NEGGS & YANGPRJ, arte e cultura Hip-Hop piauiense expandidas e renovadas, e agora?
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NEGGS & YANGPRJ, arte e cultura Hip-Hop piauiense expandidas e renovadas, e agora? 

Após 3 discos lançados, NEGGS & YANGPRJ expandiram e renovaram a arte e a cultura Hip-Hop piauiense, “Libertador part. II, o fim de um ciclo!

NEGGS
NEGGS & YANGPRJ

Em seu último movimento, a dupla de artistas piauienses NEGGS & YANGPRJ, lançou o disco “Libertador part. II”, no final do ano passado. Encerrando um ciclo que consideramos importantíssimo para o rap e a cultura piauiense, nordestina e brasileira. Neste trabalho, eles trouxeram participações do beatmaker Hanzzo, e dos MC’s Donai, GTA, Pete MCee e da MC Preta Cakau. 

Tendo ouvindo nos últimos meses constantemente os três discos da dupla, abordados nestes primeiros três artigos de 2026 no Oganpazan, sua sujeira e insubmissão violenta nos inspiraram não apenas a escrever, mas a repensar nosso próprio papel na cultura, nossos modos de produção e nosso conteúdo e forma. O trabalho de NEGGS & YANGPRJ, seus três primeiros discos são um ponto fulcral do que acontece hoje na cultura Hip-Hop brasileira.

Enquanto estava desenvolvendo as ideias para a escrita desses artigos, vi numa caixinha de perguntas do instagram, alguém questionando o NEGGS, se viriam mais 3 discos em um ano. Hoje, não nos preocupamos muito com as palavras que usamos, e consequentemente não damos o devido valor a trabalhos poéticos musicais, afinal são eles, os trabalhos poéticos, que podem redimensionar nossa forma de entender o mundo, ao redimensionar, inventar, ressignificar a linguagem ordinária, elemento que usamos para pensar o mundo. 

Pensamos o mundo através da linguagem, e com o lançamento de “Libertador part. II”, NEGGS & YANGPRJ nos ofertaram 41 músicas e exatas 2 horas, 4 minutos e 36 segundos de música autoral presentes nos três discos. A pergunta que deveríamos fazer é: de onde vieram esses aliens? Como eles se alimentam? Existem outros deles dentre nós? Como se reproduzem? Mas, sobretudo: quando tocarão na minha cidade? Para quem mora em Terezina, a pergunta poderia ser: Qual a agenda dos caras? Os ingressos são caros? Será que NEGGS & YANGPRJ estão bebendo água, bem alimentados, dormindo direitinho?

-Leia no site, o artigo que escrevemos sobre “Vivos Traídos & Mortos Lemrbados” 2024

A condensação de anos de vivência, estudo e a busca por se aperfeiçoar artisticamente, estão presentes em estado bruto na trinca: “VTML (Vivos Traídos & Mortos Lembrados)” – 2024, “Libertador” e “Libertador part. II” – 2025. É de fato, e de direito, um impressionante cartão de visitas lírico e sonoro, que renova e expande o rap feito no Piauí, mas e agora?  

NEGGS
NEGGS

O tempo da vida é diferente do tempo da arte, a maior parte das pessoas pretas e pobres em nosso país vivem em direção à morte, lutando para sobreviver e almejando viver com dignidade. Nos últimos anos, o rap se tornou uma possibilidade – ínfima – de conseguir ganhar dinheiro em pouco tempo, em alguns casos mais ínfimos ainda, de se tornar um milionário(a). Essa percepção criou um abismo entre o rap e a cultura Hip-Hop, abismo este preenchido e muito alimentado pelos streamings e seus números muitas vezes inflacionados artificialmente. 

A guerra de todos contra todos, em busca de reconhecimento, visibilidade e consequentemente retorno financeiro, é a tônica do rap atualmente, em detrimento da cultura. As redes sociais que prometiam descentralizar a atenção se tornaram mais uma ferramenta eficaz, para quem é capaz de controlar o algoritmo através de tráfego pago e fazendas de likes, de posts patrocinados e de matérias plantadas em perfis que pretensamente trabalham para a cultura, através da cobrança de jabá.

Os pensadores da cultura Hip-Hop – entendida aqui como crítica contracultural – jornalistas, escritores, MC’s, DJ’s, BBoys and BGirls, grafiteiros e pixadores, estão completamente atomizados, e em muitos – senão na maioria – dos casos trabalhando para o algoritmo, seguindo a forma e o conteúdo que dá certo. Não se escreve sobre artistas e trabalhos que não rendam dinheiro e ou likes garantidos, não se fala de nada que não esteja ou em vias de estar, no hype.

