O Holismo de Gaia. O novo artigo do André de Castro aborda as relações entre plantas, transe e música.
Continuemos a traçar um panorama sobre a chamada contracultura dos anos 60 e o que há de pertinente na tradição da cultura psicodélica. Terence McKenna, em seu famoso livro O Alimento dos Deuses afirma, no capítulo denominado Monoteísmo:
“A perda da conexão com o Tao significou que o desenvolvimento psicológico da civilização ocidental ocorreu de modo diverso do que ocorreu no oriente. (…) O Hinduísmo e o Budismo mantiveram tradições de êxtase (…) e os rituais dessas grandes religiões dão amplo espaço para a expressão e apreciação do feminino (…). A religião ocidental é um conjunto de padrões sociais ou um conjunto de ansiedades centradas numa estrutura particular e numa ideia de obrigação. A religião raramente é uma experiência de abandonar o ego. Desde a década de 60, a disseminação de cultos populares de transe e dança, como a discoteca e o reggae, é uma reação saudável e inevitável à forma moribunda que a expressão religiosa assumiu na cultura ocidental de alta tecnologia. A conexão entre rock and roll e substâncias psicodélicas é uma conexão xamânica; transe, dança e intoxicação representavam a fórmula Arcaica para a celebração religiosa e para a diversão garantida”. Essa passagem é muito esclarecedora, pois alinha a cultura psicodélica ao transe, ou, mais precisamente, ao xamanismo. E o que isso quer dizer?
Para quem não está familiarizado com o pensamento de Terence Mckenna, é bom relembrarmos alguns pontos fundamentais. Primeiramente, como etnobotânico, foi um estudioso das relações entre as culturas humanas e a utilização dos vegetais, principalmente os com finalidades ritualísticas. Em suas conclusões mais gerais, MacKenna apontou indícios que sugerem uma grande relação entre o aprimoramento da linguagem humana e o contato e uso repetido de substâncias alucinógenas. Sua hipótese é de que a utilização de psilocibina por nossos ancestrais intensificou nossa capacidade de interagir em grupo, ampliando a complexidade das relações entre os indivíduos e expandindo o potencial criativo dos seres humanos. Que a dieta de plantas alucinogênicas foram, em suas próprias palavras, “catalizando a consciência”.
Empolgado com a descoberta, chegou a dizer que a experiência psicodélica seria a resposta ao mítico elo cultural perdido entre os hominídeos e os chamados seres humanos. O uso dos cogumelos sagrados com poderes psicoativos teriam inspirado esses antigos homens e mulheres ao verdadeiro pensamento auto-reflexivo e, em seguida, teria estimulado a comunicação articulada. Ou seja, que o transe provocado pelo uso dos psicodélicos e depois a estruturação do xamanismo seriam de suma importância para o desenvolvimento das culturas humanas tal qual nós conhecemos.
A música jovem dos anos 60 e a cena lisérgica que se estabelecera naquele período é um retrato animado e colorido, onde é possível visualizar nitidamente as ressignificações do êxtase no mundo contemporâneo. Segundo McKenna, as grandes religiões monoteístas formaram o substrato da ética e moral da atual sociedade ocidental. Que é caracterizada pelo patriarcalismo hierarquizante, onde o reinado da razão se estabelece. Essa racionalidade e a primazia do ego teriam produzido um afastamento histórico dos seres humanos em relação a natureza (em especial ao mundo vegetal) e um distanciamento fóbico do inconsciente. Essa mudança psicológica se desdobrou no atual estágio da chamada civilização global, marcada pela “mania religiosa e perseguição, guerras, materialismo e racionalismo”.
Conclusão: que a obtenção do acesso ao inconsciente através do êxtase, no ambiente biopsicossocial da atualidade, reafirmaria nosso laço original com o planeta vivo. E que esse procedimento constituiria uma ameaça à cultura racionalista e belicista dos dias atuais. Na ideia desse autor, a autêntica revolução social ocorreria quando houvesse a definitiva quebra do paradigma patriarcal, com o esfacelamento do primado do ego. A arma de batalha seria o transe, ou a experiência do extático – a visão do Tao, onde todos os contrários coexistem. Os resultados seriam o restabelecimento da dignidade do elemento feminino e da sacralidade da mãe Terra. A obtenção de um maior equilíbrio entre os seres humanos e a natureza. Finalmente, uma melhor coexistência entre todos os elementos do planeta.
“When logic and proportion/ have fallen sloppy dead/ (…) Feed your head”, canta a bela Grace Slick (Jefferson Airplane), na música White Rabbit, em 1969, no festival de Woodstock. Os grande encontros musicais da era hippie constituíram-se em reedições, digamos assim, de ancestrais ritos coletivos de êxtase e transe. A diversão, a espiritualidade, a arte e a política se mesclavam, tornando difícil precisar onde terminava uma coisa e começava outra. Tudo reconectado e descompartimentado. Tudo em uma coisa só. Essa geração de jovens que pregava a “revolução ética” afrontava o status quo e a visão de mundo defendida por seus pais.
A expressão “quadrado”, um adjetivo utilizado para definir alguém considerado antiquado, careta, também denotava uma ideia mais profunda: a aversão ao padrão métrico, matemático e racional representado pela figura geométrica do quadrado. Os adeptos da paz e do amor questionavam a hegemonia da lógica e da proporção e faziam isso com suas mentes e corpos, com sua linguagem e sua música, com suas práticas de meditação e uso de drogas alucinógenas. Enfim, eles procuravam caminhos de religamento com sentimentos e vivências ancestrais por desacreditarem na catequese de que os avanços tecnológicos e econômicos da sociedade atômica do cógito os levaria a plena felicidade.
