A dupla mineira Lheo Zotto e Molusco lançou o EP Falso Jazz muito bem costurado pela essência hip-hop, com inspirações do jazz no pensar!
Musicalmente o rap se constrói como uma colcha de retalhos dentro do imenso universo da música produzida na diáspora africana, fazendo desta forma através de batidas, samples e elementos orgânicos, a cama musical para o canto falado. Música jamaicana e o funk/disco music americanos são talvez as duas principais matrizes técnicas e sonoras de onde tudo partiu; porém sem nunca deixar de incorporar quaisquer outros elementos/gêneros musicais e ou avanços tecnológicos.
Alguns estudiosos apontam para o fato de que com o corte de verbas para a educação pública do meio para o final da década de 70 do século passado, e a consequente falta de aulas de música, muitos jovens negros americanos descobriram nos toca discos a possibilidade de usar/criar um instrumento. Esse movimento histórico, mas obviamente não apenas este, é um dos impulsionadores para o começo das possibilidades inventivas do rap.
O ep Falso Jazz (2021) da dupla Lheo Zotto meets Molusco dialoga com esta e com outras histórias, levando-nos além e nos obrigando a pensar na cultura hip hop. Afinal, é sempre necessário distinguir o rap como mera expressão musical, daquele outro que se caracteriza primordialmente como elemento da cultura hip-hop. E é o que essa dupla diretamente de Uberaba interior de Minas escurecem, nos apontando essa distinção com qualidade e conhecimento, Este trabalho também é fruto do encontro, da afinidade e planos do Lheo Zotto com o Molusco, desde o seu retorno à terra natal em 2016, após ter vivido 15 anos em Ribeirão Preto (SP).
Ao longo das 8 faixas que se desenrolam no play durante este Falso Jazz (2021), Lheo Zotto e Molusco trabalham a questão sobre o que seria o jazz, colocada na primeira faixa através de diversas colagens. E esse processo vai se desenrolar e propor expansões ao longo dos 26 minutos de sua duração, que precisam ser enfrentadas por todos os admiradores da cultura hip hop e de suas possibilidades, éticas, políticas e estéticas.
O MC Molusco vem de uma caminhada coletiva com o seu grupo Tretas a Parte, e já está cozinhando seu primeiro trampo solo. O produtor e MC Lheo Zotto me foi apresentado pelo mano Anderson Hebreu (Noticiário Periférico) e desde que ouvi no repeat por semanas o seu disco solo de estreia Hip-Hop de Terreiro (2019), esse mano nunca mais saiu do meu radar. A caminhada de Lheo Zotto é daquelas que não cabem em poucos parágrafos, com mais de 18 anos de Hip-Hop, são muitos trabalhos, projetos e sons na pista, mas só tomamos conhecimento de seu trabalho há dois anos. Não conhecer a sua trajetória é, ao mesmo tempo, parte da nossa orgulhosa miséria e da mais profunda riqueza guardada na cultura hip hop nacional!
“O jazz é uma forma de arte que nos dá uma forma indolor de nos compreendermos” Wynton Marsalis
A forma de produção musical do jazz guarda obviamente bastante de características civilizacionais de África e do desenvolvimento histórico próprio dos negros nos EUA. Nos parece que é o aspecto da colaboração coletiva que mantém a possibilidade da expressão mais singular dos indivíduos, assim como a invenção musical sem amarras, as principais características, deste “Falso Jazz”. É sabido, que o jazz possui dentro da cultura hip hop uma imensa tradição, gerando todo um subgênero chamado rao jazz. Porém, os MC’s e o produtor do EP nos parecem ter buscado mais uma simulação mesmo do Jazz – a potência do falso – do que propriamente ter se filiado a esse sub-gênero apenas.
“O jazz não é o que se torna, mas como se torna”, .
Considerado um dos maiores MC’s de todos os tempos, Rakim não é associado inicialmente a o que se convencionou chamar de rap jazz, no entanto, em entrevista o rapper americano diz que “Buscou que o seu flow se assemelhasse a John Coltrane no saxofone”. É esse o caminho que o “Falso Jazz” de Lheo Zotto e Molusco seguem, a eleição de um “como” tal qual o jazz nos propiciou, o encontro coletivo onde as potências individuais podem ser expressas com liberdade. Musicalmente a vibe é o boombap sujão, recheado quase todo com samples retirados da história do jazz, os Beats são do Lheo Zotto que também assina parte da mix, e a master do trampo ficou a cargo de Beto Dogtyle.
Ao invés do clássico Minton’s Playhouse berço fundador do Be-bop, o QG principal dos encontros para a preparação deste Falso Jazz foi o estúdio “Malandrinhação”. As linhas de baixo que ajudam a conduzir os grooves em boa parte do EP, ficaram a carga dos swingados dedos da Jessica Valeriano. E neste processo, o rap vai se desenvolvendo sem grandes firulas, com produção e rimas sólidas, sem experimentações e ou invencionices, porém nos grudando ao disco de um modo que apenas quem possui apreço pela cultura hip hop é capaz.
Se por um lado há um forte apego à tradição, por outro lado todo esse projeto nos impulsiona para o futuro refletindo sobre nossa situação atual. Os perigos atuais e centenários da existência negra em diáspora, a resistência aprendida e aquela por se fazer diante das novas formas de controle, o pan-africanismo e a força ancestral dos orixás, muitas vezes o mais velho segue sendo o mais novo. Lheo Zotto e Molusco sabem bem disso e ainda contam com reforços para essa missão. Participam das faixas Dj Lê, Bazaka, Ed Preto, Lupa outrAtitud, reforçando a cena unerabense do hip-hop, mas também mantendo as alianças com Riberião Preto.
O trabalho apresentado em “Falso Jazz” nos aponta uma série de reflexões fundamentais que precisam ser feitas com o corpo todo, como é regra tácita na música negra da diáspora. Os MC’s Lheo Zotto e Molusco sabem qual é a missão dos mestres de cerimônias, não são apenas rappers, e conduzem-nos a admiração da música, nos fazem observar melhor nossa tradição preta, oxalá aqueles que tomarem contato com esse EP consigam absorver!
-Lheo Zotto meets Molusco e a mágica do rao em um Falso Jazz(2021)
Por Danilo Cruz
Danilo
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