Oddish Castro lançou o seu 3º disco com feats de Max BO, ManoWill, Ravi Lobo, ALFÃO, DoisAs, Lezin e mais em seu melhor trabalho até aqui!

Vivemos uma era de filtros, onde “personas” são vendidas como manequins portadoras de verdades humanas, com narrativas sendo engolidas como fatos e as pautas políticas – importantes – tomando a frente da arte, encapsuladas com maestria pelo marketing, Oddish “Castro” caga para tudo isso. Seu terceiro disco de carreira conta com 18 faixas produzidas pelo paranaense Degraus Beats. “Deus Me Louvre” pode e deve ser encarado como um épico da sujeira, construído com muita dor e humor, onde críticas e bragaddocios, autodepreciação e escárnio visam desvelar falsas verdades… através de verdades duras demais.
Fazer piada de si mesmo, já na primeira faixa – “Horrível” – introduz o ouvinte no será daqui pra frente um universo de dor, sarcasmo ácido e busca de superação. Tudo muito bem embalado com referências ao universo pop e um humor que beira o doentio. De certo modo, o disco “Deus me Louvre” pode ser tratado como uma diss para si mesmo, porque ninguém se rasga em público, como o Felipe Castro aka Oddish fez – com requintes de crueldade – sem uma profunda auto-crítica.
Artistas expõem-se publicamente, entregam-se para a arena trazendo-nos diversão, reflexões, ideias poéticas e musicais, mas sempre protegidos por uma persona construída através da utilização de máscaras que vão se formando à medida em que outras são retiradas. Oddish “Castro” não é diferente, e seria bobagem acreditarmos que estar à frente de uma persona nua, pois mesmo revelando suas dores mais profundas, ainda estamos em um distância segura. Afinal, problemas de desemprego, burnout e abuso infantil são duros demais, por mais que a menção muito bem elaborada poeticamente, sejam capazes de resumir o corpo e a subjetividade que os sofreu e os expressa.
O “pathos” que Oddish transmite ao longo das 18 músicas e interlúdios que compõem o disco, atravessam tal qual Dante Alighieri, um inferno que nos leva a refletir como alguém é capaz de diante de tudo isso, fazer música. Talvez, seja a tal “Brasa no Breu”, segunda faixa que conta com a participação de Ravi Lobo que em sua parte rima: “sorrisos, cicatrizes e vários baseados”. Ou seja, aqui – a música – é menos um conhece-te a ti mesmo, do que um desindividualize-se, não por mero esquecimento, mas por uma necessidade de não ser tragado pelas dores, pelos problemas e pelo sofrimento que quanto mais observado, mas nos encerra.
O disco “Deus Me Louvre” nos traz questões grandes demais, dosadas e refletidas demais, expostas e criticadas com os tais requintes de crueldade que acima mencionamos, que nos mostra o nível do rigor poético de Oddish. Seja na escolha dos beats, nos feats, nas temáticas que compõem o disco, mas também na teatralização de um solilóquio que apenas que viveu uma solidão verdadeira é capaz. Como o próprio rima em “Garfo em Tokio”: “dois minutos na minha pele, vai pro Juliano Moreira, segura essa desgraça, é uma xibata na moleira” – famoso Hospício da capital baiana.

Como uma saída ativa para aliviar as dores das feridas que o MC carrega, ele escolheu os boombaps pesados da melhor lavra do Degraus. Beatmaker paranaense com quem trabalha há 10 anos e que ofertou todos os beats de “Deus Me Louvre”, produzindo a sonoridade do disco, que é plenamente indicada aos amantes dos anos 90. Se diferenciando do grosso da produção atual do boombap, Degraus Beats é o responsavel por toda a pista sonora por onde Oddish vai entre acelerações e dosagens nos flows, construindo o seu épico.
Um dos nomes mais importantes da história do rap baiano, Oddish “Castro” que é um freestyleiro imbatível – o foi por anos no cenário de Salvador – brinca com as possibilidades de vomitar sujeiras em flows que fariam os auto-intitulados grandes nomes do mercado, ficarem corados, mesmo os pretos mais retintos. Pois, não é apenas o conteúdo lírico que impressiona, a forma do disco brinca com métricas e flows que mostram o nível de rigor e conhecimento que o MC possui.
Certamente, para quem ouviu “Ponteiros Voam como Jatos (2014)” e “Onironauta (2021)”, os dois discos anteriores do Oddish, vão encontrar em “Deus me Louvre” o seu Opus Magnun até aqui. Um artista com pelo menos 20 anos de carreira, que fez parte de uma das bancas mais importantes da história baiana, a Fraternidade Maus Elementos, um dos maiores campeões das batalhas de Salvador, em uma época sem visibilidade. O novo trabalho de Oddish nos mostra um artista, que domina os seus meios de expressão como poucos.
