Jason Odeia Eu de 1998 é um clássico do hardcore nacional e a banda acaba de disponibiliza-lo nas plataformas digitais, a juventude agradece
No principio era uma chuva torrencial, meus ouvidos estavam muito atentos ao hardcore melódico californiano que era a trilha sonora dos filmes de bodyboarding no final dos anos 90. A chuva caia forte na cidade de Salvador, o surf tava marcado no Barravento, pico que no inverno segura a onda do vento, proporcionando altas ondas. Cupim, colocou um disco, enquanto nos trocávamos no carro e o choque foi absoluto e ainda meio atônito caímos num mar de esgoto rodando 6 pés plus. Muitos tubos e manobras depois, sim eu conseguia fazer isso em 1999, voltamos pra casa chapados das ondas e ouvindo Odeia Eu (1998).
A devida fitinha foi gravada e dai por diante a busca pelo hardcore nacional passou a ser intensa, foi através desse disco de estreia do Jason, que esse que vos escreve travou conhecimento com o cenário nacional de hardcore da época. Bandas como Mukeka di Rato, Devotos do Ódio, Os Cabeloduro, D.F.C., Street Bulldogs and others passaram a fazer parte da nossa coleção de discos. E como diz o amigo Marcelo, esse disco ajudou na formação do nosso caráter!
Jason é uma banda carioca de hardcore, que hoje passados seus 20 anos de carreira, desde a fitinha demo: Eu não amo ninguém (1997), anunciaram recentemente uma pausa sem data de retorno. A banda não acabou, mas também não sabe quando volta. Fizeram um show de 20 anos + despedida recentemente e entraram nesse hiato.
Saca a energia dos caras no clássico e extinto Musikaos:
https://www.youtube.com/watch?v=esGz-V2SFLM
O álbum de estreia do Jason, é uma tiração de onda desde a capa até as letras, tudo isso embrulhado com muita agressividade e rapidez. A logo “inspirada” nos então super famosos Hanson, a foto do casamento dos pais na capa, já impactavam e causavam curiosidade no ouvinte em potencial. Mas ao dar play no cd ou na minha saudosa fitinha, aí é que você ficava entre o riso nervoso e a repulsa, até ser completamente tragado para um mundo de cinismo e paranoia.
Suicídios são lamentados pela sujeira causada na sala de estar e soluções recicláveis para dar fim aos pedaços do cadáver são sugeridas. Incômodos por alguém estar ocupando a mesma cova que você são refletidos aos berros. Ideias sobre amigos a se evitar e um definitivo louvor pela solteirice se misturam a uma espécie de conto gore escrito pelo fantasma de Nelson Rodrigues.
As letras absurdas e cheias de um humor nonsense eram fabricadas com algum tipo de chiclete que uma vez dentro do seu cérebro, funcionariam como aquele mostro do clássico O Enigma de Outro Mundo (1982). O vocal de Vital, a guitarra de Panço, a bateria de Rafael se harmonizam pesadamente com as letras insanas de FF (semideus) e o seu baixo. São 18 pedradas urgentes do mais puro hardcore, executados com rapidez e técnica em apenas 23:16.
Vários temas são tratados nas letras mas a denuncia do ridículo e da hipocrisia, misturado a insanidade que vivemos cotidianamente são o ponto forte de Odeia Eu. Aquela misantropia gostosa, que é sempre bom ter em mira, atravessa canções muito instrutivas como: “Que bom que eu não amo ninguém”, “Meu Saco”, “Broder”, “Longe de Vocês”, “Suma de Vez”. O humor e o nonsense ganham contornos de pseudo reflexões filosóficas sobre a morte, em outras pauladas como: “Quero Dormir Em Paz”, “Tem Alguém No Meu Jazigo”, “Seu Corpo Vai Deitar”, “O Ciclo”.
Criticas políticas, porque não? em “Sua Vida Por Um Real” e em “Ninguém se Importa”, há um riso sarcástico, ao percebermos a hipocrisia dos pseudo engajados, mas também nos leva a pensar o preço pago pela honestidade num mundo de corrupção. A ética também é arranhada aqui em “Marra de Cão” e a critica aos valentões e um dos grandes clássicos – são muitos – contra os que não são e precisam se vestir para ser: “Imagem É Tudo, Sua Cabeça Não tem Nada”. Ironicamente, hoje as lojas de departamento vendem camisas de bandas e astros do rock e calças já rasgadas.
Alucinações, paranóia e outros distúrbios mentais, são tratados com a precisão de um açougueiro em deliciosas peças de humor gore diante da desgraça mental alheia: “A Viagem”, “Insônia”, “Ração”, “O Homem Que Odiava as Mulheres”, “Odeia Eu”.
Tudo isso pra dizer que as novas gerações já podem ter acesso a essa maravilhosa peça de educação sentimental, pois a Chiado Music acaba de disponibilizar esse clássico nas plataformas digitais. E começaram por essa belezura que acaba de completar 20 anos no ano passado. Lançado originalmente pelo selo Tamborete Entertainment do Rafael Ramos (ex-Baba Cósmica) e que também foi o produtor do disco.
Pra turminha jovem e descolada, pros coroas que curtiram o disco e os shows dos caras, a saída enquanto eles não voltam é abrir o aplicativo de sua preferência e curtir Odeia Eu.
Danilo
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