NEGGS & YANGPRJ, continuidade violenta e expansão do Rap feito no Piauí – PT. II
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NEGGS & YANGPRJ, continuidade violenta e expansão do Rap feito no Piauí – PT. II 

“Libertador”, segundo movimento da dupla NEGGS & YANGPRJ segue a trilha do disco anterior, avançando violentamente para expandir o seu universo.

NEGGS
NEGGS & YANGPRJ

Muito se debate, muitas vezes por trás dos holofotes, sobre artistas que lançam muitos trabalhos em pouco tempo, muitas vezes sob um falso prisma, uma falsa questão entre quantidade e qualidade. Há nesse caso, uma imensa pressa nesse debate, e uma certa visão conservadora de que a arte precisa de muito tempo para ser feita. Haja vista que, uma observação mais pormenorizada na produção musical do século XX, por exemplo, nos mostrará que há diversos modos de produção possíveis.  

No entanto, a facilidade de produção e de distribuição musical atual, faz com que mais de 100 mil músicas sejam lançadas por dia. Obviamente, a distribuição destas nem sempre chegará ou terá sequer um público. Afinal, a palavra final é do capital que impulsiona – a mercadoria até o consumidor. Você por exemplo, pode não conhecer, mas a dupla piauiense NEGGS & YANGPRJ mostraram que quantidade e qualidade podem sim andar juntas. 

Prova disso é a trinca iniciática que os caras mandaram, em pouco mais de 1 ano, com 3 discos acima da média do que é produzido no boombap brasileiro. Libertador (2025), um dos dois discos lançados no ano passado pelos caras, deu prosseguimento ao anterior à estreia com “VTML (Vivos Traídos & Mortos Lembrados) 2024”. Se configurando como continuidade da violência sonora e lírica e expansão qualitativa de um universo cultural que começou a ser desenhado em “VTML”, disco do ano anterior. 

-Leia nosso primeiro artigo da série NEGGS & YANGPRJ, sobre o disco “Vivos Traídos & Mortos Lembrados”

Como nos contou YANGPRJ, metade do disco de estreia foi feito em um dia, com o bloco de notas do celular recheado, NEGGS terminou o disco já com “Libertador” rascunhado. E na passagem de 2024-2025 os caras meteram marcha para dar andamento no projeto, produzindo um dos discos mais interessantes do ano passado e que junto com o “Libertador PT. II” forjou não somente uma das melhores revelações dos últimos anos, mas uma das grandes trincas do rap feito no Brasil. 

Estamos falando de dois artistas jovens, e de uma entrada na cena já com três discos, em um cenário que trabalha no mais das vezes com números porém, números garantidos, viciados, em um jogo de cartas marcadas. “Libertador” repete o número de 13 faixas do disco anterior, no entanto dessa vez trazendo feat do Donai em duas das músicas. A produção do YANGPRJ também mudou na forma de mixar e masterizar, de resto são variações sobre os mesmos temas, expandidos e realçados por NEGGS. 

O “estoque de munição infinito” do MC piauiense segue variando em punchlines e em barras que quando ele cospe ou você corre ou faz aquela carinha de nojo. As repetições temáticas aqui sempre desenrolam uma diferença e um reforço político importante para o ouvinte. O ato presente em “Libertador” é o da busca pela libertação das contradições, da auto-afirmação sem máscaras moldadas pela busca de views e pela carapuça de bom moço. Se estamos diante de uma trilogia, ela é menos conceitual do que temática, é menos um prolongamento de uma longa história e mais, a busca pela construção de um território estético e profissional, próprio.

A capa de “Libertador”” traz a bandeira do Piauí em um desenho feito com giz de cera pelo próprio NEGGS, que também já tinha desenvolvido a capa de “Vivos Traídos & Mortos Lembrados”, utilizando a técnica da colagem. É bastante curioso, observar o desenvolvimento cultural e a forma de recepção atual, de uma arte nascida através do roubo criativo como o rap. No mercado e para consumidores, o que vale em especial é a mercadoria melhor acabada, mais luxuosa, porém esses mesmos critérios não valem para a arte. 

