A quarentena foi o berço para inventivos projetos autorais da cena instrumental nacional. A Mariana Oliveira transformou sonho em realidade.
A música instrumental – para este que vos escreve – sempre foi uma terapia. Funciona como uma espécie de resposta para os excessos do mundo. O caos da correria cotidiana, do escarlate sangue nos olhos que mantém a roda do moedor de gente girando. Trata-se de uma espécie rara de utopia sonora, que como num transe, encanta o ouvinte sem ao menos precisar usar uma palavra sequer.
A música instrumental ensina a ouvir. Não só quem a produz, mas também quem a escuta. Ela mostra caminhos e questiona os meandros de um acompanhamento vocal que aqui é simplesmente silenciado, e sempre sem prejuízo algum às experiências sonoras.
Sempre vi o meandro do groove instrumental como uma espécie de clã de últimos moecanos. Uma espécie que está longe de estar em extinção – ainda mais aqui no Brasil – onde a cena Jazz/instrumental tira leite de pedra para mostrar sua verdade ao maior número de pessoas, mesmo ocupando um nicho do mercado.
E é nesse cenário ingrato que esses samurais conseguem produzir registros contundentes, ainda que num contexto majoritariamente independente e caótico de pandemia. É como diz o Criolo: “artista independente leva no peito a responsa, tiozão, e não vem dizer que não”.
Foi fazendo valer as palavras do alquimista do Graujauex, que projetos coesos como o EP audiovisual da Mariana Oliveira Quarteto, foram possíveis. “Sonhando em Quarentena“, lançado no dia 13 de maio de 2021, com exclusividade aqui no Oganpazan – via Lei Aldir Blanc – é um registro que acopla as composições do quarteto formado por Mariana Oliveira (saxofone), Ará Kedikian (baixo), Renato Pestana (bateria) e Emanuel Hilgenberg (guitarra), à um excelente trabalho audiovisual, feito com muita sensibilidade, inteligência na edição e approach documental – pela produtora Orsu Filmes, com direção de Adriano Caron e assistência de Pedro Macimo.
O set (gravado ao vivo), prima por conseguir trazer 4 músicos em ascensão no cenário e por mostrar a força do Jazz contemporâneo nacional. É a música improvisada, num combo onde o instrumental ganha fôlego renovado, graças aos ricos diálogos que são protagonizados em cada uma das 8 faixas que permeiam o lançamento.
Uma fuga de São Paulo, um respiro em meio ao asfixiante momento que assola o Brasil, esse trabalho foi um momento de reflexão musical e paz de espírito para os integrantes da banda. Gravado sob as relvas psicodélicas do Simplão de Tudo (Salve Cris!), na quase terapêutica região de Mogi das Cruzes, o EP foi bastante beneficiado por essa renovação de ares. O som aqui é arejado, sinuoso, leve e mostra um aguçado faro de composição por parte do grupo.
Válido ressaltar que a parte da finalização do áudio foi feita pelo engenheiro de som Zeca Leme, do BTG Studio, um ponto de suma importância para a devida apreciação do projeto da Mariana Oliveira. O trabalho do Zeca foi cirúrgico e possibilitou que cada detalhe fosse trazido de maneira vívida na mix, até mesmo as ambiências da captação ao vivo.
O som começa a reverberar com uma composição da Mariana, logo a faixa que nomeia o trabalho. A tessitura dos instrumentos e o entrosamento do quarteto, viabiliza uma música de vasto pantone. Todos os instrumentistas promovem intervenções no som à todo momento, mas a unidade das composições permanece sólida. A dinâmica valoriza o lirismo do saxofone e conversa muito bem com as melódicas e precisas guitarras de Emanuel Hilgenberg.
A cozinha é segura. Renato Pestana coloca seu vocabulário pra jogo e mostra caminhos interessantes, tanto na condução, como também como solista e compositor, na bateria. O baixo blinda o som com a firmeza necessária na hora de sincopar os grooves.
A sequência é uma homenagem ao Simplão, um tema de composição conjunta que sintetiza um pouco do prazer que foi registrar esse som, não só nesse momento, mas também nesse lugar. O formato de documentário dá espaço para os músicos comentarem sobre o processo e o grande lance é que esse material possui várias saídas não é só ouvir, é também ver a música.
O audiovisual valoriza a narrativa e execução do combo faz o resto. Em temas como “MMO” – composição de Renato Pestana – a emocionante introdução do Jazz Bass de Ará Kedikian é a deixa para mais uma amostra do equilíbrio desse coquetel Jazzístico.
Todos se complementam e trabalharam para construir um clímax sem soberba individual. Essa abordagem beneficia o som e está presente em cada interação. Em “Com Máscara”, tema de Ará Kedikian, o baixista mostra o requinte na levada de quem também tem o feeling no rabecão acústico. Pra ouvir de terno, mas de chinelo havaiana com tirinha azul bebê também serve. Representatividade é tudo.
Bom, outra questão importante de mencionar é que apesar de ser um EP, “Sonhando em Quarentena” mostra e valoriza a eloquência de cada um dos músicos. O tempo de duração é compacto, mas o projeto revela muito sobre o som e os indivíduos. Em “Desenfreado” – composição da líder da banda, Mariana Oliveira – o Baião vem com um brilho insular para encapsular o Jazz. A acentuação da bateria nessa track é um deleite.
O guitarrista Emanuel Hilgenberg é um ponto chave no tema seguinte. Dono de um som com bastante luz própria e facilidade para construir atmosferas imersivas, o tímido condutar das 6 cordas se conectou com o clima bucólico do cenário e se sentiu em casa – apesar de ser natural das montanhas de Visconde de Mauá – para compor uma das passagens mais marcantes do trabalho.
Esse “Jazz de Minas” mostra a todo o cuidado para cunhar a identidade deste EP autoral. O som valoriza a beleza dos detalhes e a improvisação, o cerne do Jazz. É nessa abordagem, livre e que viabiliza a energia fervilhante das ideias que surgem no ato, que o quarteto entra nas intrincadas frequências de “O Tempo”.
Sentimento, técnica e execução. Esses são os pilares desse Jazz. É o que permite que 4 instrumentistas coexistam num mesmo espaço sonoro e toquem com a liberdade e a humildade de quem quer apenas fazer música. É uma conexão à parte e a maneira como eles se comportaram – sem amarras estéticas – abre espaço até espaço pra uma ideia com approach de de Big Band, dessa vez em “Chronosphera”, outro tema de Emanuel Hilgenberg, o derradeiro desse debutante.
A música é criada por pessoas capazes de nos fazer embarcar numa viagem. É como ouvir o Villa Lobos tocando “O Trenzinho do Caipira” e não se imaginar sentado no vagão, com seu corpo emoldurado pela vibração dos trilhos.
É impossível apertar play e não ser transportado para um outro mundo, talvez um novo plano de ideias possíveis e que carregue um frescor para diluir a densidade de quem faz arte em tempos tão cinzentos.
Mariana Oliveira Quarteto, senhoras e senhores.
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