O groove minimalista do Kamaal Williams, que acaba de lançar o delicioso Wu Hen (2020). O tecladista britânico não para de inovar
Colei no meu coroa pra gente ouvir um som semana passada. Sacamos vários discos, de Zappa à Bill Evans. Achei interessante que num dado momento ele comentou: “você não consegue escutar esse Jazz mais hoje em dia, não tem. Você precisa voltar para os anos 60”.
Na hora confesso que fui com muita sede ao pote e já comecei a citar milhares de exemplos contemporâneos, mas depois refleti – já em casa – e tive que concordar com meu velho. Na hora que ele lançou o citado comentário, lembro de mencionar vários pianistas, mas todos acabavam se enquadrando nessa linha meio virtuose.
Foi ai que eu lembrei do Kamaal Williams. Produtor, beatmaker e DJ, o multifacetado tecladista inglês criou uma roupagem toda trabalhada no groove, mas com uma abordagem que valoriza o aspecto orgânico do som.
Você percebe como ele de fato matuta a ideia. São diversos toques e re-toques com aquelas camadas de sinth que fazem o ouvinte se sentir deitado numa nuvem. E o mais louco é como ele consegue levar essa essência pra cada um dos seus projetos.
Se você pegar tudo que ele já fez na vida, entre o Yussef Kamaal – com o solitário debutante “Black Focus“, lançado em 2016 – ao lado do baterista Yussef Dayes, dá pra sentir essa estética e sacar sua proposta logo de cara.
Dono de um estilo econômico – alguns diriam até preguiçoso – o talentoso instrumentista tem um ouvido excelente e sabe tirar som dos instrumentos. É aí que está o grande lance. A cozinha é extremamente lapidada, mas a onda é como apesar de tudo estar no jeito – swingando com esmero – Kamaal segue cadenciando, desarmando ouvintes com 4 notas. Ele valoriza até as notas que deixa de tocar.
Veja os seus seus 2 discos solo, por exemplo (“The Return” de 2018 e “Wu Hen” liberado agora, em 2020). Lógico que a dinâmica de bateria muda sem o Yussef, mas ele achou um novo caminho com o Greg Paul (que gravou seus últimos discos solo em estúdio), já que ao vivo a função fica com o Jonathan Tuitt.
E a sonoridade no trampo de House? Nessa alcunha – que conta com um full liberado em 2019 – dessa vez o artista se apresenta como DJ-Kicks. O resultado? Novamente é possível perceber novas nuances, mas ainda assim você sabe que é ele ali sentado no cockpit.
Em seus projetos como Henry Wu (“Deep In The Mud” (2017) e “Good Morning Peckham” (2015), apesar da estética drum&bass sincopadona com uma proposta mais dance music, você saca pelo estilo relaxado que ainda é o mesmo cara.

Pode vasculhar, mesmo com a diversidade estética, o Kamaal Williams, Henry Wu ou DJ-Kicks – enfim – faz algo raro hoje em dia: valoriza cada nota que toca, tudo em função de um estilo que nos faz relembrar aquele camisa 10 clássico que mata a pelota no peito e desafoga o time sem chutão, na calma, no jeito. Só tapa de qualidade.
É isso que Kamaal fez – de novo – em sua mais recente investida criativa. Com “Wu Hen”, que está na praça desde o dia 24 de julho, o músico grava seu primeiro trampo com metais e entrega um trabalho de rara sensibilidade, valorizando arranjos de corda e colocando o seu quarteto mais cabuloso pra trampar em estúdio pelo primeira vez.
Em 2019 o Kamaal Williams veio para o Brasil e fez 2 shows em São Paulo com seu trio, como parte do Festival SESC Jazz. O grupo composto por Rick Leon James (baixo), Jonathan Tuitt (bateria) e Quinn Mason (saxofone) trouxe uma solidez à sua proposta que era clara como água cristalina. Eu vi duas vezes pra entender a parada.
Rick James faz miséria no baixo. Harmonicamente muito completo e bastante técnico melodicamente, o negrão fechava uma cozinhaça com o Tuitt. A precisão do batera pra manter a galera no groove era digna de um metrônomo. No sax, Quinn Mason, talvez o grande elemento surpresa desse elenco. Com um repertório enraizado no Jazz, mas com capacidade técnica pra criar linhas mais chapadas e translúcidas – pra contrapor o minimalismo do Kamaal nas teclas – Quinn é dono de um som capaz de ocupar grandes espaços.
