Há 10 anos, o grupo baiano Opanijé lançava no rap nacional um disco totalmente feito sob a perspectiva candomblecista!

Formado pelos MC ‘s Lázaro Erê e Rone Dumdum (Dumdum Afolabi) e pelo DJ Chiba, o Opanijé é um grupo baiano formado em 2005. Surgido das cinzas de uma das lendas do rap baiano, a banda Erê Jitolu, Lazinho que era MC do grupo, se juntou ao irmão Rone e ao antigo “roadie” do extinto grupo e juntos formaram o Organização Popular Africana Negros Invertendo o Jogo Excludente. Junto a essa perspectiva política pan-africana veio junto no pacote a força espiritual do candomblé, expressa também pelo nome do grupo que é um toque religioso para Omolu.
Em 2013 o Brasil vivia um ano de imensa ebulição política com as jornadas de junho e logo após o começo do fascismo tomando conta das ruas. Concomitantemente a isso, acontecia no país a Copa das Confederações. Muita gente se lembra desses acontecimentos, o que muitos não se recordam é que neste ano um grupo baiano lançava um disco que pela primeira vez trazia uma estética original, conceitualmente trabalhando dentro de uma perspectiva candomblecista e pan-africana.
Composto por 14 faixas e pouco mais de 1hora, o disco do Opanijé é um marco do Hip-Hop mundial, não apenas Brasileiro, algo constatado facilmente pelo elogio feito por ninguém menos que Chuck D (Public Enemy) ao se deparar com o clipe da música “Se Diz”. Para além de um mera falácia de apelo à autoridade, o fato que nos parece evidente é que para além da barreira da língua, o que o mestre percebeu no Opanijé foi uma coisa que gritava: sua originalidade estética.
Também um dos mais bonitos audiovisuais da história do rap nacional, o que o Opanijé apresentava no clipe da faixa referida, dirigida por Chico Soares (ex-Erê Jitolu) e com a assistência de direção do Márcio Ricardo (ex-Erê Jitolu), o clipe trazia uma união singular entre a espiritualidade do candomblé e o Hip-Hop rua. A vivência dos membros do grupo interpretada cinematograficamente de um modo muito próprio, sampleando artisticamente o dia a dia de uma parcela da população da Roma Negra, em audiovisual.
O disco demorou dois anos para ficar pronto, de 2011 até 2013 o grupo trabalhou de modo a registrar as músicas que já vinham sendo executadas sem os samples que então eram usados nos shows. A produção do DJ Chiba, mostra a força da pesquisa de um verdadeiro mestre da cultura, apresentando beats que vão da junção de batidas do rap com toques do candomblé, passando pelo reggae, pelo dancehall e até música eletrônica. O disco foi produzido pelo experiente André T e gravado no Estúdio T em Salvador, Bahia.
O auto reconhecimento e a exaltação da negritude, assim como a auto afirmação como MC ‘s candomblecistas e o combate ao racismo, encontram na lírica de Lázaro Erê e Rone Dumdum um equilíbrio entre a nova e a velha escola. Algo que fica bastante evidente na música “Eu Sou” onde a construção lírica e o flow trabalham passando de um para o outro com uma naturalidade de “irmãos” de sangue, de vida e de rima. Em sua forma, o disco não se rende às modas da época, e trabalha em geral com faixas longas, preenchendo o play com participações que mostram a diversidade e a história a que se propunham.
Ao mesmo tempo, negociando com a tradição e com a modernidade, resgatando a ancestralidade africana e trabalhando musicalmente com influências diversas, como o cinema por exemplo. Como Lázaro Erê disse ao Bocada Forte, em entrevista feita pelo mestre DJ Cortecertu:
“A gente só segue a fórmula básica do rap, que é: ser você mesmo, retratar a sua realidade próxima e tentar conectá-la a um contexto mundial. Isso o rap faz há quase 40 anos. O problema é que muitos largam aquilo que está na sua mão e correm pra abraçar o que o mercado fonográfico diz ser a nova tendência.”
Muito antes do conceito descolonial, o Opanijé estava além falando sobre pan-africanismo em suas letras, pois o disco já abre com a pesada “Encruzilhada”, pedindo licença a Exu pra chegar e mostrando a consciência preta sobre sua própria história, com participação de Heider Soundcista (ex-RBF Rapaziada da Baixa Fria). Com “A Cura” isso é reafirmado de modo veemente ao mostrarem como o apego a ancestralidade é desde sempre Sankofa, pois é capaz de curar as feridas anteriores ao nascimento quando adquirida durante o seu desenvolvimento enquanto seres humanos africanos: “Quem sabe a cura não teme a doença”.
Na sequência, três feats que trazem duas lendas do rap nacional, o conhecido GOG, pioneiro, e o não menos importante Gomez (Elemento X), Aspri (RBF) fundamentais para o rap baiano e nordestino. Onde o MC brasiliense abre a perspectiva do ouvinte para o desenvolvimento humano na região nordeste e seu empobrecimento programado pelo estado brasileiro, enquanto Rone, Aspri, Lazaro e Gomez encaminham o desenvolvimento negro diante de um cenário de empobrecimento e de violência.
A potência do Hip-Hop nem sempre está presente nos discos de modo formal, às vezes boas ideias estão mal colocadas poeticamente e ou musicalmente, não é o caso do Opanijé. Ouvir o disco do Opanijé 10 anos depois é um exercício de perceber como o cenário paulista das mídias sempre invisibilizam o nordeste mesmo estando diante do primeiro disco do rap baiano a entrar nos streamings, iTunes, na época. O disco foi colocado nas plataformas em novembro de 20013 e lançado fisicamente em março de 2014.

