Os Virgulóides – Virgulóides? (1997) Mais de 20 anos depois numa análise certeira e contextualizada, seria possível esse disco hoje? Vamo lá
Por Alexandre Reis
São interessantes as coisas que achamos na nossa história, arrumando a bagunça da vida de um acumulador em estágio inicial. O álbum dos Virgulóides, o disco de estréia de 1997, aquele que nos marcou com hits da esculhambação, escracho, no final dos anos 90 como “Bagulho do Bumba” e “Zoião de Sapo Boi” foi uma dessas coisas empoeiradas que achei. Lembrei, sem escutar, das músicas acima, bem como de “House da Madame” e “Nego Velho (O Mano Véio)“, com alegria em retrospectiva dos meus tempos jovens e de como eram vistas e vividas certas coisas.
Fiz então uma pergunta ao vazio: “Se esse álbum não tivesse existido, e fosse lançado hoje, como ele seria recebido?”. Não, por favor, o Sambô nada tem em comum, sem análise de qualquer mérito, com os Virgulóides. Vamos adiante. Os tempos, clichê, são outros.
Havia então, uma busca das gravadoras em achar a “bucha” para preencher o vazio deixado pelos Mamonas Assassinas. Era uma tarefa muito, muito difícil. Dinho e sua banda eram super carismáticos e tinham uma exposição midiática enorme. As rádios e a TV sugavam toda aquela energia pulsante sem pena. A morte deles, dentro daquelas circunstâncias, deixam normalmente sequelas épicas. Uma superação improvável de se seguir tão rapidamente para a próxima etapa, com similares e genéricos de toda ordem. O espetáculo deveria continuar, mas, certamente, para alguns não poderia ser descaradamente assim.
Os Virgulóides aparecem como mais sujos, indolentes e malvados do que seus antecessores. Todos cantavam, riam e não estavam nem aí para aqueles “versos” que falam de consumo e tráfico de drogas ilegais, assédio, machismo, sexismo e outras temáticas polêmicas. A perspectiva era curtir e jogar pra cima. A maioria daqueles jovens da época não viveram nem a metade das aventuras cantadas por Henrique, Beto e Paulinho.
Tinham vontade até, mas idealizar e viajar “de longe” naquelas aventuras era mais seguro. Era diversão também sonhar que de vez em quando umas daquelas situações cercassem a nossa história pessoal. Eram tempos também de HIV letal. Tempos ansiosos de tesões reprimidos. Assim, aquelas músicas não eram situações de muita reflexão e sim de um escapismo mais imediato.
Vinte e alguns anos depois escuto esse rock sambado – samba rock é outra coisa e “propriedade” do gênio Jorge Ben e seus “comparsas” leia aqui e vamos adiante -, e vejo que o álbum “Virgulóides ?” é algo bem peculiar, quase único, em termos da proposta de marginalidade inocente se tornar mainstream.
Arranjos simples das variantes do samba (axé, pagode, samba raiz, etc) entremeados pelo rock (metal, hardcore, punk, etc) mostram sem pretensão o mix do jovem urbano periférico como personagem daquela jornada e chutando tudo sobre o seu dia a dia escroto – ouvir “Sebunda-Feira”- de vários “loucos” que encontrávamos por aí.
O saudoso Carlos Eduardo Miranda estava entre esses “loucos” como produtor, amigo e participação especial como músico no disco. Miranda talvez seja o produtor musical que mais entendeu como ajustar a produção musical aos artistas sem ofendê-los. Após sua morte, uma grande quantidade de relatos fundamentam esse argumento e mostram a força motriz do produtor na sua existência muito marcada por esses trabalhos, principalmente, na Banguela Records e na Excelente Discos. O cara entendia do riscado sem dúvida.
Hoje “Virgulóides ? (1997)” pode parecer datado e incompreensível para os nascidos da década do lançamento do disco pra cá. Isso não cabe dúvida. Pela perspectiva de que o rock morreu – considero o último grande álbum de rock o do Arctic Monkeys em 2006 – e que o espaço dele – o rock – no mundo está agora quase para o jazz e o blues nas últimas décadas, e só faltam morrer mais alguns poucos ídolos para a mítica arrefecer de vez. Movimento que está de algum modo ligado a decadência do modelo de promoção através do jabá, dos pagodeiros dos anos 90 e dos axezeiros.
Os jabazeiros agora estão localizados no forró universitário, sofrência (que zorra é “Sofrência”? É o Arrocha estilizado?), love songs e funk são a predominância onde os serviços de streaming ditam, mesmo você pagando e previamente escolhendo a lista de execução, o que você PRECISA ouvir.
O “do it yourself” volta com força, mesmo com a maioria dos produtores querendo um grande contrato com a uma major. Na verdade esse disco dos Virgulóides dentro da perspectiva prevalente de hoje, seria condenado por não se colocar. Não se posicionar dentro de seu quadrado: Fala em cheirar pó e no “mato queimado” e nesse mesmo contexto dizer que naquela festa “só tinha cueca e nem uma ceta” faria da festa de Dona Teta um evento que possivelmente não aconteceria hoje, no plano ideal, mas no plano da hipocrisia estaria tudo bem tranquilo.
O importante é que eles fizeram um disco muito “da hora, mano” despretensioso e que não deve ser esquecido nesses tempos que te cobram tanta tolerância que muitas vezes pensamos em pedir que uma típica Festa na Dona Teta seja reeditada de tempos em tempos para não nos esquecermos de coisas bem (des)importantes da vida mais que sempre claramente efêmera.
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