Matheus Coringa lança Loops Abissais (2021)Gerando luz própria no meio do underground, com nabru, Sergio Estranho e mais…
O oceano é comumente chamado de “a última fronteira inexplorada” da Terra. A zona abissal, como é chamada aquela localizada abaixo de dois mil metros de profundidade onde nem a luz do Sol chega, abriga diversas criaturas estranhas.
Quando vi o nome do novo álbum do Matheus Coringa lançado hoje (26), Loops Abissais, imaginei que poderia esperar um disco com referências nesse sentido. O MC, que já é um nome de peso na cena under brasileira, apresenta mais um álbum que foge totalmente da curva e do senso comum que você pode encontrar em outros rappers.
Sombrio e sujo, Loops Abissais veio pra mostrar que Matheus Coringa segue fazendo seu trabalho no hip-hop de forma coesa e te fazendo mergulhar num emaranhado de ideias que precisa ser sentido para ser apreciado.
Com 10 faixas, esse é o primeiro disco no qual os beats não são do próprio MC. Essa parte ficou por conta dos manos NoShugah, Ianco, DJ Tadela e também de Pedro Campoy, responsável pela produção do disco. A ilustração da capa e contra capa foram feitas por Marcílio Pires e a edição e finalização por Eduardo Da Matta
Logo no início de Loops Abissais, em Kaiju (uma palavra japonesa que costuma se referir a “monstro”), Coringa coloca pra fora toda a desesperança e cansaço de quem já não enxerga muita solução para a situação atual. O som também tem algumas referências claras à série Mr. Robot, famosa por mostrar a anarquia como um caminho para mudar o mundo e fazer justiça. “Cada rima é um precipício que eu pulo de cabeça e não importa o que aconteça, do inferno eu não passo. Se bobear, eu me destaco lá” é, para mim, um dos melhores versos do álbum. Kaiju é sobre não fugir quando o abismo olha de volta pra você.
Na faixa VHS:1tempo, que conta com a participação da brilhante e queridissima bruxona do under nabru, a sensação de estar imerso começa a aparecer quando a mesma canta “já faz um tempo que mergulho na minha mente pescando coisas que me deixam ansiosa. e quase sempre eu não preciso delas, os meus fantasmas todos tem meu rosto”. VHS:1tempo soa como um convite a repensar a angústia que a gente sente diante do escuro, afinal, no contexto em que estamos (sobre) vivendo, quem não está mergulhado em questões internas está mal informado.
Já a faixa Stolichnaya, uma das minhas favoritas, não contém referências tão claras às zonas abissais como as outras faixas. É uma faixa mais íntima, já que as rimas sobre a vodka, por exemplo, são para sua companheira. Entregando versos sinceros, fica claro o desejo de explorar outras vivências ao mesmo tempo que entende que a imensidão e a solidão assustam. Outro ponto é que o artista se mudou do Rio de Janeiro para São Paulo recentemente e se mostra aberto nesse processo de cair no abismo e sustentar as próprias decisões sem medo, o que faz bastante sentido.
A partir daí o álbum ganha uma nova cara, como um Lado B. Se o Lado A traz letras mais auto-reflexivas, no outro lado, as faixas são ainda mais sarcásticas e ácidas (como já conhecemos), brincando mais com o underground e com a ideia de estarmos todos submersos na nossa própria escuridão. Motivos não faltam, afinal, com a atual situação do nosso país, todo dia alguém desperta o que temos de pior. A grande questão é não fugir disso, mas sim saber organizar essa revolta para que se torne algo produtivo,
revolucionário. Da mesma forma que há a escuridão, há a luz, há a aceitação e é aí que o conceito do álbum se apresenta de forma bastante concreta.
Em Bioluminescência, Matheus Coringa brinca com o fato de que, onde a luz do Sol não chega, os seres abissais acabam produzindo luz própria, que serve tanto para se protegerem de predadores como também para atrair presas. “Quero a morte do Estado, lambe botas nós cata (…) minha luz é a escrita” é exatamente sobre canalizar a própria luz no meio da escuridão (que pode assumir diversos significados).
Em CalmotipoGodzilla, quarta faixa do álbum, Matheus Coringa brinca com o sarcasmo (como de costume, do jeitinho que a gente gosta) quando convida o ouvinte a “fingir que a cena não fede a farsa”. Versátil como Godzilla, aqui Matheus Coringa confirma que não é facilmente dominado. Com um beat pesadíssimo e uma ideia bem avançada sobre o empoderamento de quem vive pela cena underground, acredito que seja um dos maiores destaques de Loops Abissais, pois entrega a sujeira que os ouvintes fiéis esperam e gostam e confirma que o underground segue resistindo, apesar dos pesares.
Nightvision reforça a estética suja e despreocupada de forma bem humorada com as participações de Sérgio Estranho e El Mandarim. A faixa tem um toque especial: algumas falas de Mano Brown sobre quem tá na cena por amor e quem tá por dinheiro. Sutil, né?
A ideia continua a ser desenvolvida em Um9-9.5 é o terror, na qual o MC é apresentado ao público e afirma “nasci antimatéria e criei o Inferno de Dante”, deixando claro que ele sabe bem sua importância no meio que ocupa, mas também que sua obra soa como um enigma
para muita gente. Na sequência e finalizando a obra, a faixa 0,005mL vem como um respiro na atmosfera densa do álbum, trazendo referências ao LSD e dando aquele alívio de viajar de volta para a superfície e enxergar as coisas de forma diferente depois de um tempo submerso em si mesmo.
A escrita de Matheus Coringa consegue misturar sua forma de contar histórias e enxergar as coisas ao redor e encaixar isso numa temática que te faz sentir imerso. Loops Abissais prende a atenção sem esforço. O artista passou por um período complicado na vida pessoal e o novo álbum deixa claro que a fase boa está de volta. Segundo o próprio MC, ele vai aproveitar esse momento para engatar uma série de novos lançamentos para compensar o tempo sem. Já estamos ansiosos para apreciar os próximos trabalhos já que a pausa claramente fez muito bem ao artista.
Loops Abissais está disponível em todas as plataformas digitais e você pode sacar esse álbum de peso no underground aqui!
-Matheus Coringa mergulhando sem medo em Loops Abissais (2021) (1)
Por Gabriela Santos
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