A faixa “Hoje Eu Acordei Mulher” onde os caras promovem o procedimento de inversão poética do lugar de fala que só seria popularizado anos depois, mostrando os problemas que uma sociedade patriarcal promove, através de um perspectiva africana, que entende o que é e como se constitui uma sociedade matriarcal e o papel de liderança e educação de mulheres dentro do candomblé, por exemplo. A produção do beat traz influências da música africana com muita organicidade estética.
Com o auxílio luxuoso do saudoso maestro Letieres Leite, dos mestres Gabi Guedes e João Teoria, a Orquestra Rumpilezz faz participação com o Opanijé e os caras compõem a música que é talvez o centro nervoso do disco, sua origem espiritual. A noção espiritual que guia o pensamento filosófico, a ética e a estética, a política e a teoria do conhecimento das nações de candomblé, onde noções fúteis como bem e mal são separadas de modo meramente e simplesmente dicotômicas são rejeitadas, e entende-se os deuses como fontes de TUDO o que é humano, pois ancestrais. Não que haja indefinição entre quais os valores morais são corretos, porém sabe-se que a aproximação com os orixás passam por filtros humanos e estes lhes direciona!
Neste sentido, a música “Deus que Dança” expressa um clichê muitas vezes atribuído ao filósofo alemão Nietzsche mas que é vivido desde os primórdios das civilizações humanas pelos africanos. Com a Orquestra Rumpilezz, o Opanijé coloca os Orixás nas rodas de bboys. Ainda nesta altura um nome que começa a ser conhecido nacionalmente, Ellen Oléria chega na faixa “Aqui Onde Estão”, cantando com sua potente voz o refrão em referência a música “Zumbi” do grande Jorge Ben Jor, enquanto os MC ‘s do grupo rimam.
Junto a uma outra referência do rap baiano, Sereno Loquaz (Ideologia Alicerce e Loquaz), os caras chegam pesado em um dancehall que traz a guitarra característica do Baianasystem, pelas mãos de Robertinho Barreto. Os caras pesam legal, com “Vamuinvadi” que é daquelas músicas que jogam qualquer um pra cima.

Na sequência uma homenagem linda ao grande Afrika Bambaataa, e trazendo um signo do cinema que formou primeiro Lázaro e de Chiba, que saiu no ano de nascimento de Rone, O Último Dragão (1985), que recebeu essa herança do irmão mais velho. Clássico do cinema negro inspirado na blaxploitation dos anos 70 e que traz um jovem negro na encruzilhada de se tornar um mestre de Kung-Fu para combater o “mal”, representado por Sho’nuff, outro mestre líder de uma gangue que oprimia seus iguais.
Essa trama boba e influente para todos nós jovens negros, é subvertida e transformada em uma faixa das melhores do disco de estreia do Opanijé, onde são os valores e as “ações” que determinam quem é o mestre, “O Último Dragão”. O disco se encerra com “O Que eu Quiser” novamente trazendo o OG baiano Gomez e junto X do Câmbio Negro, com um baixo pesado e com mais um toque pra orixá incorporado ao beat, onde os MC ‘s esmerilharam nas rimas e no flow. O disco se encerra com uma pedrada!
O disco de estreia do Opanijé sofreu com o ano de conturbação política, com a falta de divulgação por parte das mídias que reproduzem inconsciente ou conscientemente a xenofobia, com a falta de investimento para divulgação, mas permanece intacto enquanto obra de arte. Um disco que é uma amostragem perfeita do poder do rap baiano em todas as sua ousadia e potencialidades criativas. Apesar e sempre além do que é feito no eixo!
Ouça:
-Opanijé e o pioneirismo do Candomblé no rap nacional, 10 anos depois!
Por Danilo Cruz
Danilo
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