Uma bandeira hasteada na capa, com um jovem negro quebrando correntes e armado com uma AK-45 é de saída, uma declaração. As duas capas feitas de modo “artesanal” são muito bonitas pelas composições e pelos acréscimos de sentido que elas encarnam. Uma colagem de fotos em preto e branco em um disco com o título “Vivos Traídos & Mortos Lembrados” traz uma carga semiótica muito forte, representando a linha tênue entre vida e morte. O disco presentificando existências pretas, a arte como afirmação diante de um contexto histórico atual onde as estratégias de mortandade elaboradas por um estado brasileiro e suas tecnologias de exterminio negro, só cresce e se reafirma. 

Esse aspecto urgente e violento, se coaduna e encontra prolongamentos, na capa seguinte, e nas faixas que compõem o disco. Uma vez se afirmando como sobreviventes, NEGGS & YANGPRJ, lutam agora por libertação, não apenas sua, da dupla, mas coletivamente do seu estado. Neste sentido, visibilidade é conquista, é gesto político, deve ser sempre visto como um ato coletivo, vê-los – deveria ser óbvio – nos leva a buscar ver outros, algo que em geral as mídias não fazem, assim como o público. 

Uma vez nascido o monstro – diagnosticado por René Simões – em “VTML”, agora em “Libertador” ele já abre o disco buscando mostrar as contradições que não abraça e é interessante notar como são questões de gênero, de classe e raça, tudo muito bem imbricado. “Proversos” é uma intro no sentido real da palavra, entrega de saída boa parte do tom que será adotado no disco.

As duas pedradas seguintes, trazem beats muito bons do YANGPRJ, com o NEGGS produzindo um caleidoscópio de versos e temáticas que mesmo sem esfregar faz mágica. “Licença Poética” tem um sabor irresistível de freestyle, as citações às suas inspirações seguem de Skepta à Sant e traz um questionamento certeiro e também pouco feito: 

“A única forma de dizer que eu não sou top 3, é se rap for sobre views, verificado e chupar burguês. Quem são vocês, se tira o hype, tira a grana, quem são vocês? Se tira o controle da mídia, quem são vocês? Se tira o privilégio branco, quem são vocês?”

No mercado cultural às valorações e posições em ranking são sempre frutos de investimento, que dão acesso a artistas mostrarem seu trabalho e a valorização é consequência desse jogo. Um esquema que se retroalimenta, e que é habilmente questionado por NEGGS. Na faixa título, há uma reflexão muito profunda, sobre valores de paz consigo mesmo e com os seus, sobre como esses mesmos valores podem possuir outra construção para além da herança judaico-cristã. 

Sem ficar utilizando o candomblé como token ou capital simbólico, o MC piauiense mostra-nos sua cosmovisão de modo mais contida – “aceito Axé nesta prece” – em “Libertador” ele faz uma auto exegese. Nos convidando a refletir sobre nós mesmos. Algo que nos toca bastante, é a sua firmeza na visão e no jogo entre suas próprias referências. Se no primeiro disco havia uma clara menção ao Neymar, aqui há uma alusão muito complexa à noção de astro, estrela, celebridade, reforçando os “braggadocios” e levando eles para um outro local de entendimento. Tudo passa, só a arte e a postura sobrevivem.

Ao longo de quase 4 minutos de rima sem refrão, ele enfileira referências que terminam em simplicidade: vida tranquila e fugacidade. Em “Procurado”, na tensão do beat do YANGPRJ, NEGGS mostra que também tem qualidade na elaboração de um excelente storytelling criminal. O “falso” Interlúdio “2016” é mais uma com sabor de freestyle e abordando diversas questões de rua e visões sobre a vida. 