Já na quarta faixa, “Convite para Voar” o MC reflete sobre depressão, abandono parental, suicídio físico e artístico, em uma das músicas mais densas do disco, e ao mesmo tempo, iniciando a construção do seu alter ego no albúm, como bem nomeou o André Charneski do Rap Muito Específicos: o seu próprio Venom. Sem citar, Oddish cria uma música que ilustra muito bem a famosa frase do filósofo alemão Friedrich Nietzsche:
“Aquele que luta com monstros deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro. Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você.”
Neste storytelling sobre si mesmo, a luta contra seus monstros interiores, aqui ficcionalizada, alivia e apresenta esteticamente dores que são frutos de conflitos internos e que obviamente não estão presentes apenas em pessoas que vivem, trabalham e lutam por um sonho artístico. Dizem respeito a todas as nossas aspirações mais altas, assim como às nossas frustrações como seres humanos. Sem se vitimizar, sem levantar uma bandeira política, Oddish Castro vai muito fundo nestas questões nos apresentando um caleidoscópio de problemas que o atravessam, mas que certamente atravessam a milhares, senão milhões de outras pessoas.
Na sequência, em um beat “japonês” do Degraus, junto com ALFÃO, Oddish esbagaça os bastidores do rap – da arte? – martelando o ego dos pseudo ídolos e suas demasiadamente humanas bobagens: “Blé Blé Blé Blé Blé”. Note-se o quanto o confronto consigo mesmo, explode em diversas direções, onde Oddish Castro não se encerra em si mesmo, mas ao confrontar seus problemas e dores mais profundas, se espraia pelo social e pelo cultural.
E obviamente, Kannário tá no disco em um sample que insere o ouvinte em “Caracal”, um das melhores músicas presente no disco, porque de certo modo nos leva para uma outra camada da obra. Essa camada, é a que se constitui como comentários críticos sobre a sociedade, e que servem de estofo para “as vivências” relatadas. Porque a arte não é feita por “vivências”, ela é produzida pela capacidade de decantação e universalização de afectos e sensações, de visões que o artista é capaz de dar forma, neste caso, através de construção de flows e rimas em cima de um beat.
Em “Paul McCartney”, Oddish espremeu um furúnculo e nos oferta uma sequência de poesias que relatam para o ouvinte seus medos e leituras psicológicas sobre si com uma navalha na mão, e que pode valer para muitos. Já em “Linhas de Sal” temos a participação de Devil Gremory, um dos MC’s mais interessantes surgidos em Salvador nos últimos anos, onde Oddish traz os aspectos sombrios de um centro histórico inspirado em Stranger Things e que é “ilustrado” racialmente pelo feat, um dos traps do disco.
O leitor que escutou até aqui o disco já sacou que está diante de uma das obras mais importantes do ano de 2026 do Rap Nacional, apesar de tudo, apesar da invisibilidade que conhecemos bem. Em que mundo “Number One” não toca em todos os fones de quem gosta de rap? Onde “picas meia bomba” estouram os ouvidos da maioria das pessoas que “consomem” o rap? Neste mundo, aqui no Brasil, nesse tempo onde o network vale muito mais do que a qualidade artística, que é uma tão triste constatação quanto ter a pia mijada por Oddish.
A obsessão por Stranger Things retorna pouco depois, com “Demogorgons” e a voz do “Venom”. A puta emocional, a auto comiseração, a lei do retorno é simplesmente enrabada por uma música que expande nossa noção de retorno, de auto superação, ilustrada pela imagem poética inspirada na física e com o conceito de buraco negro. É aqui que as significações são tragadas sem retorno possível e que Oddish nos oferece uma “boa” imagem da depressão, como um “airbnb” do fundo do poço e ao mesmo tempo possibilidade de volta por cima, ou de habitação consciente.
O ouvinte que busca uma história de redenção, um disco com início. meio e fim, certamente ficará frustrado com “Deus Me Louvre”, seria trair-se a si mesmo e no limite, transformar as dores reais, e os monstros que pululam de dentro de Oddish aqui e ali, e da batalha consigo mesmo, uma mera espetacularização. Questões como essas que o MC aborda aqui, não possuem resolução são índices, gradientes de intensidade que guardamos em nós mesmos, que muitas vezes se chocam contra nossos próprios valores, ao serem colocadas a prova no espaço público.
“E eu tô zero remorso para quem soltou minha mão, no olho do furacão, nada que justifica, vocês tem liberdade para me pedir perdão, só que cês vão pedir pra cabeça da minha pica.”
