UK GRIM do Sleaford Mods nos coloca em contato com uma música crua, despidas de floreios e mesmo assim cativante e diversa!
Herança eltrônica
A música inglesa a partir dos anos oitenta legou ao mundo importantes transformações dentro do segmento eletrônico. Do house ao techno, foram surgindo ramificações, vertentes diferentes que fizeram crescer toda uma cena musical diversa e instigante.
Como não podia deixar de ser, vários outros gêneros do âmbito da música pop incorporaram elementos destes segmentos específicos da música eletrônica. Do indie ao rap, passando pelo jazz, a Grã Bretanha tem sido palco efervescente, fazendo surgir artistas interessantes por todos os campos da música que tem no arcabouço da música eletrônica vasta e diversa matéria prima pra usar em suas composições.
O duo Sleaford Mods segue por esse viés. Usa de maneira bastante criativa e inspiradora toda diversidade de elementos sonoros que o caldeirão eletrônico pode oferecer. O letrista e cantor Jason Williamson vem de uma família da classe operária de East Midlands (centro-leste da Inglaterra). Abandonou a escola na adolescência e por quase duas décadas ralou como peão de obra na construção civil e no chão de fábrica.
Nesse ínterim formou bandas de rock que não deram em nada. Já quase um quarentão, Jason resolveu investir em outra vertente artística. Foi pra dentro de um estúdio e gravou sua poesia ácida, cujos versos são construídos a partir da sua vivência dentro da realidade de um membro da classe operária inglesa. Seus versos encontraram uma excelente trama sob a qual se desenrolar nas batidas eletrônicas.

Uma parceria consolidada
O Sleaford Mods surgiu a partir dessa guinada dada por Jason na busca por dar vasão a seus conflitos existenciais. Desde 2012 o beatmaker Andrew Fearn integra o Sleaford Mod e foi a partir de sua entrada que a coisa ganhou forma e densidade. Wank, lançado em 2012, é o álbum que marca o início da formação em duo da banda.
A partir daí os caras lançaram mais seis álbuns. O mais recentes deles saiu no dia 10 de março. Intitulado UK Grim, o álbum condensa toda diversidade de referências músicas da dupla, que não ficam apenas no âmbito do eletrônico, indo ao punk inglês, rap, grime e trap.
Essa paleta sonora é usada por Williamson e Fearn para compor um quadro musical pautado por traços simples e bem delimitados. As bases eletrônicas são bem sujas, de uma crueza tangível que se encaixam bem letras diretas de Williamson e seu flow áspero e fortemente influenciado pelo estilo punk de cantar.
A abordagem de Williamson sobre perspectivas de futuro, melhorias na condição de vida das pessoas é muito sombria. Não por ter como causa um traço pessimista da personalidade do cantor, mas por ser a realidade na qual viemos sombria e estéril de perspectivas de melhora par ao futuro.

A incompetência dos governantes, aliada a sua fidelidade canina em relação a conglomerados empresariais, banqueiros, enfim, à elite econômica, comprometidos em satisfazer seus interesses, mais a hipocrisia desta mesma elite aliada ainda à conformidade das massas populacionais satisfeitas em poder consumir fecham uma conta mórbida.
Isso tudo surge numa perspectiva que nos faz ouvir a música desses caras sem querer cortar os pulsos ao final do álbum. O humor ácido e absurdo nas letras e no modo de cantar de Williamson, aliado ao tempero eletro-punk ministrado nas proporções certas por Fearn garantem uma experiência estética “segura”.
Fearn segue um método de composição austero, baseado no entendimento de que menos é mais. O esquema é o seguinte: manter uma batida de bombo constante, aditivada com barulho de ferros e outros tipos de ruído, tendo sempre uma linha de baixo acompanhando todo o processo.
Em UK Grim ele se serve de uma batida bastante irregular de bateria tendo sempre uma linha de baixo compondo uma camada grave sobre ela. Ele se serve de ruídos eletrônicos usados como efeitos sonoros de jogos de vídeo game para criar as texturas de fundo de algumas músicas como é o caso de On The Ground.
Outra música que vale a pena chamar atenção é So Trendy Bips e borrões sintéticos surgem e desaparecem enquanto um guitarra distorcida segue por esse mesmo princípio. Andamentos punk são usados em muitas músicas que combinados a estes efeitos eletrônicos dão uma sensação de adrenalina despejada em sua corrente sanguínea descontroladamente.
UK Grim é o álbum mais diversificado da dupla até aqui. Nele os caras fazem um desabafo, o tom as vezes resignado, as vezes furioso da voz de Williamson ao longo do álbum mostram que se trata de botar pra fora toda frustração e ódio de se viver num mundo no qual sempre perdemos. Mesmo sabendo que a batalha travada acabara com nossa derrota, ainda lutamos, para tentar não perder a sanidade.
Carlim
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