Lucas Santtana lançou o projeto de um novo disco que deverá ser realizado através de financiamento coletivo: a gente financia o disco e, em contrapartida, recebe as recompensas que são as mais variadas possíveis, dependendo do quanto o patrocinador está disposto a dar, entre $20 e $12.000.
“Modo avião” será o sétimo disco do artista, mas não é só porque você é fã dos outros seis discos (o que por si só já seria motivo mais do que suficiente) que aconselho que você aposte neste próximo. A ideia do disco, como descreve o próprio, é a seguinte: “Imagine se você fosse no cinema e assistisse a um filme de olho fechado, entendendo a história apenas pelos diálogos dos atores, pela fala do narrador, pelos sons ambientes e pelas músicas”. O disco fará dialogar, através de suas faixas, música, cinema, literatura e quadrinhos. Para tanto, colaborarão com Lucas o escritor João Paulo Cuenca, o quadrinista Rafael Coutinho e a gravação será feita com microfonação binaural, muito utilizada no cinema, que se aproxima de como o ouvido humano escuta na realidade, captando os sons 360º. Veja:
A inovação do projeto está em fazer dialogar estas diferentes linguagens de forma coesa. Entendendo que a música hoje busca se adaptar a uma nova realidade artística e comercial, em que as barreiras das propriedades de cada linguagem foram derrubadas e desbordadas, é preciso criar uma nova maneira de expressão e construção da ideia sobre a arte. É assim que podemos pensar a arte contemporânea, se a entendermos como um novo paradigma. E a música, como ela participa disto? Poderíamos concebê-la também como parte do que chamamos arte contemporânea?
Na música, as mudanças foram impostas tanto pelas mudanças tecnológicas e pela transformação dos papeis e criação de novos agentes que fazem o meio, como pela consequente crise da indústria fonográfica. Como sobreviver fazendo música e como que a música pode fazer parte desse novo mundo? Neste momento de transição da indústria e de trânsito entre as linguagens artísticas, fatores diversos podem ser listados. Um deles é a necessidade ou a premissa da colaboração entre os agentes sociais envolvidos no meio. De uma maneira simplificada, a novidade (ou a necessidade) é a de que não mais as produções sejam feitas no estilo do it yourself, mas em do it together. O que por si só levanta a atualíssima e complexa questão sobre autoria artística.
Nesse terreno, meios e fins se desvalorizam e se revalorizam. A ideia do “álbum” como um bem de consumo fetichista é um exemplo de como é flutuante o interesse dos consumidores da cultura. Por outro lado, a valorização da experiência de ir ao show foi o grande gás da música nos últimos anos. A cultura digital e as novas interações produzidas pelas tecnologias são constantemente reformuladas e assimiladas, não apenas como mera integração de entretenimento apropriado pela lógica industrial, mas também como novas formas de ações sociais que nos fazem refletir em que mundo vivemos e como o vivemos. Nos seis discos de Lucas Santtana podemos encontrar um desenho dessa viagem da transformação da composição, produção, divulgação e formas de escuta e recepção musical. Tanto pelas experiências com gravadoras, selos independentes, colaborações, editais, etc., quanto pela busca de inovação técnica e temática pelo artista.
“Modo avião” talvez seja o ápice desta reflexão. Já no instigante título que dá nome ao disco, Lucas Santtana se mostra antenado nas transformações e conflitos humanos, sociais e artísticos correntes pela sua postura.
Se foi convincente toda essa história, corre lá pra contribuir no Catarse.
Faltam 2 dias para encerrar a campanha!
Por Pérola Mathias
https://www.youtube.com/watch?v=W64ZYlCRdtI
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