Não acredito que essa linha seja tangível, é abstrato demais, no fim das contas acho que o único parâmetro possível entre esses dois extremos seja um Keith Richards da vida. Aquele aposentado e pensionista britânico que não possui a técnica de nenhum dos dois citados, mas que no quesito malandragem, é capaz de criar um riff alternativa pra ”Purple Haze” com a tranquilidade de quem conta moeda na fila do mercado.
Pra resumir: ”Crosseyed Heart”, o terceiro disco solo do Keith Richards. Depois de 23 anos sem um novo pack de inéditas, Keef surge inspirado e segue com a mística de criar dezenas de riff’s com a naturalidade de quem vai pegar água na cozinha de madrugada.
Line Up:
Keith Richards (vocal/guitarra/piano/baixo)
Sarah Dash (vocal)
Steve Jordan (bateria)
Bernard Fowler (vocal)
Bobby Keys (saxofone)
Norah Jones (vocal)
Ivan Neville (teclado)
Waddy Wachtel (guitarra)
Track List:
”Crosseyed Heart”
”Heartstopper”
”Amnesia”
”Robbed Blind”
”Trouble”
”Love Overdue”
”Nothing On Me”
”Suspicious”
”Blues In The Morning”
”Something For Nothing”
”Illusion”
”Just a Gift”
”Goodnight Irene” – Lead Belly
”Substancial Damage”
”Lover’s Plea”
Lançado no dia 18 de setembro de 2015, ”Crosseyed Heart” é um retrato de tudo que era, é e sempre será, o mito: Keith Richards. Para quem não sabe, a fagulha para esse novo disco surgiu após uma conversa entre o guitarrista e o baterista de sua banda de apoio, a ótima X-pensive Winos.
Neste brainstorming, Keith relatou todo a letargia dos Stones e a vagorosidade de sua vida, criativamente falando. Foi ai que surgiu o baque, imaginem-se na posição de Steve Jordan ao ouvirem de Keith: ”estou pensando em me aposentar”.
Palhaçada, que absurdo cara, não, pelo meno não agora! Steve ficou perplexo e já foi na jugular. Sugeriu algumas horas no estúdio para ver o que rolava e de todas essas adoráveis desventuras em riffs, saiu o que você está escutando no momento.
O play aparece e já temos a faixa título, sem enrolação, sempre na lata. Aliás, segundo o próprio criador, esse tema caminha dessa forma em homenagem a um dos maiores nomes do Blues, o tinhoso Robert Johnson. Mas nessa levada Keith vai no estilo católico, o problema é quando chegamos em ”Hearstopper”.
É dai pra frente que o menino reconecta seua laços com a X-pensive Winos e começa a emular toda a raiz do Rock ‘N’ Roll. É como sua sagaz frase: ”Mick é o Rock e eu sou o Roll”, e aqui, rapaz, o Roll rodopia com uma dose de Chuck Berry.
O clima é aquele entre amigos, o acabamento é cru e no fim o tom é de brincadeira, mesmo sabendo que a cozinha de ”Amnesia” fala seríssimo. A batera sempre no cangote do baixo, Keith está solto, segue apenas enumerando afinações pouco ortodoxas e brincando nos vocais.
Mostrando feeling e toda a experiência de sua voz seca para a balada ”Robbed Blind”. Repassando a química com sua dupla de guitarras, o fino Waddy Wachtel e as guitarras laçadas. Temos também o Country de Hank Williams em ”Trouble” e a brisa de Gregory Isaacs, Reggaeiro preferido de Keef e maior influência para a seção de sopros jamaicana em ”Love Overdue”.
É até engraçado perceber que esse disco estava a apenas uma aposentadoria de distância. Depois que Richards anunciou esse disco, já logo tratou de confirmar que os Stones voltarão aos estúdios e o resto está eternizado neste LP. Temos o retrato dessa gravação com ”Nothing On Me”, o rotineiro lick de ”Suspicious” e a clássica guitarra ”vai pra cá que eu vou pra lá” ao som do primeiro take de ”Blues In The Morning”.
Esqueça a técnica, as horas de estúdio e tudo que você aprende nas aulas. o dicionário nem possui palavras para definir esse senhor. o segredo dele é o play, é desse ponto que surgem temas como ”Something For Nothing”, ”Illusion” (com Norah Jones), cover’s de Lead Belly com ”Goodbye Irene” e toda aquela boa e velha fritação com o Wah-Wah de ”Substancial Damage” e a bateria roots de Steve Jordan.
Moleque, esqueça os livros, ”Crosseyed Heart” é o relato que comprova, se você quer ser um fora da lei, estude e pense sozinho, fora da caixa, sendo o Roll, justamente quando todos querem ser o Rock. É claro que você não vai ser um Keith Richards, mas pelo menos agora você entenderá o ”hômi” e poderá caminhar no estilo ”Duck Walk”. Discão.
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