Há uma xenofobia explícita e facilmente observável em 99% por cento dos influencers e dos perfis/sites que supostamente tratam do rap brasileiro. Isso coloca toda a produção do rap feito no norte e no nordeste em um limbo eterno. Tudo o mais que sai dessas duas regiões ou é patrocinado por investidores ou foi fruto de décadas de trabalho muito árduo e de um qualidade impossível de ser ignorada junto a acessos e persistências. 

Essa mesma xenofobia gera também o auto ódio, uma auto depreciação de tudo que é feito em nossos próprios territórios. Que muitas vezes é mascarado como “Santo de casa, não faz milagre”, quando na verdade é fruto de uma política cultural onde música e turismo se misturam, onde o “gosto” é construído de dentro pra fora e curiosamente, em um nordeste muito rico em expresões culturais de todo tipo, o movimento é de fora pra dentro. Somos invadidos por turismo de massa, da mesma sorte que as músicas e filmes que nos chegam por escolhas do eixo. Somos um polo econômico, cultural e político que só funciona de fora pra dentro.

Falar sobre NEGGS & YANGPRJ, é falar sobre Bidu, Vandal, Teagacê, fujjjão, Cronista do Morro, Aganju, e sobre toda a tradição do rap nordestino. É curiosíssimo que o rap que tem o passado como uma de suas matérias primas essenciais, esteja constantemente o negando, que tem a cultura – elemento coletivo por excelência – Hip-Hop como seu fundamento, esteja sempre se individualizando e atomizado. Porém, quem estuda indústria cultural e suas relações com o supremacismo branco entendem que tudo que adentra ela – a indústria – passa por esse molho de quiboa. 

Ao mesmo tempo, a política de representatividade transformou negritude, feminilidade e lgbtqia+ é mera mercadoria intelectual e simbólica, logo criticar trabalhos ruins e ou inconsistentes, tornou o crítico em racista, machista e ou LGBTQIA+fóbico. O capital que inseriu por consumo em nossa sociedade, no processo político dos últimos 10, 20 anos, entendeu a lógica de mercado em tudo, na performance intelectual, artística, de gênero e sexualidade.

Nesse mercado, nordestino e nortista viraram mercadorias como tudo o mais, mas somente aquilo que se adequa às formas pré estabelecidas desse cenário, tudo o mais, cairá – assim como quem não tem patrocinadores – no regime de escassez e invisibilidade presente nesse regime. E é aqui que os 3 discos lançados “na tora”, por dois artistas do Piauí se insere, porque são o que não se espera de quem está em um estado com muito pouca visibilidade no cenário nacional. 

O ato final do “Libertador” nos leva a considerar o conjunto da obra até então, o conjunto apresentado pela dupla NEGGS & YANGPRJ. Já falei que “VTML (Vivos Traídos e Mortos Lembrados)” de 2024 e o primeiro “Libertador” abriram caminho e plantaram algo muito forte, muito diverso, que deu frutos muito palpáveis. Juntos a dupla mostrou um desenvolvimento sonoro e lírico completamente autoral, criando um universo próprio, desenhado de modo autêntico e imprimindo muita força em um trabalho construído em parceria.

YANGPRJ

Infelizmente no Brasil e em boa parte do mundo, não se entende que no campo da arte não existe evolução. Neste sentido, os dois artigos anteriores e este atual não estão interessados nessa noção frágil e irreal de evolução entre os trabalhos, antes, estamos mais preocupados é em como tanto NEGGS como YANGPRJ mantiveram a qualidade na produção de um violência certeira com capacidade de abordar os temas em constante variação. Isso já presente na “INTRO Medo de Chegar”, que abre o disco “Libertador, part. II”.

A tensão abre o disco com uma reflexão potente sobre a necessidade de postura dentro da cultura Hip-Hop, sobre o punitivismo virtual e também sobre o “consumo” da música preta por racistas. A capacidade de produzir ligações ao longo de todo o trabalho – os 3 discos – também atravessam o mesmo disco, basta observar a fricção proposta pelos versos da segunda faixa: “Segunda Caixa” e o título da faixa 5: “CLT Construção Literária”: 

“Nessas linhas eu vou deixar minha alma, por todas as vezes que eu dormi cansado, depressivo, acabado, esquecido, humilhado. Mas mantenho a fé no sagrado, atrás da glória da segunda casa, vários sonhos foi vários talentos, que eu já vi morrer na carteira assinada”

Os versos acima, presentes em “Segunda Caixa” rimadas com um flow calmo, nos remete a uma crítica de como ainda hoje em nosso país, fazer arte é um luxo para poucos, viver de arte, mais ainda. Algo que será retrabalhando e resignificado em “CLT Construção Literária” produzindo um “curto circuito” e nos impulsionando a pensar na amplitude do Rap como este campo de possíveis, de um outro horizonte de possibilidades para o nosso povo. 

