A bateria é um instrumento complexo. Sua função, estruturalmente, é dar forma e ritmo para que os outros instrumentos construam suas linhas, sempre como um ponto de encontro na bateria. Em função de nomes como Gene Krupa e Buddy Rich, pelo menos no Jazz, os ouvintes estão mais habituadas a verem a bateria no primeiro plano, liderando.
Quem veio da escolástica do Jazz consegue ver na bateria, mesmo que sozinha, a mesma riqueza de uma orquestra completa. Essa ideia de que um kit não pode soar melódico é muito ultrapassada e, para que o mundo entenda isso em plena modernidade, chamaram o Nate Smith para um workshop.
Nate Smith na bateria
A bateria do Nate Smith possui 3 pilares: Groove, sentimento e técnica. Dentro desses nortes, acredito que ainda esteja pra nascer um batera que faça frente ao que o norte americano constrói, ainda mais em kits compactos, como os que ele faz uso.
Não me leve a mal, é plenamente possível destacar grandes bateristas da cena atual, como é o caso do Anderson Paak e do Trevor Lawrence Jr, por exemplo, mas nenhuma dessas comparações seria justa, pois nenhum deles gravou um disco poderoso o suficiente para questionar o papel da bateria num contexto de liderança, não só dentro uma banda, mas sim do instrumento de maneira geral.
Track List:
“Get Down, Get Down”
“What It Do”
“DumDum”
“Day and Dusk”
“‘Spress Theyself”
“Ghost Thud (For Mr. Allen)”
“Warble”
“Big/Little Five”
“Paved”
“Warble: Reprise”
“So Be It”
Pocket Change
Terceiro disco de estúdio do baterista, “Pocket Change” caiu como uma bomba no cenário mainstream. Lançado no dia 28 de setembro de 2018, via Ropoadope Records, esse projeto chega como quem não quer nada, mas após pouco menos de 35 minutos e 11 temas no mínimo desafiadores, deixa o ouvinte perplexo.
O plano foi o seguinte: Nate levou sua bateria ao estúdio e improvisou 11 grooves. A ideia central foi desenvolver improvisos com base numa temática onde o groove seja o contexto para que se possa criar uma história. À partir daí, cada tema vai se desenrolando e apresentando camadas melódicas, rítmicas e que mostram o completo arsenal do baterista, sem desconsiderar a parte harmônica.
É um exercício muito interessante. A cada som, Nate parte do zero e surpreende os seus ouvidos, faixa após faixa, ao criar verdadeiros universos inteiros, partindo de frações de linhas que fazem o ouvinte balançar as cadeiras com o mesmo vigor de um groove feito por um grupo de 10 peças.
Ele tira leite de pedra. É notável relembrar que o trampo que antecedeu esse registro, o excelente “Kinfolk: Postercards From Everywhere”, lançado em 2017 vinha com uma sonoridade exuberante, mas com um objetivo estético e musical, completamente diferente desse aqui.
Um dos motivos pelos quais o Nate Smith virou “o cara” pra se acompanhar quando o assunto é bateria é justamente essa pluralidade de projetos que o circundam. No Fearless Flyers ele manda um Funk patético, tirando um som assustador de um kit de bateria que mais parece o set da Hello Kit. ao lado do Kinfolk, o que dá o tom é um Fusion moderno, mas com esse disco o cidadão subiu a régua para outro patamar.
“Pocket Change” é um dos melhores discos lançados nos últimos anos e não apenas por ser um projeto de estúdio de bateria solo. O que torna esse disco intrigante e desafiador é que, principalmente neste contexto contemporâneo, poucos foram os bateristas capazes de gravar um projeto que confrontasse o atual papel do próprio instrumento.
Uma aula magna sobre rudimentos, subdivisão, precisão técnica e sensibilidade, os 11 takes desse disco revelarão um baterista ainda mais técnico, com uma percepção musical ímpar e um tato raríssimo, principalmente para fatiar o tempo nas subdivisões. um disco todinho só de baquetas, caixa e um groove que, como diriam os americanos: “It’s tight as shit”.
Em temas como “Express Theyself”, o groove da batera é difícil de acompanhar até com o dedo. “Big/Little Five” revela o quão sentimental e expressiva uma levada de bateria pode ser. Uma grande experiência auditiva, esse disco confronta todas as tendências mercadológicas e mostra como é possível ser relevante em qualquer instância, desde que ela tenha groove. Nate Smith, senhoras e senhores.
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