Issa lança Ambush Bahia (2020) uma estréia muito forte! Negociando com diversos estilos musicais da diáspora africana com maestria
Em seu disco de estréia o baiano Issa nos apresenta um caleidoscópio musical afro diaspórico que se propõem a construir uma armadilha, uma tocaia, uma arapuca, capaz de capturar os seus ouvidos e sobretudo sua alma. Mas essa captura é paradoxalmente o caminho para a libertação, para o auto reconhecimento de si próprio como parte de uma tradição e de uma história. Abrindo mão de uma caixa de ferramentas bem completa, o artista passeia com naturalidade por diversos estilos e ritmos musicais, forjando em fogo brando sua identidade ao longo do trajeto.
Em Ambush Bahia (2020) o cantor e compositor estréia sem muito aviso prévio, chega pá onda e em meio a um cenário um tanto quanto inóspito. As condições sanitárias às quais estamos submetidos tem de algum modo reforçado os mesmos gostos e hábitos das pessoas no que tangem a música, levando às mesmas a não se colocarem no caminho dessa “armadilha” aqui analisada! Temos percebido muitas pessoas conclamarem solidariedade diante dos artistas, ora esse ethos deveria ser algo constante para todo aquele ou aquela que diz amar a música, mas infelizmente não florescerá com apelos em rede social.
Mudanças desse tipo são sempre fruto de educação e de políticas públicas que passam pela educação mas também pelo fomento da cultura. Por si só, Ambush Bahia (2019) é também uma peça de educação e de fomento da cultura afro diaspórica e baiana, em uma estréia que abre caminhos para a percepção da riqueza e das possibilidades da música preta no século XXI. Reggae, pagodão, pitadas do rap, rock preto, e perceba, aqui não há nenhum sinal de uma frágil ecletismo, antes é a liga pan-africana que determina a chegada de cada um desses gêneros.
O clássico Ambush In The Night do mestre Bob Marley presente no disco panafricanista Survival (1979), é aqui uma chave possível para compreendermos ou adentramos a proposta musical e epistêmica a qual Issa abre mão. Uma concepção de África unida, a fuga das visões de mundo eurocêntricas que se configuram nas emboscadas pela noite de um povo ainda massacrado no novo mundo. Tudo isso está presente aqui, tudo isso atravessa o disco e reflete em esplendor no espírito do ouvinte atento, que vai perceber a forja quente de onde as ferramentas pretas emanam.
O disco abre com uma faixa que introduz a música de Issa seguindo um ritual nyahbinghi onde a “Anunciação” se faz conclamando uma postura de se colocar os pés no chão. É sempre necessário lembrar da força da dança que em Salcity é manifestação da força ancestral e estética de um corpo africano que em movimento se faz arte. Esse anúncio iniciático carrega essa força retirada afoxé, que transmuta também a dança num caminhar elegante e swingado. Essa ligação com o candomblé é evidente, e encontra em “Amor & Ferro” a continuação sobre as bênçãos de Ogun, e a menção ao domínio do orixá aqui pode ser entendido também como abertura de um caminho com a técnica e com as ferramentas corretas.
O pagodão é aquela expressão que talvez melhor comunique hoje com uma parcela importante das nossas favelas, em Salcity aos poucos alguns têm percebido percebido a força e a evolução rítmica pela qual o estilo tem passado. “Aroma” é uma groovança guerreira e alegre e antecede uma das minhas preferidas: “Impostor”. Num reggae com uma melodia deliciosa e com a participação da poeta e MC Má Reputação, numa parceria muito bem dixavada com o tema que versa e rima sobre a importância de termos nossa história reconquistada.
Essa encarnação de diversos vetores da história negra é incorporada com muita força na arte do Issa, e em “Bonita” isso se expressa pelo afeto e admiração transformada em poesia para as mulheres negras. A faixa inclusive já ganhou um videoclipe e você confere abaixo.
Amor emana ao longo de Ambush Bahia (2020), e ele é expressado pelas canções que em todo o disco demonstram por parte do cantor, compositor e instrumentista seu arraigado conhecimento. Conhecimento da história da música baiana onde podemos perceber influências de Gilberto Gil, do discos clássico da dupla Jorge Alfredo e Chico Evangelista. Em “Carrossel” a visão política e ética do artista vem a tona com uma força pop muito bacana e as rimas do mano Marcola só reforçam a proposta e ainda cita uma das influências: Raimundo Sodré. O samba é a tônica de uma das letras mais interessantes do disco, em “Ladainha de Turuca”, o recôncavo emerge aqui com muita força.
Rock modernoso tem? Tem sim porque o rock é preto apesar da apropriação cultural pelo qual passou. Aqui ele responde pelo nome de “Carapuça” com uma pegada bem própria e ao mesmo tempo com inspirações do rock mais alternativo e aqui podemos perceber também a importância da banda e das produções do disco. A produtora AquaHertz tem apresentado um trabalho ímpar nos últimos dois anos, e aqui não foi diferente. Da mesma sorte a banda que acompanha o Issa aqui é digna de nota: Ejigbo (Baixo), Felipe Pires (Piano Elétrico), Bruno Torres (Sax e Flautas) além do co-produtor e guitarras Mayale Pitanga.
Prova disso é a última faixa que encerra o disco, “Irie” é um tema instrumental elegantíssimo, onde o piano elétrico de Felipe Pires conduz a gig com uma elegância fantástica. Um final doce, sossegado que na verdade abre alas para esse novo artista em nosso meio, que abre seus trabalhos musicais com um disco que transparece muita consciência musical, fruto de uma visão política e estética que o ethos do disco expõe com muita firmeza.
Fugindo das armadilhas sistêmicas que cercam a existência dos homens negros, e ao mesmo tempo esquivando de ao utilizar tantas referência se perder e cair nas armadilhas dos clichês musicais. Issa consegue produção uma emboscada de bonde numa esquisa qualquer da internet, ao alcance de um clique, Ambush Bahia (2020) procura quem busca conhecer a música preta baiana do século XXI. Em tempos de Covid-19 ouvir essa estréia me lembra de algum modo a frase do Opanijé: “Quem sabe a cura nunca teme a doença”!
-Issa lança Ambush Bahia (2020) uma estréia muito forte!
Por Danilo Cruz
Danilo
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