A quintessência do piano. Um set ao vivo em trio, com o piano de Mal Waldron e a música que reverbera o auge de seu Blues.
Os grandes baluartes da música de raiz norte americana possuíam toda a linguagem do cancioneiro popular e folclórico debaixo dos dedos. Cânones como Duke Ellington e nomes menos celebrados como o de Mal Waldron, por exemplo, carregavam um conhecimento histórico e muitas horas no cockpit pianístico.
O Duke Ellington… É complicado analisar esse currículo. Você já parou pra pensar a quantidade de histórias e narrativas condensadas nas mãos dessa verdadeira realeza dos standards?
As orquestras de Jazz devem muito ao raro ouvido do compositor – que também, é importante ressaltar, gravou discos preciosos em diversas configurações ao longo de sua extensa carreira – sendo um dos mais angulares, o encontro com Charles Mingus e Max Roach, para cunhar o masterpiece “Money Jungle” (lançado em 1962 pela United Artists), quando o artista já estava com 62 anos.
São muitas tradições por trás de cada nota e, mais do que isso, todos os músicos citados acrescentaram muito a essa mesma história, enriquecendo a rica experiência de apertar play, conforme o tempo passa.
O que dizer sobre o trabalho de Mal Waldron? Um dos grandes mestres do piano Blueseiro. Um músico que estudou piano clássico e está na história, eternizando seu marfim nas maiores gravações da Billie Holiday. É dele o piano de “Lady In Satin” (1958) meu caro. Detalhe que nessa gravação, os músicos da orquestra receberam 60 dólares por 3 sessões, enquanto a Billie Holiday ganhou 150 adiantado. Na época era dinheiro, mas depois do play, nota-se que foi uma mixaria.

Além disso, Mal Wal ainda gravou ao lado dos maiores nomes do Jazz, como Charles Mingus, John Coltrane, Eric Dolphy e Jackie McLean – só para citar alguns – além de ter construído uma contundente carreira solo na europa, principalmente à partir da década de 60, com sólidas contribuições em 70, 80 e 90, até sua morte em 2002 – ano de lançamento de seu último disco – “Left Alone Revisited”, gravado ao lado de outro maestro, o saxofonista Archie Shepp.
Vale lembrar que essa longa discografia saiu por selos menores da europa, como o Japo, Enja, Soul Note, Muse e outros braços de gravadoras maiores que eram distribuídos por outros canais. É muita história. As teclas até pesam pra posicionar essas palavras sem fazer pouco ou soar raso frente a um verdadeiro poço artesiano de som.
Imagina uma conversa entre o Duke e o Mal Waldron? Quem será que paga o drink? Nós só podemos imaginar, meu caro e celebrar o som que está imerso nesse legado jazzístico-umbilical. E para não dizer que escolhi o mais óbvio nessa exposição de raciocínios sobre 2 grandes pilares do piano, escolho Mal Waldron, pois o talentosíssimo pianista de Nova York possui o mesmo fino toque, mas não o mesmo reconhecimento.
E um trabalho que consegue mostrar um pouco da rica paleta que o músico foi capaz de articular é o ao vivo, “Mal Waldron Plays The Blues”, lançado em 1972. Disco gravado em trio, em Munique, na Alemanha, esse registro mostra a vibração de uma gig ao lado de Jimmy Woode no contrabaixo e Pierre Favre na bateria. O trabalho evidencia a eloquência das ideias de Mal, enquanto o próprio articula um magnífico Blues em 3 moviemntos, intitulado “Sweet Blues” ou “Blues Sweet”.
O lançamento que foi via Enja, foi captado no clube Domicile e conta com um repertório vibrante e que mostra como o Jazz e o Blues são indissociáveis, valorizando sua importância estrutural para os caminhos do som contemporâneos.

A faixa de abertura, “Blues For F.P.”, trata-se de uma homenagem ao pianista austríaco Fritz Pauer, que era amigo do “Mal Wal”. O segundo movimento, “Way In”, expande a orbita Blues dessa sonoridade, culminando com o terceiro movimento, uma nova homenagem, dessa vez para Miles Davis, com “Miles And Miles Of Blues”.
O chamado “interplay” do trio durante as interpretações é digno de nota, e é importante valorizar: são todos temas originais. O som do baixo de Jimmy Woode é soberano. Sozinho, como solista, caminha com classe conforme a interação com os outros músicos do grupo, enquanto conduz o show com naipe de Jam session.
O baterista Pierre Favre faz um trabalho muito bom e o mérito de sua atuação é não se esquecer – em nenhum momento – que ele está tocando Blues, e, pensando no trio como a unidade que ele de fato é, vale situar esses pontos, pois é justamente essa sensibilidade faz com que os 3 toquem uma música cadenciada, como “Way In”, sem perder a pressão do swing. Isso tem muito da mão do Mal Waldron, mas pra chegar nessa sonoridade a contribuição do duo baixo-bateria foi primordial.
A roupagem é majestosa, valoriza o som. Enaltece o ato quase poético, porém dificílimo de se tocar lento e mostra a força de lírica de quem de fato vive o Blues. O piano percussivo de “Miles And Miles Of Blues” é tão volátil quanto um gás nobre. O Miles Davis deve ter gostado do tributo.
A tradição com certeza é honrada e esse trabalho é apenas um dos belíssimos discos que o pianista – um dos expoentes da música negra – gravou durante a década de 70. O timbre do baixo em “Up Down Blues” é tamanho, que dá pra ouvir um pouco de microfonia durante os primeiros segundos da track.
A pegada e experiência no business é de quem conhece o arado e por mais arrasadora que seja e execução do último tema (“Blues For D.S”), confesso que não faço ideia de quem seja D.S – aqui plenamente lembrado pela sigla – mas pelo jeito que o Blues chora, diria que ele (ou ela), com certeza deve ter sido uma pessoa fantástica.
E só pra constar, creio que num encontro onde Duke Ellington e Mal Waldron (e vice versa) estão trocando ideia num bar, qualquer estabelecimento que se prese é obrigado a liberar o primeiro drink por conta da casa. É como se desse empate, mas entre eles, foda se a conta do bar. O Blues ganha sempre.
O Blues ganha sempre.
Pra sacar outros plays do Mal Waldron, vale lembrar que saiu essa resenha do “The Call”, lançado em 1971.
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