Nesse contexto, o tecladista fica livre pra improvisar e a grande onda do show é justamente ver o que o trio vai fazer pra manter as coisas no trilho. O próprio Kamaal fala muito sobre como essa banda é a ideal dentro do que ele busca no momento e essa confiança/entrosamento está impressa em cada segundo que permeiam os 10 takes desse disco, lançado pela própria gravadora do meliante, a Black Focus Records.
Track List:
“Street Dream”
“One More Time”
“1989”
“Toulouse”
“Pigalle”
“Big Rick”
“Save Me”
“Mr Wu”
“Hold On”
“Early Prayer”
“Wu Hen” eternizou uma banda extremamente entrosada e em tour pelo segundo ano seguido. Depois que o Kamal soltou o ao vivo “Live At Dekmantel” (2019) confesso que pensei num segundo disco de estúdio na mesma pegada do “The Return” – mas dessa vez com metais – emulando um flerte com a experiência de um show de Jazz, mesclado com pirações de House, assim como ele faz ao vivo.
Eu não poderia estar mais errado. Kamaal surpreende e surge com takes explorando arranjos de corda. Em outras oportunidades utiliza o sax ao melhor estilo Jazz quartet, mas sem cair no revisionismo, criando aqueles climas que só ele sabe fazer e com aquele tom ascendente – pique trilha sonora. Tem toques de House, incontáveis grooves ácidos e um flerte com o Jazz-Funk que é o puro veneno.
As quatro primeiras faixas já recontextualizam o ouvinte. Temos 3 participações elementares do Miguel Atwood-Ferguson, multi instrumentista californiano, responsável por trazer o garbo e elegância das cordas para o contexto cool do menino Kamaal.
Com um repertório que orbita do Folk ao Jazz, passando pela música clássica, Hip-Hop e música experimental, Miguel faz um trabalho fabuloso e surge com os ajustes finos, dialogando maravilhosamente com o sax. O tilintar das cordas em “Street Dreams”, traçando seu plano de voo junto com o sax… O instrumental vem açucarado, desabrochando, track após track.

O riff de “One More Time” é puro House com Jazz. E os pockets do Greg Paul, ritmando o groove todo e ainda no encalço do Rick James?
Em “1989”, Kamaal retrabalha uma das maiores ideias que já teve na vida. Com o retorno de Miguel nas cordas, o britânico ressignifica o groove de “Salaam” (presente no “The Return”) e atrasa o riff que surge no original – bem na hora que entra no drop do groove.
É uma pegada meio de mixtape e os arranjos – principalmente em “Toulouse” – me fazem acreditar que o meliante conhece e muito o Arthur Verocai. A França segue no itinerário, dessa vez com “Pigale”, talvez o Jazz mais tradicional que senhor Williams já gravou. O sax surge imerso no Bebop. No groove elétrico, Rick James debocha no walking bass, mas aí o Kamaal monta uma daquelas camas sublimes e o som vira do avesso. Merecia até parte I e II. Quando você acha que ele estava ficando previsível…
E o interessante é a dinâmica que ele conseguiu nessa configuração. Tem espaço pra todos os músicos aparecerem. Em “Big Rick” o “The Real Rick James” faz seu nome, enquanto Kamaal faz a luz e sombra nas texturas de sinth. Presta atenção na bateria do Paul nesse take. Muita sensibilidade.
E o mais foda é que é tudo tocado na moral, mas a pressão é latente, apesar do veludo no sax do Quinn. É pra dançar e relaxar ao mesmo tempo, como em “Save Me”, mas também tem uns insights mais espaciais-hit do verão, vide “Mr Wu”, por exemplo.
É um trabalho bastante completo e que mostra um leque ainda amplo de opções. É difícil prever o que esse cara vai fazer, mas tem sido um prazer acompanhar. “Hold On” interrompe o flow instrumental – depois das narrações presentes em “One More Time” – com um vocal maravilhoso, cortesia da afinadíssima cantora britânica, Lauren Faith e seu contemplativo R&B.
Não tem um som aqui que seja mais ou menos. O disco se encerra com “Early Prayer” e se depois de tudo isso você ainda não se ligou que o cara está fazendo algo diferente, bom, aí eu não sei mais o que falar.
Aperte play que o groove é certeiro. As harmonias são o creme do crime. É cada broken beat… Nem tenho joelho pra isso.
-O groove minimalista do Kamaal Williams
Por Guilherme Espir
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