“AVIA”, novo álbum de Josyara, aprofunda-se nas raízes musicais brasileira para fazer brotar uma sonoridade atemporal.

Cada vez mais a famigerada “Indústria Cultural” impõe aos artistas um regime de trabalho limitador, obrigando estes a se adequarem a um formato homogêneo, avesso à diversidade e à complexidade. Isso para servir ao paladar domesticado da massa consumidora de entretenimento. Levada a assumir uma postura passiva diante do que deveria ser arte, mas que graças aos filtros algorítmicos se apresenta efemeramente como mero produto de consumo.
Josyara, compositora, exímia violonista, cantora sensível e expressiva, juazeirense, portanto, conterrânea de um revolucionário musical, que criou uma nova forma de tocar o violão, João Gilberto, está entre as artistas que desenvolvem meios de lidar com as necessidades e imposições do “Mercado”, essa entidade teleológica, que dita o ritmo de nossas vidas.
Desse modo, eleva-se ao “hall” de artistas que resistem a essa lógica mercantil. Sempre buscando meios de driblar os mecanismos de controle, para entregar ao mundo uma obra original. Ter um álbum completo de Josyara disponível para nossa apreciação é estar diante de um oásis em meio ao estéril deserto dos singles e hits produzidos dentro de uma lógica “fast food”.
“Avia”, terceiro álbum autoral de Josyara, bebe da tradição musical sem deixar de compor músicas de forte tom contemporâneo. Há o frescor do novo nessa obra! Também fruto da “práxis” coletiva, pois agrega a sensibilidade, criatividade e técnicas de outras subjetividades. Daí sua força expressiva, daí o toque comovente emocional dos sons executados.

Embora viva há 25 anos em Salvador, nunca antes ouvira a palavra “avia”. Atrás de seu sentido, descobrir se tratar de uma expressão cujo significado é algo como “deixar rolar”, “se adiantar”. Esse sentido transparece cristalinamente na maneira como Josyara faz transcorrer, com leveza e precisão, as músicas que compõem “Avia”.
Nisso conduz o ouvinte através de uma jornada emocional, que transita entre o amor, o sentimento de saudade, mas também o desejo e a sublime sensação de liberdade. As dez faixas que perfazem o “set-list” de “Avia” se mostram como um mosaico de sentimentos e sensações, urdidos delicadamente por parcerias de peso, e pela sonoridade expressiva, sensível e vibrante da forma própria da artista acariciar as cordas de seu violão.
“Avia” abre-se para o ouvinte numa releitura da música “Eu Gosto Assim”, originalmente composta pela cantora e compositora Anelis Assumpção. Dá-se de entrada o tom do álbum que se mostra de forma envolvente nas dinâmicas da vida adulta. As mazelas e aspirações com as quais temos que lidar. E Josyara o faz de forma poética e autêntica.
Já em “Seiva”, parceria com Iara Rennó, Josyara canta os prazeres e desejos com plena liberdade. Impossível não se deixar contagiar por essa expressividade intensa! “Festa Nada a Ver” faz com que a dor da despedida ganhe uma aura lírica, enquanto “Corredeiras” se destaca com uma das faixas mais importantes, graças aos seus arranjos de cordas e metais que imprimem ainda mais força à canção.

Em “Encascado”, que tem participação da Pitty, pode ser considerada um dos pontos altos de “Avia”. Uma linda homenagem à mestra maior Cátia de França, na qual a combinação de vozes de Pitty e Josyara confere força à faixa, na qual uma resiliência faz vibrar a tradição da música brasileira, como uma pedra jogada às águas de um lago fazem sua flor d’água ondular.
“Sobre Nós” é uma canção de amor sobre amor e entrega, surgida de uma postagem da cantora nas redes sociais. “De Samba em Samba” vem com uma permissividade que é característica do violão de Josyara. O acompanhamento de músicos em sintonia com a proposta sonora de Josyara como Thiago da Serrinha, Carlinhos 7 Cordas e Kainã do Jêje dão mais cores a essa particularidade estilística do violão de Josyara.
Há sempre um fim em tudo que se inicia. Em “Avia” chegamos até ele com “Oasis (A Duna e O Vento)”. Temos aí um dueto entre Josyara e Chico Chico, que nos convida à introspecção, encerrando o álbum arrancando suspiros e devaneios dos ouvintes.
“Avia” teve produção de Rafael Ramos em parceria com a própria Josyara. Parceria que soube balancear os elementos modernos e tradicionais de forma original e harmoniosa.
“AVIA”, sem dúvida, coloca a carreira de Josyara em outro patamar. É um álbum que respeita as raízes da música brasileira, ao mesmo tempo em que aponta para um futuro possível. Em um cenário musical cada vez mais homogêneo, Josyara voa alto, com asas próprias e um destino certo: o coração do ouvinte.
Carlim
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