu novo trabalho, Trilha Sonora da Minha Quarentena (2020), num primeiro nível era conhecer sua caminhada, e em um segundo entender porque não tinha ouvido ele antes. Um problema decorrente do outro. e certamente algo que me levou a pesquisar e pensar, como não sou um especialista do cenário trap nacional como sempre gosto de frisar por aqui. A audição rápida do Passer e desse trabalho novo mostra ao ouvinte um trapper conhecedor do seu ofício, utilizando com propriedade as técnicas que definem esse estilo.
Dono de uma discografia extensa, Passer vem construindo uma obra interessante de se descobrir, e perceber como esta imprime uma diferença gritante daquilo que faz sucesso no trap br. Se comparado com o cenário “mainstream” do trap nacional, suas linhas possuem um conteúdo bastante político e que não se utiliza da estética do trap para produzir músicas que apenas reificam machismo, drogas e uma ostentação vazia. Não se trata de moralismo algum nesse caso, não somos da tchurminha proibicionista, porém entendemos que é um assunto delicado e que coloca vidas em jogo, muitas vezes de adolescentes. Da mesma forma, não fazemos profissão de fé sobre a pobreza, no entanto, entendemos que meramente ostentar em um país tão desigual, é um caminho no mínimo fútil.
É fácil perceber que o trabalho musical do Passer vai em outra direção, desde o seu início discográfico com A&B (2016) onde soltou um disco com 30 feixas – isso mesmo – e ainda flertava com beats boombap, o artista já ia numa direção própria. O disco é longo e um pouco inconsistente em alguns momentos, mas ainda assim é uma estréia que poderia ter colocado atenção em seu trampo. Seguem-se o lançamento de dois EPS, Black Vegeta (2018) e Vida – Viagens Inconstantes da Arte (2019) esses trampos sim, bastante coesos conceitual e esteticamente.
Os dois EPs são pesados em suas linhas e apresentam um trapper muito consciente – palavra em desuso – ou seja, bem posicionado e dominando as técnicas mas também recheando suas linhas com boas ideias e muita agressividade. Passear pelo perfil desse mano no Spotify é uma experiência interessante de pesquisa e de percepção de como o jogo é sempre de cartas marcadas. Além disso, é interessante também notar como um MC precisa aprender a comunicar sua arte, fazer bons discos, nunca garantiu visibilidade, e é preciso se apropriar também das ferramentas de divulgação.
Em Black Vegeta (2018) o MC faz um EP bem coerente com a estética que se propoem utilizando-se de referências de plug e de animes como o título já denota. As faixas “Loupan”, “Um Tiro Só” e “Glacial” são os destaques para nós. Em Vida – Viagens Inconstantes da Vida (2019) que chegou as plataformas no ano passado, o pique é mais existencial e em colaboração com o beatmaker Original Marinho. Aqui o MC abre já com uma faixa mais intimista e melódica, partindo para autocríticas e reflexões sobre si mesmo. “A Breve História de Rakin” é daquelas faixas que surpreendem, um storytelling num trap contando e se posicionando racialmente de modo muito firme e crítico. O clima sombrio presente nas produções do Marinho preparam e criam o ambiente musical perfeito para temas como os acima citados, mas também perspectivas gangsters.
Nos impressionou bastante a audição da música “Tudo Bem para Sempre”, onde o MC assume o eu lírico de uma mulher que sofre violência doméstica. Aqui, Passer cria mais um excelente storytelling dentro de uma estética que convenhamos não possui no respeito às mulheres sua maior virtude. Vale muito a pena!
Há uma expansão de temáticas, um aperfeiçoamento técnico e com toda certeza um aprendizado sobre temas políticos que nos levam ao longo das produções citadas até a mixtape lançada esse ano: Trilha Sonora da Minha Quarentena (2020). O trapper de Taubaté no interior de São Paulo tem seu trabalho mais bem acabado com essa mixtape, onde se insere no contexto em que vivemos sob diversas perspectivas. Desde a capa, passando pelas faixas e beats, o mano faz uma mixtape combativa, dançante, bem humorada e real vivência de rua.
Contando com beats do próprio Passer, e dos manos Young Cobein e Yuri.GDS, a mixtape conta com 8 faixas e traz um viés bem agressivo, tratando de apropriação cultural, fascismo apoiado por rappers como Shawlin, racismo, palmitagem, auto valorização negra, união. A mixtape é um esculacho sobre diversos sentidos e nos mostra que existem diversos artistas importantes pelo Brasil inteiro. Passer não perde nenhuma linha, traz um flow maneiro e próprio e emula a estética do Trap levando ela em outras direções. Para muito além do pastiche.
Conheçam a obra desse mano
-Passer é um trapper que você precisa conhecer: TSDMQ (2020)
Por Danilo Cruz
Danilo
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