Um dos grandes nomes do Rap baiano, Oddish “Castro” lançou o single “Gargantilha” e o EP “Pernambués” com produção do El Piva.

O mês de abril tem marcado o retorno do MC Oddish “Castro” ao cenário do Rap baiano, com lançamentos que preparam o seu terceiro disco de carreira. Essa volta, se deu primeiro com o single “Gargantilha” e agora com o EP produzido pelo El Piva: “Pernambués”. O primeiro grande nome das batalhas de MC’s da Bahia, reconhecido por nomes nacionais como Emicida, Oddish comemora seus 20 anos de Rap, sem fazer prisioneiros.
Fruto de um cenário do rap de Salvador que não possuía muitos holofotes, Oddish se configurou como o maior MC de batalhas, antes das batalhas trazerem possibilidade de reconhecimento nacional e dinheiro. Infelizmente, as batalhas vencidas no Orkut contra nomes como Mamute, Rashid entre outros não possuem catalogação. Assim como os anos em que dominou a cena em Salvador, batendo em todos os nomes locais, possuem escassos registros de vídeo.
O “parma” franzino se tornou um dos gigantes nacionais na arte do freestyle e das batalhas, derrotou repetidamente todos os grandes nomes em Salvador, durante anos. Em 2006, começou a lançar seus primeiros raps na internet, completando agora 20 anos de caminhada. Oddish conta no seu cartel de “lutas” com 2 discos solo, o emblemático “Ponteiros Voam Feito Jatos” de 2014 e “Onironauta” de 2021, além de diversos singles e alguns EP’s. Fez parte da clássica banca/grupo Fraternidade Maus Elementos, e com o grupo gravou o excelente disco: “Eles Não Vão Perdoar” lançado em 2016.
-Leia no site, a nossa resenha do disco da Fraternidade Maus Elementos
Ao longo de sua carreira Oddish sempre operou em um registro lírico, no que outrora eu chamei de “O médico e o monstro”, para tentar dar conta e pelo menos exemplificar, a forma como o MC alternava canções sobre corações partidos e rimas extremamente sujas. Porém, como toda tentativa de entendimento dual, esse é um reducionismo que hoje, já tendo ouvido o disco ainda por lançar, posso compreender em maior escala. Afinal, disto sabemos, as verdadeiras batalhas acontecem entre as zonas cinzentas que atravessam e ligam dialeticamente um pólo e outro.
Sim, você que está lendo vai entender também, pois o mês de Abril e o disco por vir, já ganhou uma espécie de prólogo lírico, com o single “Gargantilha” e com o EP “Pernambués”, contendo três faixas e com a produção do El Piva. Se manter em atividade por 20 anos fazendo música de modo independente, não é algo fácil, fazendo Rap em Salvador menos ainda. Oddish tem vivido essa e outras batalhas, e isso já começa a ser tornado público com o single “Gargantilha”.
Um single, beat da internet, mas um desabafo profundo e que é a chave de entendimento da unicidade dessa obra em vias de se completar, com o lançamento do disco. Entre as suas músicas sobre solidão, amores perdidos e os “ataques sujos”, que configuraram sua assinatura poética ao longo dos anos, o tema do suicídio e a luta pela saúde mental, é uma porta aberta para todos os tons de cinza aprisionados pelo MC.
Não sou um adepto da seita que propaga a arte como cura, também não acredito na psicanálise, mas entendo que a expressão de nossos problemas mentais, é um elemento fundamental para buscar o mínimo de equilíbrio entre doença e saúde. A construção lírica do single “Gargantilha” nos coloca com observadores de uma cena onde a solidão e o flerte com o suicídio, ganham contornos cinematográficos, um storytelling escrito diante do abismo.
Uma das piores sensações presentes em casos de transtornos mentais é a sensação de perder o controle da própria vida, do próprio corpo, das reações diante do cotidiano. Oddish traça isso com brilhantismo, ao mostrar o quanto de atenção sobre si mesmo é necessário para que abra-se minimamente a possibilidade de retomada de si: “Há dez anos eu cantava sobre o mundo me ouvir, Tão irônico de alguém que nunca quis se escutar”.

E correndo o risco de ser novamente simplista, é nesse momento que me parece, Oddish começa a iluminar as zonas cinzentas que separavam publicamente O Médico e o Monstro. A gentileza e a violência em sua arte, como reações extremadas, de auto afirmação, abrem espaço para um discurso sobre fragilidade, retirando daí a força vital necessária para continuar. No entanto, não há capitulação alguma diante do passado e muito menos a forja de uma nova persona, antes Oddish aprofunda e esmerilha os aspectos conhecidos pelo público no EP “Pernambués”.
Como muito bem ressaltou Dudu no vídeo sobre o EP, temos aqui um exemplo de um conjunto de três faixas odiosas, com o excelente coordenação sonora de El Piva que providenciou três beats nervosos para “Laranjada”, “GESSÉ” e “Páprica Defumada”. Só boombpeira suja como o “catarro do Pixote”, Oddish utiliza signos do cotidiano soteropolitano, para ilustrar suas faixas, assim como o recorrente alter-ego referencial de Igor Kannário.
E a analogia não poderia ser melhor, certamente Oddish é o equivalente de Igor Kannário no rap baiano, um “parma” que se destaca como um dos melhores MC’s da nossa tradição, como acima mencionado e como historicamente conhecido. Novamente citando Dudu, “Pernambués” é linear como um sistema de esgoto, é só rajada de violência nas rimas, e imagens sujas como: “Quem não tem tempo, vive o tempo como uma sonda na uretra”. Com direito a um “beef” direcionado ao Baby Venas e que de modo instrutivo alerta para a necessidade de conhecer antes de desmerecer e ou criticar negativamente algo ou alguém.
As referências imundas vão do cinema nacional à Marvel, tudo devidamente processado por um mix intenso de cerveja e antidepressivos, e processado com maestria das diversas técnicas de construção de rimas. Diversas barras cuspidas contra o bom mocismo que tem sido o escudo de uma pá de MC fraco, também aparecem aqui e ali como um exemplo do que Oddish propõe: “Eu trago luz, sou a metástase na ressonância” e “aos MC’s desejo o mal de parkinson e um note”.
Enfim, o prólogo está aí, escutem e se preparem para o disco que chega no fim do mês!
-Oddish “Castro” solta single e EP como um prólogo para o “ÉPICO da SUJEIRA”
Por Danilo Cruz
Danilo
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Oddish “Castro” solta single e EP como um prólogo para o “ÉPICO da SUJEIRA”
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