Hendrix e sua guitarra, na canção Purple Haze, nos oferece uma pista sobre o que seria esse estado extático ou de suspensão que defende McKenna: “Purple Haze all around/ Don’t know if I’m coming up or down/ Am I happy or in misery?”. É o que se costuma dizer sobre a meditação, em que o praticante exercita o “não pensar”, provocando a suspensão de certas áreas do pensamento consciente. Onde o maniqueísmo e a lógica formal não fazem sentido. Um exercício que estimula o “reprocessamento de dados” da mente, ocasionando uma limpeza daquilo que não é necessário e uma melhor organização das pertinências.
https://www.youtube.com/watch?v=SHdlSolwktU
A partir disso, o estado extático trás o esclarecimento. A canção Across the Universe dos Beatles termina com essa estrofe: “Sounds of laughter, shades of love are ringing through/ My opened ears/ inciting and inviting me/ limitless undying love/ which shines around me like a million suns/ and calls me on across the universe”. É o chamado que John Lennon sente em sua estadia na academia de meditação de Maharishi, em Rishikesh, antes de sua decepção com o Guru Deva. Assim sendo, o amor incondicional é o maior dos aprendizados, em contra-ponto ao amor condicional e obsessivo do Deus judaico-cristão. O amor incondicional estaria para a harmonia e o equilíbrio entre os elementos assim como o amor condicional para hierarquia e domínio entre os seres. Neste sentido, a experiência psicodélica deve despertar de maneira profunda e intensa esse amor ligado à Gaia, mãe Terra.
Uma dos conjuntos musicais mais relacionados a questão do transe é o The Doors. Seu frontman, Jim Morrinson, foi considerado o maior representante do rock xamânico. As canções induzem ao êxtase porque são fruto do mais profundo estado extático. Em The Crystal Ship, um beijo sela o início da viagem interior: “Before you slip into unconsciousness/ I’d like to have another kiss”. É notória a relação do Rei Lagarto com os estados alterados de consciência na busca de respostas às suas indagações existenciais. A mesma busca que consta nas tradições dos antigos xamãs indígenas americanos de se intoxicarem com mescalina ou ayuasca.
Não podemos esquecer que o cantor poeta se envolveu com todo tipo de drogas, inclusive com as chamadas drogas do prazer, como a heroína, que tem elevado potencial destrutivo e foi responsável por sua morte prematura. O importante é que a poesia e a música de Jim Morrison apontam para a iluminação, enquanto a performance da banda aponta para o ritual mágico-religioso. A inovação do The Doors, no plano da música pop, foi a de inserir elementos ritualísticos e mágicos em suas performances de palco. Sagrado e profano coexistindo em um mesmo momento de celebração da existência. A resposta, então, encontra-se em Loves Rides: “Love hides in the strangest places. Love hides in familiar faces. Love comes when you least expect it. Love hides in narrow corners. Love comes for those who seek it. Love hides inside the rainbow. Love hides in molecular structures. Love is the answer”.

A cultura vegetal e o equilíbrio do mundo
Voltando para Terence McKenna, ainda em O Alimento dos Deuses, no capítulo O Holismo de Gaia, o autor conclui que a destruição dos valores da atual cultura dominadora patriarcalista implica no que ele chama de holismo de Gaia – o restabelecimento do sentimento da unidade e do equilíbrio da natureza.
O reposicionamento da ação humana em relação ao seu meio natural. Uma visão mais religiosa (termo que Mckenna toma muito cuidado ao utilizar) da vida. Esse holismo de Gaia é possível através do exercício da mente vegetal, conceito desenvolvido pelo autor que se refere ao “repensar o papel das plantas em nosso processo evolutivo”. Principalmente, a revisão da importância das plantas e fungos alucinógenos no surgimento do homo sapiens. Em outras palavras, a necessidade do reequilíbrio do yin- yang, com a restauração da dignidade do elemento feminino e da intuição.
Esse processo ganhou força nos anos 60 com o movimento da contracultura e seus desdobramentos são perceptíveis em várias áreas da sociedade nos dias atuais. A busca por uma relação mais simbiótica com a natureza tomou contornos científicos e também tornou-se uma aspiração geral. Diante dos impasses de um mundo que continua dominado pela cultura do racionalismo tecnobelicista, Mckenna nos coloca uma reflexão: “Agora nossa escolha planetária é simples – mudar para o verde ou morrer”. E finaliza:
“Precisamos voltar a pensar no último momento sadio que tivemos como espécie, em seguida agir a partir das premissas existentes naquele momento. Isso significa recuar no tempo a modelos que foram bem-sucedidos entre quinze e vinte mil anos atrás. Essa mudança de ponto de vista iria nos permitir ver as plantas como algo mais do que comida, abrigos, roupas ou mesmo fontes de educação e religião; elas iriam se tornar modelos de processo. Afinal de contas, elas são exemplos de conexão simbiótica, de reciclagem e administração de recursos. Se admitirmos que o renascimento Arcaico será uma transformação paradigmática e que realmente podemos criar um modelo solícito, refeminilizado e ecossensível retomando a padrões muito antigos, então devemos admitir que será necessário mais do que exortação política. Para ser eficaz, o Renascimento Arcaico deve basear-se numa experiência que venha a sacudir cada um de nós até as raízes. A experiência deve ser real, generalizada e possível de ser debatida. Podemos começar essa reestruturação do pensamento declarando legítimo o que negamos durante tanto tempo. Vamos declarar que a Natureza é legítima. A noção de plantas ilegais é, acima de tudo, detestável e ridícula”.
Está claro que, para esse autor, a experiência psicodélica é, acima de tudo, transformadora do indivíduo e do mundo.
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