Marcola é a Pedra que Ronca de Itapuã: Os Últimos Filhos de Sião(2020) , terceiro disco solo do rapper baiano em dois anos, é um atentado
Já falamos aqui da importância do território e da verdade de uma caminhada para legitimar uma caminhada dentro da cultura do hip-hop. O bairro de Itapuã é nacionalmente conhecido pelas composições de Dorival Caymmi e por ter sido o bairro bucólico onde Vinícius de Moraes residiu. Quem é daqui sabe, que ao redor da Lagoa do Abaeté o bicho pega, assim como no Alto do Coqueirinho, na Soronha e em outras localidades. A desigualdade social e a política de extermínio da juventude negra implementada nessas localidades pela guerra às drogas vitima muitos.
Por esses e por ser um bairro de preto, Itapuã sempre se destacou na produção musical de Salvador. Terra das hoje conhecidas, Ganhadeiras de Itapuã, logo cedo no despertar do hip hop baiano, foi local de ponta da produção local. Sereno Loquaz, S.A.N (Só Afrodescendente Nervoso) e QMB (Quinho Mete Bronca) foram nomes que se destacaram e se firmaram na história do rap baiano. Marcola esteve junto com um dos grupos mais relevantes da cena soteropolitana o famoso Turma do Bairro, que lançaram um clássico chamado Stanley & A Cidade do Underground (2015).
Com o fim do grupo Marcola seguiu uma carreira solo e esse trajeto é importante demais para a cidade e para o bairro onde ele poeticamente habita. Para se manter, e manter sua família esse artista vende abará e ainda assim ao longo dos últimos anos, ele não parou de desenvolver sua arte musical com o mesmo afinco com que exerce a arte de merca esse quitute. Aqui no Oganpazan acompanhamos essa trajetória solo desde sua mixtape Ouro de Tudo (2017) e é uma interessante jornada músico-existencial essa à qual temos sido expostos e que viemos tratando aqui nas nossas páginas.
No ano passado Marcola teve um ano intenso de produção e lançamentos e vieram a luz os discos Lírios (2019) e y’At (2019), além da disco de retomada do Turma do Bairro: P.U.T.O.S. (2019) e como se não fosse suficiente saiu também o disco do projeto Ministério y’At (2019). É uma soma de trabalhos lançados muito vultosa, mas não pela quantidade e sim pela qualidade. Sobretudo se você tiver ouvidos para notar o quanto Marcola foi aos poucos de um trabalho pro outro conquistando seu estilo, aqui realmente próprio. Absorvendo sonoridades e esculpindo dentro delas sua lírica de um modo único no país. Essa trajetória e essa história nos traz a o seu novo lançamento: Os Últimos Filhos de Sião (2020).
Seu disco lançado pós São João e nesse ano escroto em que estamos vivendo é um bálsamo e muito mais do que um grito, é realmente a organização mais plena possível de uma vida que se harmonizou a si mesma. Suas questões psicológicas, a dificuldade de produzir, a necessidade de conciliar família, trampo e a busca de uma carreira artística, encontraram no seu encontro com a fé religiosa, uma melodia doce, firme, crítica e ao mesmo tempo o colocou em paz consigo mesmo. Isso é perceptível não por conhecermos a sua fé e a palavra que hoje ele segue, mas por entendermos que esse nível de produções, e o seu conteúdo só podem resultar do processo acima descrito.
Em os últimos Filhos de Sião (2020) com participação de Caboclo de Cobre, MCDO (Afrocidade), Rincon Sapiência e Cristal, o que vemos e ouvimos é esse territorio existencial e musical que Marcola Bituca conquistou. E arriscamos dizer que nesse sentido pouco importa o sucesso, pois ele sabe assim como temos certeza de que as 9 músicas que estão colocadas no disco são o resultado máximo de tudo, absolutamente tudo o que esse mano atravessou em sua longa caminhada. Ele aos poucos deixou de ser o “Caco de Vidro” dentro do sapato dos outros, e a custa de muito esforço ele se tornou local por onde outros podem caminhar tranquilamente.
