Guilherme Espir esteve no show do Kenny Barron na Bourbon Street e conferiu de perto toda a categoria do pianista norte-americano
É difícil dominar uma linguagem. Em diversas arestas da arte, existe uma grande diferença entre conseguir dialogar e dominar uma forma de expressão. Existem níveis para isso também, algo que na grande maioria das vezes vai além das capacidades técnicas de um instrumentista, pois em certos momentos a musicalidade atinge níveis absurdos de precisão e acaba sendo maior do que o próprio artista.
É raro testemunhar esse nível de eloquência, principalmente quando falamos sobre jazz – talvez a mais complexa e completa forma de exploração sonora – mas acontece. É como um raio que desafia a probabilidade do som e cai algumas vezes no mesmo lugar. Nesse caso, é como um show do Kenny Barron.
Pianista do mais raro e valioso quilate, Kenny continua desafiando seu piano e o jazz. Numa carreira que engloba do bebop ao blues – passando pelo samba – a discografia do norte americano já superou os 50 anos de carreira, mas nem por isso seu som parou de evoluir, muito pelo contrário.
Em show realizado no Bourbon Street, na quinta-feira do dia 09 de maio, um dos maiores expoentes, não só da história do Jazz, mas sim da música, veio em trio pra mostrar a sua verdade ao público brasileiro.
Acompanhado pelos brasileiríssimos Nilson Matta (baixo) e Rafael Barata (bateria), o pianista visitou o blues, mostrou seu singular ritmo tocando um samba em 3×4, enquanto explorava cada centímetro de seu piano com uma tranquilidade digna de um monge.
Ele subia e descia o marfim malhado com uma calma e um vigor que promoviam um belíssimo contraste frente ao piano luz e sombra – leve e ao mesmo tempo virtuoso – que ele emulava em delirantes fraseados.
Harmonicamente complexa e tecnicamente muito desafiador, o que mais impressionou durante o set de 90 minutos do pianista foi sua calma e o controle que ele tinha frente ao piano. Parece que músicos desse nível – do Olimpo Jazzístico – atingem um nível de conexão com a linguagem que querem expressar que é simplesmente maior do que o próprio dialeto.
Parece que eles atingem o auge quando sentam para tocar. Parece que depois de tantos anos, Kenny sabe e sente cada nota do que está improvisando. É difícil afirmar esse tipo de coisa, mas quem estava presente percebeu a grandeza do momento. Nilson e Rafael estiveram longe de fazer um papel de coadjuvante no contexto dessa jazz, mas o Kenny Barron simplesmente estava em outro patamar.
Por pouco mais de 90 minutos ele se abriu com a plateia. Mostrou todas as faces de seu piano e mostrou que o ponto principal não é dominar a arte, mas sim externar a música em sua totalidade e mostrar para as pessoas que a arte não só um exercício de criação, mas sim de autoconhecimento. É uma troca entre músico e plateia que Kenny Barron soube conduzir de maneira brilhante, revelando a si mesmo e mostrando sua sensibilidade sem perder a majestade.
Por Guilherme Espir do Macrocefalia Musical
Fotos de Welder Rodrigues
Assista Kenny Barron em ação:
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