A próxima música conta com a participação do MC Ramon Kaizen, uma faixa sobre a hipocrisia que nos circunda a todos, oferecendo uma visão panorâmica e mais descontraída em “Magnific”. Assim como a faixa seguinte: “Baba Yaga de Blackout” que constituem comentários periféricos, mas nem por isso menos importantes, às linhas de força do disco. Desta leva, também podemos incluir “Se For Vomitar” que traz o monstrinho DoisAs, em uma faixa que mescla storytelling com a sujeira do RatoNato, os dois “parmas” mais sujos da Bahia e do Brasil…

Grandes discos muitas vezes se configuram pela qualidade plural daquilo que apresenta, e ao nos trazer um disco que aborda suas dores psicológicas, seus traumas, Oddish também não é só biles. Em “Passa Mesmo Que Demore” uma faixa onde o MC rima e canta com bastante qualidade, o tema é a resiliência, fruto do entendimento de que o mesmo tempo que voa, soca, também cura feridas. Mas que não se resigna como a faixa seguinte “Consolação”, deixa explícito. Trazendo um dos maiores MC’s da história do país, Max BO e o grande “maloqueiro sombrio” Mano Will, como feats.
Escrever de modo sintético sobre um disco como esses será sempre um problema por não sermos capazes de incluir no corpo da resenha, a quantidade de camadas e de interligações interpretativas possíveis. “Deus Me Louvre” é um disco inesgotável, e certamente não é pelo valor do tema. Em “Asas”, um trap que conta com a participação de Lezin, o tema do tempo é novamente abordado, como o é, desde de “Ponteiros Voam como Jatos” e que neste disco é trabalhado sob diversas perspectivas, assim como o tema do abandono parental.
O tempo como um devorador de sonhos, só vale ser entendido se percebermos que não o possuímos, apesar do mesmo ser um dos nossos determinantes existenciais. E certamente, Oddish está ciente disso, por isso a grande quantidade de enfoques ao longo de todo o disco sobre como sentimos o tempo, sob o jugo do capitalismo como estrutura econômica e política, mas também, dos seus tentáculos culturais e sociais. Ele não precisa gritar contra o patriarcado, pois a crítica que ele faz tanto é a substância das violências que sofreu na carne, quanto está em suas próprias rimas – conscientemente – quando rima sobre as vadias, e ou sobre o falo como arma.
O seu “Venom” de estimação o instiga a seguir a agressividade e buscar mais sangue em “Limbo”, no entanto, é aí que a crítica maior ao patriarcado, a masculinidade tóxica se expõe de modo mais intenso. É aqui que a dualidade teatralizada ao longo do disco, e que por vezes eu mesmo chamei atenção na obra do MC, se fundem em uma unidade uníssona, evitando o entendimento empobrecedor do ser humano em uma binaridade valorativa cristã de bem e mal.
A música que encerra o disco já era prenunciada na primeira música do disco, e foi desenvolvida em todos os seus temas ao longo do disco, logo não é a busca por uma catarse. E muito menos, o carro chefe que faria de Oddish o embaixador do Rap contra o abuso infantil. Ao longo do disco, o que deveria nos interessar é o confronto, a batalha circunscrita em “Deus Me Louvre”. O maior MC de batalhas conseguiu plasmar um épico de rap sujo, onde no fim das contas ele nos revela uma verdade pouco encarada para além das frases motivacionais de coach’s, a batalha será sempre entre Eu & Eu.
Entre a denúncia da violência sofrida, os beefs, as diss, e os puxões de orelhas presentes em “O Maior Desabafo da Minha Vida”, estão também os agradecimentos e as avaliações de como podemos ser benéficos e maléficos ao mesmo tempo, uns pros outros. Seja ao falarmos bosta sobre algo que não conhecemos tentando opinar para a melhoria de alguém, seja buscando fazer dinheiro para termos uma vida digna e confortável. Oddish e a sua coragem para cantar o estupro sofrido, promove um chamado a reflexão sobre o patriarcado, que ironia não é, mas muito a fundo e sem sensacionalismo.
Em tempos, onde as pautas são o reboco das personas da internet, que se constroem com o filtro da distância vivendo de comentários “críticos”, sobre as violências sofridas por outrem ou mesmo por si, vemos o quanto a arte é verdadeiramente um campo mais fidedigno. Pois, artistas como Oddish Castro & Degraus Beats, possuem a possibilidade de levantar questões de um modo único, através da poesia e da música, da rima e do beat, sem serem panfletários. Abordam temas, e dão-lhes encadeamentos que nos tiram do lugar, mas do que qualquer influencer comentador de rede social.
Estamos diante de um dos melhores discos de 2026, e por que não, de um marco no rap nacional, mas muitas pessoas não estão preparadas para essa conversa, que não é terapia, e que precisa ser feita consigo mesmo.
-Oddish “Castro” & Degraus Beats: “A arte de não ser suicidado pela sociedade” = “Deus me Louvre”!
Por Danilo Cruz
Oddish "Castro" & Degraus Beats: "A arte de não ser suicidado pela sociedade" = "Deus me Louvre"
Danilo
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Oddish “Castro” & Degraus Beats: “A arte de não ser suicidado pela sociedade” = “Deus me Louvre”
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