O Marcola é hoje o monte a ser escalado por quem pretende entender quem no rap nacional tem desenvolvido uma sonoridade própria, uma arte única. A música que abre o trabalho “Terra Santa” é uma aula magna de partida com o feat de Cabloco de Cobre e MCDO, onde a real já é dada de saída. Mistura musical bem dosada e inovadora, um batifum e pagodão gostoso como só em Salvador é possível. A faixa tem cara de ser curtida atrás do trio, groovada potente!
Sobre invisibilidade, correria e a busca eterna de todo ser humano saudável: amor. Em “Sinos de São José” a produção da Aquahertz é um brilho, colocando a voz do Marcola diferenciada, mais uma vez entre o canto e a rima, num flow que já tínhamos chamado atenção em trabalhos anteriores, e que aqui encontra o ponto certo, onde tá batendo tudo. Não se trata apenas de rimar em um beat de pagodão mas se trata de como se as palavras seguem – nesse caso – suavemente sobre o beat… E seguimos ao longo da audição como Marcola se agiganta em rimas, em flows, deitando em beats muito bem pensados, “A Maldição dos Deuses” vem num afrobeat gostosinho e mesmo com um refrão religioso me contagia, mesmo eu esse coração ateu!
Como acima mencionamos, esse trabalho é fruto de uma série grande de mudanças, e em “Samsara” isso é nomeada, ritmado e rimado com mais uma pedrada. Com timbres de reggae, “Corredor da Vitória” vai fundo no mergulho musical de mesclar sonoridades ao seu rap, com a Aquahertz na contenção. Essa música comunica bem nossa vivência nas quebradas aqui, se você quer saber como são os pivetes daqui, temos um bom exemplo nessa música, nossos amores, nossas correrias, nossas referências. Nesse momento, aqui enquanto escrevo o vizinho meteu Amani, “isso é salvador”.
Cupim não se cria em jacarandá, malaquias Marcola se fez madeira de lei, o pivete é baêa nessa desgraça, e em “Quebra Queixo” ele chama o Rincon Sapiência para a gingar. O Manicongo que tem se aproximado bem do trapagodão, não faz feio e essa é uma das faixas que se destaca no disco. Há um interlúdio “Segredo Ancestral” e é uma poesia ritmada da melhor qualidade que em suas linhas, mostra esse político religioso que o Marcola construiu com muita força.
A amada, Cristal, larga o doce junto com Marcola em “Filhos de Sião” e é bonito ver uma artista que vem galgando reconhecimento diretamente do sul do país num feat com um mano de Salvador, que tem lutado por mais visibilidade. E a conjunção é plena nesse diálogo de almas, em meio a uma vida amada. Uma forma de traduzir liberdade é chama-la de jazz, Marcola mandou um “Jazz Pro Fim Do Mundo” onde ele transpõe a morte da arte em favor da vida. Mas é uma morte da arte entendida como os likes, os números, o “sucesso” que acima falamos, que são meras ilusões. Esse procediemento nos coloca em outra direção ao percebermos sua arte como reflexo de sua vida, como um abará que ele pode lhe vender amanhã ali no Centro Administrativo de Salvador, mas me parece que talvez seja melhor você levar ele para sua cidade, pedir-lhe que faça o abará e ouvir as suas músicas e degustar essa maravilha!
Os Últimos Filhos de Sião (2020) é um disco necessário e muito bem produzido, lindo sobre certo sentido e que nos leva a swingar com o Marcola. Que nos encaminha diretamente a sereia de Itapuã e nos dá a sensação de estarmos envoltos àquela atmosfera comendo um tira gosto, tomando uma gelada, e sentindo a brisa do mar. Aquela coisa de passar uma tarde em Itapuã, agora atualizada por um MC que se fez a Pedra que Ronca!
-Marcola é a Pedra que Ronca de Itapuã: Os Últimos Filhos de Sião
Por Danilo Cruz
Danilo
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