O MC amazonense Kurt Sutil vem pouco a pouco construindo uma carreira sólida e esse ano soltou dois discos que precisam ser ouvidos!
Ampliar horizontes, buscar outros sotaques que enriqueçam a sintaxe no rap nacional é um dos prazeres e um esforço que nós privilegiamos no Oganpazan. Pois no final das contas é disso que se trata né? Horizontalizar os gostos, não hierarquizar e sobretudo buscar visibilizar artistas que não aparecem no quadro restritivo e xenofóbico do que seja o Rap Nacional!
No começo do ano escrevemos uma primeira matéria individual sobre o Kurt Sutil (que já havia estado em outras matérias), naquela altura por conta do lançamento do audiovisual: “Antes do Amanhecer”. Entendemos que trabalhos emergentes de jovens talentos precisam de visibilidade, pois é assim que se irriga a possibilidade de continuação.
Algo que é pouco notado, quando se refere a artistas de fora do eixo, é exatamente esse nascer e a possibilidade de um contínuo de trabalhos. Poderíamos enumerar aqui, diversos artistas medianos que pelo simples fato de residirem no eixo, possuírem networks e contatos propiciados pela sua mera existência local, conseguem uma enorme visibilidade em muito pouco tempo e com trabalhos incipientes. O que está longe de ser um problema, pelo contrário, faz-se necessário para o desenvolvimento posterior de uma carreira. Porém, fora do eixo, anos de trabalho são constantemente massacrados, pela óbvia falta de atenção e sobretudo de interesse.
No que tange ao Kurt Sutil, esse ano sua discografia floresceu e com bastante vigor, saíndo de um EP lançado em 2020: O Show Tem Que Continuar, Mesmo Que Isso Signifique Terminar Alguns Amores” (2020), para dois trabalhos cheios. Uma clara Revelação, que seguirá desconhecida por uma parcela importante do “rap nacional”.
Ainda no mês de maio, Kurt Sutil lançou Nada Como um Dia Quente Após a Escuridão (2021) com 8 faixas e participações de nomes como Matheus Coringa, Custic, LaraH, Sool, Ligeirinho AM, Sartori. Neste primeiro album, o jovem MC compartilha de uma tendência que ao que parece tem tomado uma parcela grande das produções e que nos parece muito salutar. Há nesse primeiro disco, assim como no segundo, uma gama de ritmos onde o MC mostra sua capacidade de encaixar flows diversos, sem restrição.
Da mesma sorte, Kurt Sutil consegue atualizar trap, funk, boombap e mesmo o drill, com uma lírica que não possui os mesmos tiques de outros lugares, de uma outra parcela importante de produções. Sobretudo em termos de MC’s mais jovens, estabelece-se uma diferença fundamental quanto ao trabalho do amazonense. Ele, ao rimar por exemplo em um beat de trap, apresenta-nos uma gama muito singular de signos que fazem parte da sua vivência.
Ouça-se por exemplo: “Tupã”, um trap pesado da lavra do Custic onde o artista abre um leque muito importante de signos retirados da cultura indigéna. Recorre-se obviamente a ancestralidade indígena, mas modernizando mitos dos povos originários ao mesmo tempo que se cria imagens poéticas que se referem ao terrítorio de Kurt: “Não me misturo, sou Rio Negro caralho!”. Outra faixa de destaque é o feat com Matheus Coringa, um dos artistas mais relevantes do underground nacional. Em “Filtro” o boombap comanda a sujeira e coloca um elemento importante do Kurt Sutil, sua dicção e impostação de voz, que sempre parece saltar à frente do instrumental, comunicando as linhas de modo inequívoco. Falar o que do Matheus Coringa? Se você não conhece o trabalho desse mano, você está por fora.
“Minha intuição não falha, e quando erra, acerta!” Matheus Coringa
Neste primeiro disco que contou com produção de Custic, Maq e Zeusone, além de beats do próprio Kurt Sutil, o artista aborda diversas questões que passam pela sua visão de mundo. Uma perspectiva muito interessante pois nos parece sempre partir de um exercício de introspecção, onde o artista nos devolve letras que parece sempre partir de reflexões éticas, políticas e sobre um si mesmo que de certo modo encarna o papel de um mc fora do eixo, em um norte que custa a ser lembrado e geralmente só o é através da imigração forçada para o eixo.
A questão dos demônios pessoais também está muito presente nesse trabalho, e servem muito para percebermos as angústias e as dores que jovens mc ‘s carregam. Algo que é muito bem trabalhado no áudio final que constitui a última faixa do disco: “Até a próxima”. Assim como, na música “Mundo Invertido”, Kurt Sutil nos apresenta uma coleção de percepções poéticas sobre os “paraísos artificiais” aos quais recorre para desanuviar.
Uma outra característica reafirmada nesses dois trabalhos do MC é a sua predileção por títulos longos para os trabalhos: “Não Assuste as Abelhas” lançado em outubro último, o disco conta com 9 faixas e não apenas mantém como nos parece, sobe o nível. Neste trabalho, nos parece que há uma unidade estética maior entre as faixas, mas segue a linha do trampo anterior no sentido de manter a diversidade de ritmos e subgêneros do rap, porém mais calcado no boombap.
O disco abre com a faixa “Abelhas” que nos apresenta uma sonoridade para cima, solar, de acordo com o título e com a lírica, e traz a participação do Jhonatan Leal. Na música seguinte “Sigo na Sombra Pt. 2”, um exercício sobre as mudanças do ego, sobre angústias, sobre incompreensão, comovente pela lucidez. Em “Não Me Diz” a faixa nos parece que seja uma boa representante dos flertes que o MC produz com o indie ou mesmo com uma estética emo, em alguns momentos.
“Dois leão por dia para cada um, duas vezes melhor de talento full, sou original, cópia é teu cú, não me compare com artista do sul”
O peso seguinte: “Sol em Leão” nos mostra como é possível e segue sendo feito, um Trap substancial, “de mensagem”, rua até não poder mais. “Ibuprofeno” vem com o pesado Victor Xamã e é sem falácia de apelo a autoridade a faixa que mais nos agrada! Cheia de punchlines e ideias que fogem da mediocridade, não é exagero chamar atenção para um fato: aqui temos a união de dois dos grandes MC’s do norte. A atualidade do norte pouco conhecido no eixo e em outras regiões do país e o futuro dessa cena que possui diversos artistas muito bons.
Em “Não Assuste as Abelhas” o artista trabalhou com os beatmakers Custic, Jxx$ e com Victor Xamã. Unfollow é uma daquelas faixas puxadinhas pro soul no beat que traz Sartori e Greg Slim junto, boombapzinho gostoso, trabalhando os afastamentos das relações.”Fobia Social” fecha o disco com a participação de Banjar que esbanja variação de flow e uma lírica sujona. Um trabalho que merece a atenção de quem gosta de rap, de quem sabe que a imagem do rap nacional é arbitrária, xenófoba e não reflete o que é produzido no país.
O ano de 2021 recebeu trabalhos muito interessantes de um jovem artista, conheça, compartilhe e siga o Kurt Sutil!
-Kurt Sutil lançou dois discos em 2021, você ouviu?
Por Danilo Cruz
Danilo
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