Kolx lança sua demotape Naufrágio na Crosta de Um Ser, um dos belos frutos secretos da árvore underground do rap brazuca, confira a resenha!!
Por André Clemente de Farias
O underground vive mais do que nunca. Por mais paradoxal que possa parecer essa árvore subterrânea floresceu e frutificou mais uma vez, mesmo sem as luzes dos holofotes do público de rap. Exemplos não faltam de excelentes artistas espalhados pelo Brasil, lançando trampos de qualidade muito acima da média do atual rap nacional, mas que se mantêm no anonimato por não terem “nome” ou hype.
Alguns conseguiram certa ascensão e reconhecimento, mesmo que em doses homeopáticas, como foi o caso da Sound Food Gang e do Victor Xamã, dois dos principais expoentes do under nacional. Mas a maioria ainda permanece invisível, mesmo lançando alguns dos melhores trabalhos dos últimos anos, como é o caso dos baianos Trevo e Davzera, da mineira Nabru e do paulista Sergio Estranho.
Nossa árvore está carregada de frutos dourados, mas a garotada que compõe grande parte do público de rap se acostumou com doces e gordura, alimentos que apelam para as sensações mas que são pouco nutritivos. Nossa meta é contribuir da melhor maneira que pudermos para reverter esse quadro e apurar os paladares.
Para tal convidamos o leitor a provar conosco o banquete ofertado pelo baiano Kolx, membro de um dos melhores grupos/coletivos de rap surgidos nos últimos anos, Underismo. Kolx lançou recentemente, no último dia 19 pra ser mais preciso, sua Demo intitulada Naufrágio na Crosta de Um Ser (2019).
Na primeira audição, mais superficial, o que mais me chamou atenção foi a atmosfera melancólica que o artista imprimiu através da escolha de beats lo-fi que me lembraram um pouco a sonoridade de alguns beats do Quinto Andar, principalmente daquelas músicas avulsas que eu gostava tanto de garimpar nos sites de download.
Os samples que conversam bastante com a sonoridade do disco e com os temas abordados e a escolha do MC por manter as músicas com curta duração, letras curtas e com alguns momentos apenas com os beats e samples rolando ajudaram a compor essa atmosfera e mostraram como Kolx utiliza todos os elementos artísticos que constituem a obra de forma inteligente e interagindo entre si.
A arte visual é um espetáculo à parte. Muitos MC’s, talvez por influência de Caro Vapor/Vida e Veneno de Don L, passaram a utilizar uma identidade visual específica por faixa, em vez de apenas a arte da capa. Kolx faz algo semelhante, no entanto mesmo aí percebe-se como o artista utiliza todos os elementos para passar uma visão. Em vez de utilizar diversas imagens ele faz uso de apenas uma, variando o ponto de foco e o ângulo da imagem a cada faixa. Através disso faz com que a imagem interaja com o conteúdo da faixa e mostra que o mesmo objeto pode ter diferentes significados dependendo de quem e de como se observa.
O disco é conceitualmente rico e cheio de significados. Kolx foge do lugar comum das referências batidas e apresenta inúmeras alusões a obras e termos de campos completamente distintos que vão desde o cinema, arquitetura e artes plásticas à biologia e física. A escrita caótica, cheia de referências, e as aceleradas no flow que ele imprime em alguns momentos me lembram um pouco o Mahal.
Parece existir um anseio por se comunicar. Kolx parece emergir das profundezas do oceano, ou das profundezas de si, como uma criatura marinha calejada que sobe à superfície com certa fragilidade e experimenta um mundo de plástico. Em certos momentos inclusive, como pode se observar na última faixa com uma base reutilizada da música “Oh No!” do rapper irlandês Rejjie Snow, o volume da voz do MC baixa em alguns momentos da música dando a impressão de um mergulho momentâneo para se hidratar durante sua estada na superfície ou um retorno às profundezas.
Um recurso muito utilizado por ele durante toda a Demo são as imagens antitéticas e paradoxais. A profundeza e segurança do próprio quarto vs. a cidade artificial e plastificada, regras e lógica vs. surrealismo e imaginação, vida e morte, medo e ação, amor e solidão e o dilema que atinge cedo ou tarde todo artista independente, a saber, a inadequação ao emprego formal frente à necessidade de sobrevivência.
O dilema causado por esses conceitos não tem solução, ele é o que compõe a vida do eu-lírico e em certa medida as vidas de todos nós. A conclusão possível que se tira disso é que a única coisa capaz de harmonizar os opostos é o impulso criativo, o fazer artístico e, em última instância, a arte em si. “Obras primas, rotas finas, criacionismo do tempo sujo”. Se essa é apenas a Demo, temos muito o que esperar de artistas como Kolx e a Underismo.
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