Marcola Bituca e a fé inabalável badalando os “Sinos de São José”, novo clipe do rapper baiano não deixa o fogo da criação se apagar!
É uma honra estar num cenário onde Marcola Bituca faz sua correria, é inspirador ver um artista com sua força, com a expressão de uma potência de inventividade que habita sem distinção a fronteira entre vida e arte, ora pendendo para um lado, ora para o outro. Essa sua potência atua como um metrônomo nessa fronteira, lhe desterretorializando ao mesmo tempo em que cria e expande o território de criação por onde ele segue avançando.
Vendendor de abará, empreendedor culinário, sua arte dialoga e é fruto desses corres na rua como vendedor, como MC, como cantor. Podemos imaginar o quanto esse trato com o público teve papel fundamental para a sua formação enquanto mestre de cerimônias e cantor. As recusas, os sorrisos, a atenção e o desprezo, são reações comuns tanto para quem vende nas ruas, quanto para quem faz arte de modo independente.
Do seu primeiro lançamento profissional como integrante da Turma do Bairro até o seu último disco: Os Últimos Filhos de Sião (2020), podemos notar com tranquilidade que a “guia” montada por Marcola Bituca é inquebrável. Não porque ele tenha montado uma franquia de sucesso a ponto de ter as ações de sua empresa negociadas a preços elevados nas bolsas de valores. Pelo contrário, os malotes ainda estão a caminho mas os valores, ritmos, linhas, flows, cantos, instrumentais e misturas de sonoridades são únicos.
Seus últimos discos, a intensidade dos seus lançamentos – foram 5 discos nos últimos dois anos – e a busca por uma linguagem musical própria fazem com que seus “produtos” dentro do mercado/feira musical, não tenham concorrentes. Não por ele ter inventado a roda, mas pela sabedoria recolhida em sua cidade, por colocar a mensagem a frente e atravessando a si mesmo, como poucos MC’s hoje. Dentro de uma cena rica como são muitas das produções no Brasil inteiro, Marcola Bituca gerou a “sua” forma de comunicar suas impressões do social, do afetivo, do divino e do mundano e da música que atravessa tudo isso.
Mas talvez, seja também uma fé inabalável naquilo que quer expressar, apresentar e comunicar, que o faz demonstrar tanta verdade em seus últimos trabalhos. Hoje foi ao ar no youtube, uma apresentação no canal do Showlivre que certamente marca um ciclo muito importante em sua trajetória. Quem teve o privilégio de presenciar a banda groovadeira que ele levou a Sampa, pode ver o que esse material artístico possui como potência e como a executa com maestria. Veja:
Informando a cultura hip-hop com sonoridades que passeiam pelo Trap, Reggae e Pagodão, quem viu Marcola ao vivo hoje, certamente não imagina a batalha que foi chegar ali. E é isso que faz o verdadeiro artista, superando quaisquer dificuldades e apresentando o seu melhor, assim como o faz outros tantos trabalhadores no dia a dia da vida real.
Não se trata aqui de nenhuma apologia da meritocracia, muito menos de apego ao sofrimento, pelo contrário, é demosntrar o quanto Marcola Bituca assim como muitos outros artistas independentes “não deixam a industria moer seus sonhos”. E ao não tombar, nos impulsiona a todos a continuarmos, a termos a mesma fé que ele sem descanso nos apresenta.
Tão certo assim, poucas horas após essa apresentação chegou no youtube o clipe da faixa 2 do seu último disco. O audiovisual de “Sinos de São José” apresenta com simplicidade toda a teia complexa de referências e vivências que Marcola Bituca tem conseguido amalgamar com muita singularidade.
A chama da criação, a chama da vida, um homem negro que não se odeia e clama: “Não me negue Amor”. Correria da vida real, uma existência que se encontrou e caminha sereno por sua quebrada em Itapuã, tendo em seu coração o amor pela sua família e ao mesmo tempo a compreensão de que Deus também lhe habita.
O clipe é eivado de referências religiosas e ou a divindades, flagrando Marcola Bituca com a fé necessária para tocar a vida. Observando ao mesmo tempo o caos social e o vazio existencial, assim como a presença de riqueza nos detalhes que assaltam nossos olhares, de odores e sensações ali na feirinha de Itapuã. A forte carga religiosa no sentido de “religare”, palavra latina que é a raiz etimológica e que significa literalmente re-ligação.
E nesse sentido, como tenho frisado constantemente, pouco me importa com o que alguém está se religando, essa nunca foi a questão. O que se impõem de modo primordial – e hoje mais do que nunca – desde sempre, são quais os valores que essa ligação feita novamente suscinta, sobre quais pressuposto ela se assenta. Sendo assim, Os Últimos Filhos de Sião (2020) em grande medida expressão da fé bahá’í professada pelo Marcola Bituca, vai encontrar em cada um que dele se aproximar os valores que transcendem religiões constituídas e que fazem parte de princípios éticos básicos, hoje tão em falta.
A partícula dessa fé que “Sinos de São José” representa agora, cala forte nesse sentido de uma fé carrregada pelo MC nesses últimos anos, e que tem nos presentado com arte de primeira. O Hip Hop baiano ganha bastante ao se aproximar desses valores que tem sido expressos com muita força por Marcola Bituca. Assista e espalhe a palavra, para honra e glória do rap baiano e nordestino!
-Marcola Bituca e a fé inabalável badalando os “Sinos de São José”
Por Danilo Cruz
Danilo
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