Malatesta, power trio mineiro furioso, lançou seu primeiro trampo, o Ep Avante. Uma atordoante explosão sonora!
Em março encontrei o baterista Bruno Bueno em Ponte Nova – MG para uma noitada regrada a doses de cachaça e bom papo sobre um de nossos objetos de desejo em comum, a música. Ele voltava de Viçosa após um dia inteiro de gravações com os membros de sua mais nova banda, a Malatesta.
Conversamos sobre as vivências sonoras experimentadas com essa nova banda e principalmente sobre o Ep intitulado Avante, lançado no dia 06 de julho. Numa sentada, gravaram as quatro faixas que compõem o Ep, o que permitiu o registro da sonoridade original da banda, tal qual soa aos ouvidos de quem os ouve ao vivo.
A banda é resultado das reuniões inicialmente despretensiosas ocorridas no final de 2017 em outra cidade do interior mineiro, Mariana. Contudo o caldo foi engrossando, deu-se a liga entre os integrantes, estava consolidada a banda estruturada no formato power trio, o qual só pode ser adotado por músicos que não estão para brincadeira.
Quando Bruno compartilhou a notícia da formação da banda e disse o nome escolhido para batizá-la, imediatamente fui remetido à figura do brilhante anarquista italiano Errico Malatesta. Conhecendo o ethos político de Bruno não poderia ser diferente. Ledo engano, havia me esquecido de outro ethos, esse tão predominante quanto o da música, o qual nós também compartilhamos, o etílico.
Embora possa haver afinidades políticas com o Malatesta anarquista, no que tange ao combate das desigualdades sociais, o que pesou no final das contas foi a afinidade com o sabor da cachaça itabirana Malatesta.
O Ep, explosivo na mesma proporção da mais icônica de todas as armas de protestos de rua, o coquetel molotov, Avante possui densidade sonora suficiente para atordoar seus ouvintes ao longo de seus poucos mais de 6 minutos de duração. Ao final da última faixa, resta-nos esperar a reestruturação de nosso aparelho perceptivo, tamanho o impacto da execução das faixas.
Curioso, talvez até irônico, o fato dos membros da banda a batizarem indiretamente com o nome do anarquista italiano, por meio direto da cachaça de mesmo nome, sendo que até mesmo o título do Ep remete a temas políticos e sociais. Quem não pensaria assim ao se deparar com um Ep intitulado Avante composto por uma banda chamada Malatesta?!!
A sonoridade da banda é sustentada por uma coluna vertebral pautada no punk rock, onde se dá o apoio para que elementos de outros subgêneros do rock possam se encaixar. E quando falo de coluna vertebral estou me referindo à batera.
Bruno imprime dinâmica punk sem baixar a guardar um instante sequer para que a guitarra de Guilherme Macial e o baixo de Rômulo Costa possam ter liberdade para explorar com maior liberdade sonoridades do prog. e do hard rock, como podemos ver na faixa 1, Malatesta. Isso é muito bem explorado pela dupla das cordas, que realizam com perfeição varições sonoras ao longo dos 65 segundos de duração da música.
Os caras iniciam com essa entrada com variações muito utilizadas por bandas prog., logo depois caindo num dueto melódico entre os dois instrumentos, que se estende por até o riff de hard rock que segue intercalando arpejos a bends bem articulados demonstrando uma afinidade impressionante. Surpreende a quantidade de variações nesse curto período temporal sem que soe excessivamente técnico, artificial. Essa alternância de relevos sonoros é feita tão naturalmente que é quase imperceptível quando estamos ouvindo a música.
Arrisco-me a dizer que o início da faixa 02, Klaus, recebeu influência direta dos punks da Minutemen. A articulação feita pelo baixo, entrecortada por licks cirúrgicos da guitarra, bem amparados pela dinâmica segura da bateria. Rapidamente outra parte da música se inicia, baixo e bateria começam um swingado baião, permeado por um riff bem pesado da guitarra, que vai se mantendo até que o baixo passa a acompanhá-la e a bateria muda o ritmo. Outra mudança se segue daí e surge uma pegada hard rock bem cadenciada que encerra a faixa.
Já Raso, faixa 03, segue por modulações inquietas, novamente explorando as potencialidades sonoras do prog. Interessante notar que num dado momento a música ganha swing devido a mudança da cadência rítmica, acentuada pelas enfases feitas pela guitarra.
Fecha o Ep Pimenteira, faixa mais longa com pouco mais de 2 minutos de duração, o que permitiu à banda “remendar” ainda mais sonoridades, resultando em diversidade musical impressionante. Presam nessa faixa pela densidade sonora e riffs arrastados, exemplo ao que inicia a música.
Ouve-se apenas a guitarra até a chegada do baixo duplicando as vozes de execução do riff, entra a batera pegando forte o andamento. O riff em duas vozes segue se repetindo até o início de notas mais longas sendo executada e recebendo acentuações que as destacam, enquanto a bateria começa um ritmo cadenciado. Ao final dessa segunda parte, volta-se ao início, contudo, nessa repetição se chega a uma terceira parte, mais rápida que cessa num momento determinado.
São diferentes matizes sonoras elaboradas ao longo dessa quatro faixas, compondo uma colcha de retalhos muito bem urdida, levando o ouvinte a experimentar variados estímulos e sensações. Espero que a Malatesta siga o comando presente no título de seu Ep, siga em frente, trazendo à luz novas músicas de natureza diversa, compostas pelas inúmeras referências musicais que servem de matéria prima aos membros da banda. Sempre avante Malatesta!!
Ficha Técnica
Todas as músicas compostas por:
Bruno Bueno (Bateria), Guilherme Maciel (Guitarra), Rômulo Costa (Baixo)
Ilustração: Dinho Bento e Francisco Martins
Gravação e masterização: Thomas Medeiros
Mixagem: Bruno Bueno, Guilherme Maciel e Thomas Medeiros
Ouça Avante no Spotify:
Carlim
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