No último dia 14/10, véspera do dia dos professores, Jards Macalé e Paulo Nenflídio foram os convidados do curso organizado por Tato Taborda e Hélio Carvalho no MAR, que chama Polifonia – Arte Sonora: pausa na emissão. É este evento que a foto ao lado registra. O diálogo abaixo se refere a uma pergunta feita ao músico ao fim de sua apresentação:
– Macalé, você se considera experimental?
– Experimental é a vida.
Não, não fui eu que perguntei, eu jamais faria esta pergunta. E não fiz nenhuma, porque tudo que eu conseguia pensar ali eram questões históricas e sociológicas e nunca musicais, preferi me calar. Mas apesar de parecer uma pergunta “boba”, é uma questão primeira e fundamental. Fora que nenhuma pergunta é tola, ainda mais quando quem vai responder é brilhante como Macalé. Qualquer esboço de pensamento que provoca-lo vai arrancar algo genial ou, no mínimo, engraçado.
Quanto à questão colocada, o impulso tende a ser pensar: “é lógico que ele é” – ele havia acabado de debulhar o violão diante de nossos olhos e passou os 5 dias da semana anterior no (genial) Macalândia, cuja proposta era realmente desconstruir 4 de seus discos acompanhado de outros músicos mais novos do que ele – Ava Rocha, Chinese Cook Poets, Thomas Harres, Meta Meta, Cadu Tenório, Eduardo Manso, etc.
Já vi Jards se apresentando algumas vezes, em lugares diferentes, com propostas diferentes. Apesar de não ter visto o resultado do Macalândia, já havia visto um encontro dele com Thomas Harres e Kiko Dinucci na Audio Rebel. E também em Salvador, na ocasião de uma homenagem a Itamar Assumpção na Praça Tereza Batista, no Pelourinho, em que o vi cantando Negra Melodia (que àquela altura da minha vida, eu escutava sempre na versão de Nancyta e os Grazzers). Neste dia, que eu não me lembro o ano, ele foi sucedido por um time de artistas como Arrigo Branabé, Anelis Assumpção, Mariella Santiago, etc. Outra vez o vi no Teatro Castro Alves, só ele, seu banquinho e seu violão. Aí posso dizer que ali naquele banquinho vi Jards sendo o todo de sua carreira. Chegando com uma camisa alaranjada ao palco do teatro e, antes de se sentar, arrancá-la e ficar apenas com a camisa azul royal do super homem, ele cantou e contou histórias clássicas: como a de sua pareceria com Moreira da Silva. Sem nunca perder o tom jocoso, algo meio tímido e pensado.
E ali no MAR (Museu de arte do Rio), Macalé, quando chamado a vir à frente da sala de aula, sentou e tocou sem parar, na maior parte do tempo com os olhos fechados, um repertório que ele disse que estava montando mentalmente enquanto conversávamos antes da aula começar, de acordo com o que cada um falava. Em algum momento ele entrou no repertório bossa nova e começou a cantar O Pato. E entre a execução no violão e o canto que sobressaltava a batida, ele, em retorno, sincopava o canto com onomatopeias que pronunciava substituindo a letra da música. Neste instante, Macalé nos colocou para fazer um coro ao longo de O Pato, pedindo que imitássemos qualquer bicho. Parece ridículo, mas eu, que só poderia imitar uma gralha, novamente me calei e pude escutar o coral de supostos bichos e risadas que vinham de trás de mim e do violão à minha frente, junto com o “quen quen” que Jards emitia. Foi um momento alegre, não bobo, nem tão inusitado ou original como acreditam os mais ingênuos (eu inclusa), mas inédito para mim. Neste momento, algumas referências se encontram.
Em primeiro lugar, depois da aula me dei conta de que o recurso usado na aula havia aparecido no documentário Macalé – Há um Morcego na Porta Principal, de Marco Abujamra e João Pimentel. No documentário, enquanto os diretores o acompanham num passeio pela lagoa, ele conta sobre um dia em que estava andando à beira de uma lagoa (que não sabemos se é aquela ou não), na qual havia alguns patos em volta, e ele começou a brincar, tocando e imitando os patos. A surpresa foi que, na história de Jards, os patos responderam. “Qué queren quen”, canta ele. E diz no filme: “isto eu queria fazer no palco, mas onde é que eu vou arrumar o lago e os patos… selvagens?”. “Patos que respondem”, diz o diretor. “Não, geralmente eles respondem! Eles são malucos”.
Certamente que uma horda de humanos, adultos, sérios, em horário de trabalho (que na academia, quando este é sério, é todo sobre desconstruir e reconstruir incessantemente), imitando patos e galos e galinhas e lobos, mais do que ridículo, soou alegre e divertido. Se a alegria é o jargão que funda mitos sobre a constituição do brasileiro, mais do que a prova dos nove, ela também já foi o ponto chave de análise da bossa nova. Que por incrível que pareça, é um assunto que tomou todas as minhas conversas musicais com meus pares nas últimas semanas.
E, por fim, ele contou sua última história neste dia, sobre quando João Gilberto o convidou à sua casa. Chegando lá, ele ficou por horas tocando sem falar nada, no que Macalé acompanhou até decidir ir embora. E neste dia JG teria lhe contado um segredo: A bossa nova não existe. O que existe é o samba.
Caminhando entre anedotas, clichês e invencionices, um fio conecta todas estas delongas: a repetição. E acredito que uma certa repetição que vemos em artistas como Macalé seja variações e improvisações sobre o mesmo tema, o que o tornam se não infinito, ao menos múltiplo. É de se perguntar por que certos artistas (e muitos deles consagrados, como Macalé), escolhem determinadas canções para figurarem para sempre em seu repertório. No caso de Macalé, o aspecto da desconstrução é claro. E por tantas vezes repetido, tal atitude toma o ar de missão educadora. O que Macalé quer nos dizer toda vez que executa Para Ver as Meninas ou O Pato? O que essas canções nos ensinaram – e, na verdade, o que a bossa nova, mais do que nos ensinou, nos tem ainda ensinado? Pois não são poucas as controvérsias que causa, entre os estudiosos, a forma como o estilo é tratado dentro da história da música brasileira. E como subverteremos a forma como contaremos a história da nossa música popular? Conseguiremos dinamizá-la? Ou apenas seguiremos substituindo um totem por outro, os tornando ciclicamente tabus insignes de demandas sociais próprias de um tempo específico?
Diante de todos estes fatos, os quais todos eles me sensibilizam de uma forma muito direta, é preciso pensar que o que Jards Macalé se considera, quando questionado sobre se é ou não algo, ou como ele se porta diante da definição de “experimental” – rótulo que costumamos muito falar nos dias de hoje, mas sequer ousaríamos atribuir a ele lá logo depois do episódio da primeira apresentação de Gothan City. E sua resposta foi “experimental é a vida”. Uma resposta cósmica, filosófica, sábia, cômica e irônica, como ele é. Pois, para mim, Macalé é um daqueles artistas que ensinam em pequenos gestos e grandes doses.
Por Pérola Mathias (texto originalmente publicado no blog Poro Aberto, para conhecer mais o trabalho da autora visite: http://poroaberto.tumblr.com/).
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