O que Aretha Franklin, Candi Staton, Arthur Alexander, Percy Sledge, Duane Allman, Clarence Carter, Wilson Pickett e Etta James tem em comum? Além do imenso talento musical esse panteão de verdadeiros deuses e deusas da música compartilharam um espaço comum.
Neste local todos eles tiveram pontos de virada em suas respectivas carreiras artísticas. Um lugar cheio de mística que envolve a ancestralidade indígena, uma natureza exuberante, a tranquilidade e a paz de uma cidade do interior, além da mistura inter-racial em plena luta dos direitos civis nos Estados Unidos. Estes são apenas os ingredientes mais proeminentes desta história fascinante que o diretor Greg ‘Fredy’ Camalier nos conta através do excelente documentário Muscle Shoals lançado em 2013.
Muscle Shoals é uma cidade localizada no condado de Colbert no estado do Alabama. Muito pequeno, com não mais que 15.000 habitantes, o lugar é rodeado de uma beleza natural exuberante, cortado pelo rio Tennesse que, dizem alguns, se prestarmos bastante atenção podemos ouvir a música que carrega em suas correntezas. Ali Rick Hall fundou o lendário estúdio Fame, responsável pelas gravações mais famosas dos artistas acima citados e de centenas de outros. Garoto criado numa fazenda nos arredores de Muscle Shoals, Rick passa por diferentes tragédias ao longo de sua vida. Porém, nunca desiste de buscar o som mais perfeito possível. Inicialmente recruta para essa tarefa um grupo que formaria a banda de apoio do estúdio, grupo esse tão importante quanto desconhecido dos apreciadores da boa música ao redor do mundo.
Os Swampers foram responsáveis por forjar uma sonoridade arrebatadora! Criavam um Soul funk que se moldava ao gosto do freguês. Também estavam sempre produzindo arranjos de sucesso nos estilos do que se convencionou chamar Deep Soul e também Southern Soul. A forma de trabalho da banda também era um importante diferencial. Ao contrário dos Deep Brothers da Motown, os Swampers começavam os trabalhos em pequenas jams. Faziam isso até conseguirem junto com Rick Hall encontrar um ponto que agradasse a todos e dali pudessem partir para lapidar os singles de sucesso. 
Conta-se que na primeira ida de Wilson Pickett ao estúdio Fame, o cantor saiu de lá com cinco dos seus maiores singles. É deles a sonoridade arrebatadora de Respect da Aretha Franklin. Até então Aretha era considerada uma boa cantora, mas foi dali em diante que passou a ser conhecida como a Queen Of Soul.
Este envolvimento e camaradagem, diferentes do que então se tinha entre negros e brancos no Sul dos EUA, causava problemas fora do estúdio. Afinal a pequena população da cidade, assim como a grande maioria dos brancos (então governados no seu estado pelo segregacionista George Wallace), não toleravam ver aquela turma animada comendo ou comemorando juntos. Outro aspecto curioso é a banda branca dos Swampers ser requisitada por artistas negros que ouviam os discos ali produzidos. O interesse pelo som dos Swampers deixa claro que quando o racismo e a mera apropriação cultural não ocorrem, podemos todos cair numa zona de indeterminação em que somente os afetos contam.
Daí surge uma das questões mais importantes levantada pelo filme: como e sob quais circunstância um estúdio, um local de gravação pode imprimir uma aura extremamente diferente as suas gravações? Afinal sabemos que um artista pode gravar sua obra prima em casa, em qualquer lugar. Grava com alta ou com baixa tecnologia, com 2 ou com 24 canais e os resultados podem ser geniais. Porém uma pergunta persiste: o que forja o som do blues de Chicago, tal como o gravado pela Chess Records? O que faz de Nova Orleans o berço da música negra americana? Porque os singles da Motown eram sempre sucessos de venda e essa gravadora produziu artistas como uma linha de montagem? O que faz a Stax ser o que ela é, e ser diferente enquanto gravadora da própria Motown? O que torna possível a sonoridade inconfundível do Studio One na Jamaica? São muitas as variáveis concorrentes para que se imprima uma marca, uma unidade sonora que perpasse artistas e obras díspares.

Me parece que no caso do Fame, foi a mágica criada entre a figura forte e imponente de Rick Hall e a qualidade musical e juventude dos Swampers quem produziu essa marca registrada. Capaz de atrair a partir da metade dos anos 60 até os dias de hoje artistas dos mais diversos gêneros musicais. Todos migrando para lá em busca desse lugar bonito, tranquilo e capaz de produzir músicas com um altíssimo nível de qualidade.
O Fame, por fim, foi desmembrado e os Swampers aventuraram-se num estúdio próprio em Muscle Shoals. Conseguiram escrever seu nome na história da música americana e mundial. No entanto, Rick Hall não desanimou e saiu a procura de outra banda. Conseguiu formá-la e continua até os dias atuais com seu perfeccionismo buscando incessantemente os sucessos que nunca cansou de produzir.
Greg ‘Freddy’ Camalier já no seu primeiro filme nos presenteou com um documentário muito importante sobre uma instituição da música mundial. Com fartas imagens da época, depoimentos importantes de quem por lá esteve ou de quem foi influenciado por aqueles discos. Soma-se a isso os lindíssimos planos da exuberância natural da região. Ou seja, o documentário Muscle Shoals é sem sombra de dúvida fundamental para quem curte a música negra americana da segunda metade do século XX.
Diretor: Greg ‘Freddy’ Camalier
Ano de lançamento: 2013
Estrelando: Aretha Franklin, Alicia Keys, Bono, Jimmy Cliffy, Keith Richards, Mick Jagger, Earl ‘Peanutt’ Montgomery, Ed King, Etta James, Gregg Allman, Tom Hendrix, Wilson Pickety, Wilson Crazyhorse
Danilo
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