Marvin Gaye tem um clássico comemorando 50 anos, um ao vivo dele nas plataformas, além de um petardo instrumental lançado esse ano!
Um dos artistas mais importantes da história da música, dono de uma discografia genial e importantíssima para a música negra americana, Marvin Gaye também tinha o desejo de ser visto como mais do que um excelente cantor de standards e sucessos pop. Um dos grandes intérpretes da música no século XX, dono de um timbre vocal e de um ataque inconfundíveis, o artista tem o seu clássico What’s Going On (1971) comemorando 50 anos de seu lançamento.
Mas, para além desta comemoração, se você como nós é um grande admirador da imensa obra do Marvin, temos três motivos para reativar – em algum momento ela não esteve ativa – nossas memórias afetivas. Para além, do oba oba que datas comemorativas geram, temos três excelentes obras para indicar que vocês ouçam com atenção nesse 2021, e todas elas estão interligadas. e certamente se você não as ouviu ainda é a hora!
O disco original, lançado há 50 anos é uma obra que reverbera ainda hoje e com bastante força na cultura mundial, no ano passado pudemos ver a força que esse disco ainda possui, na sua inserção durante o filme Destacamento Blood (2020) do Spike Lee. Porém, durante o lançamento do clássico What’s Going On, o artista ainda não tinha se recuperado da recente e precoce morte da sua amiga e também cantora Tammi Terrel com quem lançou um outro álbum importante.
O disco What’s Going On é o precursor de uma outra abordagem na soul e na funk music, mas não houve turnê de lançamento desse disco por causa do luto do Marvin. Porém, esse disco é curiosamente uma espécie de irmão gêmeo do movimento cinematográfico que então nascia e chegava ao sucesso: a Blaxploitation. Temos aí, um momento de experimentação cinematográfica e tomada de posição política que reverbera a emergência da luta pelos direitos civis e a busca por dignidade, na indústria cultural. O próprio Marvin Gaye, gravou alguns anos mais tarde a trilha sonora do clássico Trouble Man.
Em 2021 o disco ganha edição comemorativa de 50 anos já presente nas plataformas digitais e segue sendo um documento histórico e um obra de arte incontornável para quem quiser entender os rumos da política, da luta pelos direitos civis e a música nos EUA. Abordando a situação dos negros americanos em solos estadudinenses, em meio a guerra do Vietnã e a contra cultura, Marvin Gaye produz um disco tocante, cheio de questionamentos aos rumos da existência negra. Rompe com o formato de canções pop, rápidas e de balanço contagiante, fixando seu groove num disco que vai muito além de um mero panfleto político para alcançar a plenitude do sublime.
Somente no ano seguinte Marvin Gaye iria apresentar o seu clássico absoluto ao vivo e para nossa sorte, o disco também está nas plataformas digitais, What’s Going On Live (2019) registra a única apresentação no Kennedy Auditorium. Curiosamente, ainda naquela altura a apresentação aconteceu por conta da insistência de sua mãe, e assim conseguimos o registro dessa obra prima, ao vivo. Ainda na primeira faixa desse disco emocionante, enquanto entoa um medley poderoso, Marvin não deixa de citar a sua amiga Tammi Terrell e é certamente um documento doce da história desse homem e da cantora.
Chegou também às plataformas digitais um disco que talvez passe batido por você mas que deveria ser observado com atenção: Funk Nation The Detroit Instrumentals (2021). Apesar de estar sendo lançado esse ano, o álbum foi todo gravado naquele conturbado 1971, e já tinha tido algumas faixas dessa sessão de estúdio lançadas como inserts dentro de outras edições comemorativas do clássico What’s Going On; Em meio ao seu luto e não tendo saído em turnê, Marvin Gaye se trancou nos estúdios da Motown com uma turma da pesada para fazer aquilo que sempre almejou: Música de qualidade.
O disco composto por 14 temas instrumentais não são meras sobras de estúdio senão, um exercício muito prolífico e criativo da verve musical de Marvin Gaye. O mercado da música muitas vezes é responsável por podar os desejos mais profundos mesmo de um autor do nível de Marvin Gaye.
Nesse sentido, 50 anos depois temos acesso a um músico, compositor e cantor em pleno exercício livre da sua criatividade, seguindo o groove, arriscamos a dizer, como ele é mais puramente, sem palavras. Não se trata aqui de desvalorizar ou acreditar que o canto não seja parte efetiva do groove, obviamente isso nos colocaria em contradição com a própria obra do Marvin. No entanto, é sempre bom lembrar que a música prescinde das palavras, não necessariamente do canto, e muitas vezes o cantar coloca a música em cheque, pois a aprisiona em fórmulas para o agrado do público médio.
Essa Funk Nation e seus instrumentais provindos de Detroit jogam-nos numa espiral de não sentir falta do canto divino do Marvin Gaye, e nos convida a percebê-lo como o excelente músico que também era. A imersão no estúdio se deu com uma banda de responsa composta por Hamilton Bohannon nas baquetas, Ray Parker Jr. o grande Wah Wah Watson e Leroy Emmanuel nas guita e Michael Henderson segurando o groove no baixão. Um registro de 42 minutos de pura grooveria, riquíssimo nos arranjos, flertes com o blues e temas que farão seu corpo se mover sem querer.
Ficamos aqui com essas três dicas para comemorarmos e lembramos esse gigante da música, um homem que carregou graves feridas de sua criação por toda a vida, mas que nos legou uma das mais sublimes obras da música do século XX. Suas dimensões eram infinitas como compositor, como instrumentista e como cantor, precisamos fazer-lhe justiça e buscar cada vez mais entender cada uma delas!
-Marvin Gaye em três momentos 50 anos depois
Por Danilo Cruz
Danilo
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