NEGGS
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Outra rajada e um dos melhores momentos esta na meiota do disco com “Ódio e Sonhos”, um resumo impactante do conjunto do trabalho da dupla até aqui, apresentado de forma visceral na entrega e nas rimas de NEGGS rima, alto nível. “Eu tenho que cuspir essas linhas para não ter que me entupir de droga”… Para um bom ouvinte, aqueles que são capazes de ouvir os subtextos, “Ódio e Sonhos” em seus 4 minutos e 9 segundos de rima compila desejos, força, referências, território, autoconsciência, visão política, capacidade lírica. Mas longe de refrear a vontade de continuar a ouvir, essa compilação como todo ponto alto da arte, nos leva a querer mais, a desejar mais. 

A arte de NEGGS & YANGPRJ possui essa característica presente em jovens artistas, onde a violência é a busca por expansão de um território existencial, Nietzsche chamou isso de “vontade de potência”. E no trabalho da dupla é possível ver em ato outra frase do alemão: “Só quem tem o caos dentro e si é capaz de parir estrelas”. É menos uma vontade de se diferenciar, mas sim uma necessidade de criar um universo próprio. 

Isso está presente em “Vermes & Leões”, onde ao mesmo tempo em que reconhece a humanidade de todos, o MC demonstra suas formas de auto domínio e auto realização, trazendo novamente o ambiente interiorano e natural em oposição a caótica e violenta urbanidade. São oposições com referências a espaços externos “campo x cidade”, mas também uma reflexão sobre o interior, os nossos valores e o espaço público, as disputas e violências a que somos submetidos.     

A metáfora do futebol retorna com “Florentino Pérez” em um beat sensacional, e o papo é de estratégia no jogo da vida, não essa bobagem de “game”, há muita diferença. E a diferença certamente está no entendimento das ilusões que perpassam tanto o mundo da vida como as do mercado da arte, e isso é trabalho feito com primor pelo NEGGS. 

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O MC piauiense Donai

O ano de 2025 foi intenso demais para o YANGPRJ tendo produzido diversos artistas, além da parceria do NEGGS, é de sua lavra trabalhos como o disco do pernambucano Mvrcxni, e os EP’s dos seus conterrâneos Badblack e Donai. Mais uma prova que quantidade não é antônimo de qualidade, bastando para o leitor ouvir os trabalhos acima mencionados.

O também piauiense Donai, deixa sua marca em duas das faixas finais do “Libertador”, dois momentos onde a parceria com NEGGS, apresenta ao ouvinte um MC competente, com linhas pesadas e flow nervoso. A leitura crítica da máquina social e política, azeitada pela arte da dupla, encontra o reforço do Donai, em “Engrenagem” e em “Oitão Nunca Sai de Moda”. Duas faixas fortes, onde o gangsta rap encontra uma estética mais underground na lírica. 

As produções do YANGPRJ no drill em “Barata Voa” e “Vitorioso” são exemplares e encontram NEGGS que mantém o clima do disco lá em cima. Brincando com o “racismo” e ressignificando o preconceito, NEGGS desfia punchlines Muhammad Ali: “Flutue como borboleta e pique como abelha”. Seja nos boombapzão, seja no drill ou mesmo no Trap que encerra o disco: “Não Quero Piedade”. 

Versatilidade da dupla em ofertar ao ouvinte um trabalho que não deixa dúvida alguma sobre a qualidade, sobre a força da arte e sobretudo sobre a lucidez diante da indústria. O movimento de expansão que YANGPRJ & NEGGS iniciaram é bonito de ver e ouvir, mas que necessita sobretudo de compreensão e reflexão, talvez principalmente pelo público local, artistas parceiros e produtores. 

Se por um lado, já estamos diante de um fato, onde a dupla passa a ser conhecida no eixo e no sul do país, é mais do que necessário o fortalecimento local e regional do trabalho dos caras. Assim como, de outros nomes da cena, o Hip-Hop enquanto cultura não pode depender única e exclusivamente de holofotes do eixo, assim como artistas do rap. É essencial que esse intercâmbio exista como expansão, mas a semeadura feita no território de origem precisa de atenção.  

Continua…     

-NEGGS & YANGPRJ, continuidade violenta e expansão do Rap feito no Piauí – PT. II 

Por Danilo Cruz 

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