A faixa brinca com isso em sua própria forma, ressaltando as diferenças culturais e mesmo sócio políticas entre EUA e Brasil. O beat do YANGPRJ com um sample de sax e com beat bem cadenciado é abordado pelo NEGGS, de dois modos distintos, exemplificando na prática que vida pode ser pensada de um modo mais rico. “A vida é CLT: Construção Literária”. Não se trata de fantasia, mero exercício imaginário, mas do entendimento urgente, de que narrativas são montadas para nos fazer compreender o mundo de modo alienante. 

E isso é exemplificado em diversos momentos de suas letras, como na faixa “Metódico” onde o MC faz uma crítica – que parece que saiu de moda – a gravidez na adolescência, que mesmo no século XXI permanece como um sério problema em nosso país. Ao mesmo tempo em que imprime críticas sociais, NEGGS também ressalta seus próprios problemas pessoais, suas angústias, medos e aflições, como em “Memórias”, que traz o feat com o carioca GTA, que chega pesadão nos versos, colaborando para enriquecer a faixa. 

A faixa homônima, “Libertador part. II” é uma paulada de mais de 5 minutos, sem refrão, onde NEGGS exercita com muita qualidade, quilômetros de versos onde pondera e apresenta visões variadas sobre postura. Em um cenário onde muitos atuam com personagens públicos mas na encolha reproduzem violências das mais diversas, NEGGS direciona a sua metralhadora lírica e nomeia os tolos. E complementa as críticas com suas buscas na faixa seguinte: “Interlúdio Utopia”. 

Muito importante notar o quanto os temas se atravessam ao longo das faixas em “Libertador part. II”, procedimento repetido com sucesso nos três discos. Pois, enriquece as faixas com uma visão caleidoscópica diante de uma realidade tão turbulenta quanto é possível para um ser crítico, jovem negro e periférico. A batida seca em “Fotografia de Guerra” é um dos vários exemplos desse procedimento. 

Com a participação de um dos grandes nomes contemporâneos da forte e tradicional cena de Curitiba, “Um Homem Simples” traz um feat pesado com o Pete MCee. O conterrâneo Donai chegou novamente em feat na “Chico Buarque”, onde juntos os manos chamam atenção para as especificidades da poesia no rap, a faixa também traz a colaboração do beatmaker Hanzzo. 

-Leia no site o artigo que publicamos sobre o disco “Libertador” 2025

A diversas menções ao amor preto ao longo dos trabalhos do NEGGS, e em “Amor dos Deuses” é esse o tema, trazendo “Preta Cakau”, MC que rima com desenvoltura versando sobre amor, sexo e o mais importante: cumplicidade. E o disco se encaminha para o final com o funk “Toda Boa”, o drill “Virei Playboy”, o trap “Sem Assunto Freestyle” e mais um funk com “Neguin Pureza (Bônus Track)”. 

Repetindo o mesmo procedimento ao longo dos três discos, NEGGS & YANGPRJ preenchem o final dos discos de boombap com outras sonoridades, e mesmo assim, mantém a qualidade lírica e sonora. Cantando e comprovando a versatilidade da dupla. Demonstrando também que o Hip-Hop pode e deve habitar quaisquer que sejam as sonoridades onde um MC rima, ou simplesmente não é parte da cultura, e que criticidade pode cohabitar quaisquer temas. 

Chego com este artigo, ao fim de uma jornada que começou em uma troca de ideias com o meu mano Rodrigo Ogi, onde conversamos sobre como o underground e a qualidade lírica, o boombap segue vivendo e produzindo a despeito da pouca atenção midiática e da pouca abertura no mercado. Ogi me indicou o disco “Libertador” da dupla NEGGS & YANGPRJ como exemplo do que tratamos, e não podia ser mais certeiro. 

De lambuja me abriu os olhos para não apenas o trabalho da dupla piauiense, como rizomaticamente me levou a Pernambuco, e a outros artistas do Piauí, assim como me fez reencontrar o Pete MCee. E é assim que enriquecemos uma cultura, nos ligando ao máximo possível de artistas, de regiões e formações distintas, ao contrário dos amantes de famosos, que só reificam a indústria cultural. NEGGS & YANGPRJ fizeram a parte deles, nós estamos fazendo a nossa, procure saber.    

-NEGGS & YANGPRJ, arte e cultura Hip-Hop piauiense expandidas e renovadas, agora? 

Por Danilo Cruz 

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